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    STF virou parte da disputa eleitoral de 2026

    Já tivemos eleições presidenciais em que os cidadãos chegaram às urnas sob o impacto de grandes escândalos políticos, investigações policiais e controvérsias judiciais que dominavam o noticiário, como em 2006 e 2014. Leia mais (09/15/2026 - 17h35)

    Folha de S.Paulo
    15 de setembro de 2026 às 20:35
    STF virou parte da disputa eleitoral de 2026
    Ilustração em preto e branco, bico de pena com achuras. Nas laterais da imagem aparecem dois homens de terno, frente a frente, representando os dois ministros do STF que estão em disputa, Alexandre de Moraes e André Mendonça. Entre eles há — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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    Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress
    Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Já tivemos eleições presidenciais em que os cidadãos chegaram às urnas sob o impacto de grandes escândalos políticos, investigações policiais e controvérsias judiciais que dominavam o noticiário, como em 2006 e 2014.

    Já tivemos eleição em que o candidato que liderava as pesquisas acabou preso e foi impedido de disputar a Presidência. Já tivemos campanha presidencial que transcorreu sob bombardeio incessante de fake news, e o próprio noticiário alimentava o desprezo pela política institucional.

    Já houve até mesmo campanha em que o titular do cargo declarava abertamente que as urnas eletrônicas não eram confiáveis e que, portanto, não se comprometia a aceitar o resultado do pleito.

    Sessão do STF analisa relação entre Moraes e Vorcaro, do Banco Master; veja fotos
    Sessão do STF analisa relação entre Moraes e Vorcaro, do Banco Master; veja fotos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em todas essas ocasiões, porém, restava um ponto relativamente fixo. Quando partidos, candidatos e militantes produziam confusão, a Justiça Eleitoral e, no limite, o Supremo Tribunal Federal eram para onde se olhava para saber quais eram as regras, resolver contendas e conter abusos e injustiças. Podia-se discordar de decisões e detestar ministros, mas o STF ainda era o fiador institucional do processo.

    Em 2026, essa posição está confusa. A instituição que deveria funcionar como ponto de solução das controvérsias passou a produzir parte importante delas. Nas últimas semanas, produziu tanto barulho que quase não se ouviram as campanhas.

    Quem está ainda prestando atenção no que dizem os candidatos sobre governos futuros, com tantas mensagens, relatórios e vazamentos que mostram como a teia de corrupção e tráfico de influência construída em torno de Daniel Vorcaro alcança, de algum modo, boa parte dos membros da Corte?

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ou quando as ações dos ministros são lidas como manobras políticas, parte de estratégias de retaliação interna e tentativas de influenciar as eleições? O STF já não aparece apenas no fim das contendas, mas no começo e no centro delas.

    Como efeito disso, consolidou-se nas últimas semanas um sentimento anti-STF que já não se restringe ao clássico ódio bolsonarista ao Supremo. No caso, misturam-se indignação com os privilégios de casta que tanto irritam os brasileiros, suspeita de corrupção e de tráfico de influência, repulsa à sensação de impunidade dos ministros envolvidos e aversão à concentração de poder.

    E isso leva a um imperativo moral social que, em geral, tem consequências imprevisíveis: algo precisa ser feito, alguém precisa ser punido. O que inclui um novo requisito do eleitor: a escolha do próximo presidente, do próximo Senado ou de ambos tem que levar em conta expectativas de ajuste na instituição e punição de ministros.

    Assim, a corte se converteu simultaneamente em parte e em prêmio da competição eleitoral.

    É parte porque todo ato dos ministros começa a ser traduzido para a linguagem da campanha. Quem ganha com isso? Por que decidiu isso agora? A divulgação de determinada informação prejudica quem? A suspeita pode ser improcedente, mas o fato decisivo é que ela se tornou plausível para parte importante do eleitorado. Quando cada despacho é interpretado como movimento num tabuleiro eleitoral, a autoridade do árbitro muda de natureza.

    É parte também porque os próprios ministros passam a ser distribuídos pelo público em campos políticos. Já não se pergunta apenas o que pensa determinado candidato sobre o Supremo. Pergunta-se quais ministros estariam próximos dele, quais seriam seus adversários, quem seria protegido, investigado, afastado ou fortalecido com sua vitória.

    A eleição presidencial é, assim, sobrecarregada com uma eleição imaginária paralela entre facções políticas do STF.

    E o Supremo é prêmio porque o vencedor de outubro terá poder sobre o futuro da corte. Indicações para vagas, relações com o Senado, pressões por impeachment, mudanças nas regras de funcionamento do tribunal e reformas constitucionais entram no cálculo eleitoral.

    A propaganda poderia assumir a forma de uma promoção: vote em um candidato e leve junto o afastamento de um determinado ministro; vote em outro e dê ao seu campo político três novas cadeiras no Supremo; ganhe a Presidência e leve, de quebra, a possibilidade de controlar o STF.

    É uma inversão extraordinária. Durante anos, quando a política brasileira parecia enlouquecer, olhava-se para o Supremo esperando que alguém ainda estivesse cuidando das regras.

    Em 2026, quando todos olham para o STF, já não é para perguntar apenas quem fará cumprir a lei. É também para saber do lado de que juiz está cada um dos candidatos, quem poderá derrubar certos juízes e quem ficará com o tribunal depois da eleição.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/wilson-gomes/2026/09/stf-virou-parte-da-disputa-eleitoral-de-2026.shtml.

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    Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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