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    Tarifa horária no Brasil não é suficiente, mas é absolutamente necessária

    Em artigo à CNN Infra, Angela Gomes explica por que a tarifa horária é necessária no Brasil, mas o preço sozinho não basta para mudar o consumo de energia

    CNN Brasil
    27 de agosto de 2026 às 11:00
    Tarifa horária no Brasil não é suficiente, mas é absolutamente necessária
    Foto: CNN Brasil

    A conta de energia é um dos poucos preços que o consumidor brasileiro paga sem saber exatamente pelo que está pagando: ela chega como um valor único, sem qualquer distinção entre o quilowatt-hora consumido de madrugada e aquele consumido no pico da noite. A proposta da Aneel, em discussão na Consulta Pública 46 (CP 46) , de aplicar automaticamente tarifas horárias aos consumidores de baixa tensão, incluindo os beneficiários da geração distribuída (MMGD), pretende mudar esse cenário. É uma medida muito bem-vinda, ainda que os primeiros resultados dos sandboxes tarifários em andamento no país mostrem que, isoladamente, o preço bem calibrado ainda não é suficiente para entregar o esperado.

    O consumidor de baixa tensão responde por mais de 40% do consumo de energia elétrica do país . A MMGD conectada à baixa tensão já supera 50 GW , já ocupando o posto de segunda maior fonte de geração do país. Mas as tarifas desses usuários não carregam qualquer sinal temporal ou locacional, tampouco remuneram adequadamente os custos fixos do sistema.

    A lógica que sempre orientou as regras tarifárias brasileiras é a de que os custos de transmissão e distribuição estão ligados à demanda de ponta, já que a infraestrutura precisa ser dimensionada para as horas de maior carregamento. Essa lógica, porém, já perdeu aderência à realidade: o avanço da geração solar, centralizada e distribuída, criou um sistema ocioso durante boa parte do dia e bastante congestionado no início da noite.

    Lâmpada • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil · • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
    Lâmpada • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil · • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Sem um sinal tarifário que diferencie os horários, os usuários de baixa tensão não têm incentivo para deslocar consumo para os períodos de sobra de energia — o que contribui para o aumento do curtailment de fontes renováveis e sustenta uma trajetória de investimentos bilionários dimensionados para uma ponta que poderia ser reduzida se a baixa tensão modulasse o seu consumo, deslocando parte dele para os horários de sobra de energia. O desenho de tarifas mais aderentes ao custo real da energia no atacado é peça-chave para este processo.

    É aqui que as discussões da CP 46 e os sandboxes tarifários entram. Os resultados relatados nos sandboxes em andamento indicam que, mesmo com diferenças de preço expressivas entre o horário mais caro e o mais barato, e com investimento relevante em comunicação, a resposta média do consumidor convencional foi pequena e pouco significativa. Isso, entretanto, não invalida a tarifa horária como instrumento, mas deixa claro que ela não pode ser tratada como suficiente por si só. A política tarifária eficaz consiste em um pacote, e não apenas em um preço .

    A experiência acumulada sugere que uma resposta efetiva a sinais de preço depende de automação: cargas com algum grau de automação, como veículos elétricos, aquecimento, climatização e baterias, respondem de forma mais consistente, enquanto o restante da carga residencial dificilmente reage sem mediação tecnológica ou sem agregadores que tomem a decisão em nome do consumidor. Há também uma dimensão comportamental que exige tempo de maturação. Afinal, mudanças de hábito não ocorrem em poucos meses , e experimentos com duração de um ano tendem a subestimar a resposta de longo prazo, como já ocorreu com outras inovações que levaram anos para mudar hábitos de consumo.

    Os resultados indicam ainda que a tarifa horária funciona bem melhor quando calibrada por perfil de usuário e não como um desenho único aplicado indistintamente, em especial para os beneficiados pela MMGD. A esse respeito, destaca-se recente parecer da procuradoria federal, emitido no âmbito da CP 46 (Parecer 166, de 06 de agosto de 2026).

    Nele, o órgão reforça, com base em premissa já firmada em parecer anterior da mesma procuradoria (Parecer 10/2026, referente à CP 45/2019), que a valoração da energia por posto tarifário é instrumento apto a tratar os desafios da MMGD sem violar a Lei 14.300/2022. Conclui, assim, que a aplicação da tarifa horária aos prosumidores é compatível com a legislação e com a competência tarifária da Aneel, exigindo-se apenas motivação adequada e implementação ordenada (informação clara, comunicação prévia, prazo de adaptação).

    Nesse contexto, as discussões realizadas no âmbito da CP 46, bem como o aprendizado dos sandboxes, devem servir de base para redesenhar o modelo tarifário da baixa tensão , com parâmetros recalibrados periodicamente, jamais para abandonar a sinalização horária.

    * Angela Magalhães Gomes é diretora técnica da consultoria PSR

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/infra/tarifa-horaria-no-brasil-nao-e-suficiente-mas-e-absolutamente-necessaria/.

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    Lâmpada • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil · • Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil — Foto: CNN Brasil

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