Brasil

    Tática dos EUA para títulos do Tesouro fracassa e rendimento atinge nível preocupante

    A tentativa do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de estabilizar o mercado de US$ 32 trilhões (R$ 163,23 trilhões) em títulos da dívida pública do país saiu pela culatra, com investidores alertando que a primeira investida dele foi tímida demais para conter a disparada dos rendimentos e, em vez disso, abalou sua credibilidade. Leia mais (09/11/2026 - 09h41)

    Folha de S.Paulo
    11 de setembro de 2026 às 12:41
    Tática dos EUA para títulos do Tesouro fracassa e rendimento atinge nível preocupante
    Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos fala ao microfone. Ele veste terno escuro, camisa branca e gravata azul, com broche da bandeira dos Estados Unidos na lapela. Ao fundo, desfocada, está a bandeira americana. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A tentativa do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de estabilizar o mercado de US$ 32 trilhões (R$ 163,23 trilhões) em títulos da dívida pública do país saiu pela culatra, com investidores alertando que a primeira investida dele foi tímida demais para conter a disparada dos rendimentos e, em vez disso, abalou sua credibilidade.

    Scott Bessent discursa durante encontro com ministros da Economia e presidentes dos BCs dos países do G20 - Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters · Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters
    Scott Bessent discursa durante encontro com ministros da Economia e presidentes dos BCs dos países do G20 - Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters · Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos, referência para trilhões de dólares em ativos no mundo todo, saltou nesta semana para o maior nível em quase três anos e está prestes a atingir a marca de 5%, considerada um patamar preocupante em Wall Street.

    O rendimento chegou a 4,98% nas negociações asiáticas de sexta-feira (11), antes de recuar para 4,94% em Londres. O petróleo Brent caiu para menos de US$ 105 por barril, após ter atingido quase US$ 110.

    Já o rendimento dos títulos com vencimento em 30 anos atingiu seu nível mais alto desde 2007 nesta sexta, alcançando 5,35%.

    Operadores da Bolsa observam painéis que mostram variação de ações e títulos na Bolsa de Nova York - Spencer Platt/Getty Images via AFP · Spencer Platt/Getty Images via AFP
    Operadores da Bolsa observam painéis que mostram variação de ações e títulos na Bolsa de Nova York - Spencer Platt/Getty Images via AFP · Spencer Platt/Getty Images via AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A mais recente alta dos custos de financiamento ocorreu mesmo após o Tesouro lançar um programa de recompra de títulos de US$ 6 bilhões, ampliado por Bessent durante esta semana para combater o que ele descreveu como uma "febre" no mercado mais importante do mundo. Em vez disso, a intervenção despertou temores de que os Estados Unidos —a âncora das finanças globais— estejam agindo de maneira mais comumente associada a tomadores de empréstimos mais frágeis.

    "Não podemos ignorar o fato de que há riscos típicos de mercados emergentes em algumas das medidas que os EUA vêm adotando", avaliou Ellen Zentner, estrategista-chefe de economia do Morgan Stanley Wealth Management e integrante do Comitê Consultivo de Empréstimos do Tesouro, que assessora o governo sobre emissões de títulos.

    "Normalmente, não vemos políticas intervencionistas partindo dos Estados Unidos. Ou, quando vemos, trata-se de um processo formal e institucionalizado", recordou.

    Operador com jaqueta preta e patch da bandeira dos EUA monitora múltiplas telas com gráficos e dados financeiros na Bolsa de Nova York. Outro profissional está ao fundo, também diante de computadores, em ambiente interno com iluminação arti
    Operador com jaqueta preta e patch da bandeira dos EUA monitora múltiplas telas com gráficos e dados financeiros na Bolsa de Nova York. Outro profissional está ao fundo, também diante de computadores, em ambiente interno com iluminação arti — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A operação de recompra do Tesouro , que surpreendeu os investidores quando foi anunciada em agosto, ocorreu após uma intervenção para sustentar o iene japonês .

    A alta dos custos de financiamento nesta semana foi alimentada por uma disparada repentina dos preços do petróleo, que subiram fortemente na quinta-feira à medida que se intensificou o confronto entre EUA e Irã pelo estreito de Hormuz e ataques de rebeldes houthis apoiados por Teerã passaram a representar uma ameaça crescente ao abastecimento proveniente da região .

    O presidente norte-americano, Donald Trump , também sinalizou nesta semana que sua guerra no Irã e os elevados custos da energia poderiam se prolongar para além das eleições legislativas de novembro .

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O salto dos preços da energia provocado pela guerra no Irã somou-se às preocupações com o volume recorde de endividamento soberano e com uma enxurrada de emissões de empresas de tecnologia, impulsionando os rendimentos globais.

