Brasil

    STF se desmoraliza no papel de regulador de supersalários

    A capacidade de inovação dos tribunais brasileiros em expandir os salários que pagam é espantosa. Na segunda (24), o Supremo Tribunal Federal adotou um penduricalho remuneratório -um adicional de até 22,5% a assessores e chefes de gabinete dos ministros da mais alta corte do país. Leia mais (08/28/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    29 de agosto de 2026 às 01:00
    STF se desmoraliza no papel de regulador de supersalários
    0 — Foto: Folha de S.Paulo

    Texto não assinado que expressa a opinião da Folha

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Fachada da sede do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF) - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress
    Fachada da sede do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF) - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A capacidade de inovação dos tribunais brasileiros em expandir os salários que pagam é espantosa. Na segunda (24), o Supremo Tribunal Federal adotou um penduricalho remuneratório —um adicional de até 22,5% a assessores e chefes de gabinete dos ministros da mais alta corte do país.

    Trata-se da Gratificação pelo Exercício de Atividades de Alta Complexidade, Técnica e Administrativa (Gaacta), criada pelo Superior Tribunal de Justiça em maio e depois espalhada por outras cortes superiores.

    Tal movimentação se deu após o ministro Flávio Dino , do STF , determinar em fevereiro que União, estados e municípios revisassem as verbas pagas a servidores nos três Poderes e suspendessem, após 60 dias, aquelas sem previsão expressa em lei.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No Supremo, a gratificação é enquadrada como remuneratória —e, portanto, não pode ultrapassar o teto constitucional de R$ 46,4 mil. No entanto sobre ela não incidem Imposto de Renda nem descontos previdenciários.

    Estima-se um custo de R$ 5.300 em média para cada um dos 276 funcionários que podem ser beneficiados. Associações de classe já solicitaram ao STF a extensão da gratificação a todos os servidores da corte, mesmo para os que não ocupem cargos em comissão.

    Fora o impacto orçamentário, a medida contradiz recentes decisões da corte que buscaram moralizar infrações escancaradas ao teto do funcionalismo.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas, rapidamente, tribunais começaram a burlar a limitação. Em março, o próprio Supremo criou, sem base legal clara, uma espécie de novo teto no qual verbas indenizatórias não poderiam ultrapassar 35% da remuneração de juízes e promotores, e ainda reinstaurou o adicional por tempo de serviço (quinquênio).

    Sob a justificativa de isonomia, a Gaacta já começa a se espraiar por instâncias inferiores.

    Um dia após a decisão do STF, o Tribunal Superior do Trabalho, que adotou a gratificação em maio, estendeu a aplicação a tribunais e varas regionais. A medida admite, inclusive, que se estabeleça futuramente pagamento a servidores que atuem em atividades consideradas estratégicas de interesse nacional, mesmo que não ocupem os cargos em comissão hoje contemplados.

    A tese de que seria preciso elevar salários para garantir eficiência é falaciosa, já que é a gestão racional que garante tal objetivo.

    Na comparação com 56 países feita pelo Tesouro, em 2023, o Brasil só ficou atrás de El Salvador entre os que mais gastam com o sistema de Justiça —equivalente a 1,43% do PIB no período, enquanto a média global era de 0,37%. Estima-se que mais de 70% das despesas sejam com pagamento de funcionários.

    Servidores do Judiciário, juízes e promotores já recebem remuneração bem acima da média, tanto do setor público quanto do privado. Penduricalhos são incompatíveis com um combate sério a privilégios, ainda mais num país repleto de desigualdades.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/stf-se-desmoraliza-no-papel-de-regulador-de-supersalarios.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Fachada da sede do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília (DF) - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)