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    Susan Choi constrói uma narrativa em lampejos no ótimo 'Lanterna'

    Há um detalhe no início de "Lanterna" que o livro inteiro se encarregará de desentranhar: uma lanterna cai e pousa na areia sem fazer barulho. Leia mais (08/10/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de agosto de 2026 às 18:00
    Susan Choi constrói uma narrativa em lampejos no ótimo 'Lanterna'
    Mulher de cabelos grisalhos curtos sorri para a câmera sentada em uma poltrona de auditório com fileiras de assentos vazios ao fundo. Ela veste blusa branca com estampa floral vermelha e detalhes em verde. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    A escritora americana Susan Choi, autora de 'Lanterna' - CHRIS J RATCLIFFE/AFP · CHRIS J RATCLIFFE/AFP
    A escritora americana Susan Choi, autora de 'Lanterna' - CHRIS J RATCLIFFE/AFP · CHRIS J RATCLIFFE/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Crítico literário e professor de literatura na Universidade Federal Fluminense

    Há um detalhe no início de "Lanterna" que o livro inteiro se encarregará de desentranhar: uma lanterna cai e pousa na areia sem fazer barulho.

    A protagonista Louisa tem dez anos, está no quebra-mar com o pai numa noite de verão no Japão . A percepção do silêncio dessa queda atravessa a consciência da menina antes que ela a perca para sempre. Mas o problema é que uma criança de dez anos em choque não tem como transformar lampejos sensoriais em uma hipótese amadurecida. Essa dedução leva 40 anos para chegar.

    Capa de 'Lanterna', livro de Susan Choi - Divulgação · Divulgação
    Capa de 'Lanterna', livro de Susan Choi - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Finalista do prêmio Booker, "Lanterna" é o quinto romance de Susan Choi e chega ao Brasil pela Instante, traduzido por Julia Bussius. É um livro que atravessa seis décadas, quatro países, focaliza cinco personagens e mantém o centro de gravidade num único detalhe físico —uma lanterna que caiu sem fazer barulho.

    Serk, coreano nascido no Japão e radicado nos Estados Unidos como professor de engenharia, desaparece numa praia japonesa em 1978. Sua filha Louisa é encontrada na areia, quase morta. Sua esposa Anne, que sofre de esclerose múltipla ainda não diagnosticada, estava imobilizada em casa.

    Décadas se passam. Choi usa as ausências como substrato de um romance sobre o que acontece com uma família quando o silêncio, imposto de fora ou escolhido por dentro, substitui o relato.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Serk nunca contou a Anne seu segredo. Anne nunca contou a Serk os primeiros sintomas da doença. Louisa, durante 40 anos, nunca disse a ninguém que a lanterna não fez barulho ao cair. O leitor também coleciona esses silêncios e tenta, a seu modo, recuperar essas histórias a partir desses fragmentos e suspensões, na tentativa de encontrar algum sentido.

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    A estrutura do romance corresponde a essa lógica. "Lanterna" se divide em seis partes, cada uma com o olhar de um personagem diferente, o tempo avançando e recuando sem aviso. A mesma cena é vista de ângulos diferentes em momentos diferentes.

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    Não há versão segura e definitiva, apenas lampejos, no sentido benjaminiano do termo: fragmentos que iluminam um ponto preciso enquanto o que está em torno permanece no escuro.

    É exatamente o que uma lanterna faz. Choi transforma esse objeto no princípio formal de seu romance, sem reconstruir o passado de modo linear, com focos de luz separados pela escuridão do que ainda não se sabe.

    A memória pessoal das personagens se confunde com a história coletiva, por isso é difícil definir se "Lanterna" é um romance íntimo ou político. O livro nos mostra que essa distinção é falsa.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A seção de Serk criança no Japão, narrada logo nas primeiras páginas, é das mais impressionantes: o menino descobre que é coreano, que seu nome não é Hiroshi, que as línguas que fala em casa e na escola são de países diferentes e que o mapa que aprendeu na aula já não existe.

    Nas seções seguintes, o romance mostra seu lado mais maduro: um homem acorda sem saber onde está, sem saber quanto tempo passou. O leitor o acompanha nesse não-saber, na escuridão que margeia a luz, em um casamento feliz entre forma e conteúdo: a estrutura do romance se recusa a entregar o contexto ou a explicação antes de entregar a narrativa.

    "Lanterna" dialoga com a tradição dos romances de desaparecimento, de W.G. Sebald a Colm Tóibín. Em Sebald, por exemplo, o desaparecimento é sempre uma forma de dizer o indizível: a Shoah, a destruição, o luto sem objeto. A memória fragmentada resta como único protocolo narrativo à altura do horror.

    Choi herda essa desconfiança da linearidade, embora recuse a melancolia como tom dominante. Na última parte, Louisa adulta numa praia, de noite, com uma lanterna na mão, fecha o círculo sem fechá-lo.

    O romance termina com o ato de avançar em direção ao que não se vê, mas que se repete, ainda que de outra maneira: a lanterna que Louisa carrega não é a mesma que o pai carregava na noite em que desapareceu. É outra lanterna, e Louisa sabe disso.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/susan-choi-constroi-uma-narrativa-em-lampejos-no-otimo-lanterna.shtml.

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    A escritora americana Susan Choi, autora de 'Lanterna' - CHRIS J RATCLIFFE/AFP · CHRIS J RATCLIFFE/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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