    As preocupações com as finanças públicas dos Estados Unidos, depois de a dívida do país superar US$ 40 trilhões no mês passado, aumentaram na quinta-feira, após Trump prometer um pagamento de US$ 5.000 (R$ 25,5 mil) a todos os adultos americanos caso os republicanos vencessem as eleições de meio de mandato, marcadas para novembro, a um custo superior a US$ 1 trilhão. As expectativas de que a inteligência artificial impulsionará um forte crescimento econômico também têm contribuído para o movimento.

    Mas gestores de fundos disseram que a alta do rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos desde o início da semana —atualmente de 0,16 ponto percentual— também mostrou que a operação de recompra de Bessent foi fraca demais para conter os custos de financiamento.

     Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira
    Programar investimentos é estratégia psicológica e traz mais disciplina financeira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Tesouro havia informado na quarta-feira (9) que compraria no máximo US$ 6 bilhões em títulos em sua primeira recompra, em comparação com os "pelo menos" US$ 4 bilhões prometidos em meados de agosto , quando anunciou a medida. Mas alguns bancos e investidores esperavam uma operação maior. Na quinta-feira, o Tesouro anunciou que havia aceitado apenas US$ 5,2 bilhões em ofertas de investidores para a venda de títulos.

    Vincent Mortier, diretor de investimentos do grupo Amundi, afirmou que o pequeno porte da intervenção significava que ela "não resolve o desafio mais amplo" da alta dos rendimentos nos EUA. Segundo ele, a sinalização de Bessent aos mercados por meio das recompras poderia se mostrar contraproducente, por "demonstrar certo nervosismo" por parte do governo.

    Questionado sobre as reservas dos investidores em relação à operação de recompra, um alto funcionário do Tesouro apontou para um leilão "excepcionalmente forte" de títulos de 30 anos, também realizado na quinta-feira.

    O funcionário afirmou que os compradores primários —grandes bancos responsáveis por absorver qualquer oferta não adquirida pelos investidores— adquiriram a menor parcela já registrada para esse tipo de título, enquanto a relação entre ofertas e títulos disponíveis, uma medida da demanda, foi a terceira mais alta dos últimos cinco anos.

    A recompra integra uma postura cada vez mais intervencionista adotada por Bessent, um ex-gestor de fundos de hedge que se tornou secretário do Tesouro. Entre as medidas está uma intervenção para sustentar o iene em relação ao euro no fim de julho, que pegou o BCE (Banco Central Europeu( de surpresa. Nesta semana, Bessent advertiu o mercado a não apostar contra ele no iene , dizendo aos investidores: "Eu sou a banca", em alusão aos jogos de cassino, nos quais a banca é responsável pelo pagamento aos vencedores de apostas.

    Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.

    A decepção do mercado com o programa de recompra decorreu da impressão de que o Tesouro tentava "fazer as coisas gastando o mínimo possível, quase contando os centavos... o que é incompatível com uma abordagem de ‘custe o que custar’", indicou Mark Cabana, chefe de estratégia para juros dos Estados Unidos no Bank of America.

    "Se você vai intervir, deve se preocupar mais em levar o mercado em determinada direção ou atingir certo nível do que com o preço que está disposto a pagar", acrescentou. "Não dá para ter as duas coisas."

    Alguns investidores apontaram que a intervenção de Bessent, embora surpreendente, foi pequena demais para conter a onda de alta dos rendimentos, impulsionada pelas preocupações com o déficit crescente dos Estados Unidos e a inflação persistente.

    "Eu imaginaria que Bessent entenderia que, em qualquer intervenção, a primeira investida é a melhor oportunidade e é preciso chegar com força", disse Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine.

    Em algumas das principais economias do mundo, o rendimento dos títulos públicos nacionais tinham performances diferentes nesta sexta. O rendimento dos títulos alemães a 10 anos subiu 0,01 ponto percentual, para 3,51%, elevando os custos de financiamento na Alemanha ao seu nível mais alto desde 2009 e ligeiramente acima dos níveis observados durante a crise da dívida da zona do euro.

    Já no Reino Unido, o rendimento dos títulos do governo com vencimento em 10 anos caiu 0,04 ponto percentual, para 5,34%, ficando pouco abaixo do nível mais alto desde 2007.

    Os mercados de ações asiáticos caíram devido à alta dos preços do petróleo, que afetou fortemente a região, já bastante exposta aos custos de energia. As Bolsas de Seul e de Tóquio caíram 1,8% e 1,9%, respectivamente, enquanto em Taiwan a desvalorização foi de 1,6%. Xangai e Hong Kong também registraram quedas de 1,2% e 0,6%, respectivamente.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    De 2ª a 6ª pela manhã, receba o boletim gratuito com notícias e análises de economia

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/tatica-dos-eua-para-titulos-do-tesouro-fracassa-e-rendimento-atinge-nivel-preocupante.shtml.

    Imagem 1
    1 / 5

    Scott Bessent discursa durante encontro com ministros da Economia e presidentes dos BCs dos países do G20 - Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters · Sam Wolfe - 01.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)