Suíça transforma competição tributária em disputa por empresas
Enquanto países de toda a Europa competem para atrair os mais ricos do mundo e seu dinheiro, a Suíça tem uma vantagem peculiar: há décadas, o país compete consigo mesmo. Leia mais (09/16/2026 - 17h20)

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Enquanto países de toda a Europa competem para atrair os mais ricos do mundo e seu dinheiro, a Suíça tem uma vantagem peculiar: há décadas, o país compete consigo mesmo.
Governos europeus discutem quanto podem cobrar de impostos de empresas e indivíduos ricos, altamente móveis, sem afastá-los —ou quanto deveriam oferecer para convencê-los a se mudar. Grécia e Itália, em particular, intensificam a disputa para atrair pessoas e empresas para a Europa.
Mas a Suíça conduz sua própria versão desse experimento há décadas. Seus 26 estados competem ferozmente por empresas, moradores ricos e os impostos que eles geram. Quando há uma disputa sobre onde alguém realmente mora, os concorrentes podem acabar nos tribunais, com juízes analisando desde contas de água e compras no supermercado até a aquisição de papel higiênico para decidir qual estado tem direito a cobrar o imposto.

Os políticos também participam da disputa. Heinz Tännler, diretor de Finanças do estado de baixa tributação de Zug, já sugeriu que cidades administradas pela esquerda, como Zurique, afastam os contribuintes que seu estado atrai. Ele as descreveu como alguns dos mais úteis promotores econômicos de Zug.
O prêmio mais recente dessa disputa entre estado é o Vontobel. O banco privado, fundado há 102 anos, anunciou no mês passado que transferirá sua sede e mais de 1.500 funcionários de Zurique para um novo campus em Baar, em Zug, a partir de 2030. Cerca de 300 funcionários que trabalham diretamente com clientes permanecerão no centro de Zurique.
Para Zurique, é inequivocamente uma perda. Uma sede de destaque, empregos e receitas tributárias atravessarão a fronteira estadual. A mudança reacendeu o debate sobre se a maior cidade da Suíça está fazendo o suficiente para competir com seus vizinhos de impostos mais baixos.

O sistema federal altamente descentralizado do país dá aos estados amplos poderes sobre a tributação, enquanto os municípios também definem suas próprias alíquotas. O resultado é algo semelhante à competição tributária internacional comprimida em um país de 9 milhões de habitantes.
Lucerna destronou neste ano, por uma margem estreita, Zug como o estado com a menor carga tributária corporativa da Suíça: 11,66%, ante 11,71%. Em Zurique, a taxa é de cerca de 19%, enquanto em Genebra é de 14%.
Para indivíduos ricos, as diferenças podem ser ainda maiores. A alíquota máxima do imposto de renda pessoal é de cerca de 22% em Zug, contra mais de 40% em Genebra. Schwyz, vizinho de Zurique, tornou-se, enquanto isso, um destino favorito para moradores ricos atraídos por algumas das menores alíquotas de imposto de renda pessoal do país.

A SGS, grupo de testes e inspeções que tinha sede havia muito tempo em Genebra, concluiu neste ano sua transferência para Baar, em Zug. A empresa havia afirmado que a "criação de valor" —ou os benefícios financeiros— da mudança para Zug, incluindo incentivos, era duas vezes maior do que a obtida com a transferência para outro escritório em Genebra.
Genebra está reagindo às preocupações. Seus eleitores aprovaram em 2019 uma reforma tributária corporativa que reduziu significativamente as alíquotas para muitas empresas e apoiaram cortes no imposto de renda pessoal em 2024. Agora, o estado busca outro prêmio. A Millennium Management, um dos maiores fundos de hedge do mundo, negocia com o estado um acordo tributário enquanto avalia ampliar sua presença na região.
A Vontobel afirma que os impostos não motivaram sua mudança. O banco precisava de espaço para reunir funcionários espalhados por sete edifícios em Zurique. Baar oferecia um campus moderno, boas conexões de transporte e espaço para expansão.
Daniel Leupi, responsável pelas Finanças de Zurique, também rejeitou as sugestões de um êxodo do estado. Apenas uma outra empresa entre as 50 maiores contribuintes corporativos da cidade se mudou para um estado com impostos mais baixos na última década, escreveu ele no Neue Zürcher Zeitung (Novo Jornal de Zurique em tradução livre).
Há limites para tentar competir com Zug em seu próprio jogo. Leupi estima que reduzir de 7% para 6% a alíquota do imposto estadual sobre os lucros em Zurique custaria à cidade US$ 183 milhões (R$ 943 milhões). Para compensar essa perda de receita, seriam necessárias empresas que empregassem cerca de 75 mil pessoas. Zurique, argumenta ele, simplesmente não tem espaço para recebê-las.
É aí que está a parte engenhosa do sistema. Uma empresa que se muda de Zurique para Zug representa uma derrota para Zurique, mas não necessariamente para a Suíça. Baar fica a pouco mais de 20 minutos de trem de Zurique. Empresas e contribuintes podem atravessar fronteiras tributárias sem deixar a mesma região econômica —muito menos o país.
Outros governos tentam decidir quanto de sua soberania podem transformar em receita para atrair os ricos do mundo. A Suíça fez com que seus estados competissem para fazer praticamente a mesma coisa.
"É bom tentar ser melhor que seus vizinhos", disse um executivo suíço de uma associação empresarial. "É assim que funciona nosso sistema federalista.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/suica-transforma-competicao-tributaria-em-disputa-por-empresas.shtml.

Disputa por contribuintes transforma diferenças de impostos em estratégia econômica na Suiça - Fabrice Coffrini - 02.set.26/AFP · Fabrice Coffrini - 02.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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