“Sou um escravo”: coronel réu por matar esposa PM relata rotina na prisão
Geraldo Neto afirma que oficiais são minoria no Romão Gomes e diz lavar banheiro, buscar refeições e pedir permissão para entrar em cela

Preso pela acusação de matar a esposa, a soldado da PM Gisele Alves Santana, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que virou uma espécie de subordinado de soldados e cabos dentro do Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte paulistana.
Em interrogatório prestado à Corregedoria da Polícia Militar , obtido em primeira mão pela coluna, Geraldo diz precisar pedir permissão a um soldado para entrar em uma cela, cumprir tarefas de limpeza e buscar refeições.
“Eu sou um escravo”, declarou, acrescentando durante a oitiva que “só Deus sabe que eu tô sofrendo aqui dentro” 8 imagens Fechar modal. 1 de 8

Publicação no Diário Oficial garante salário integral ao coronel, que somou mais de R$ 28 mil, enquanto a PM Gisele recebia R$ 7 mil
Cogan foi ao local onde Gisele foi encontrada com tiro na cabeça
O oficial da reserva da PM foi ouvido na condição de indiciado, acompanhado de advogado, no Inquérito Policial Militar (IPM) aberto para apurar a morte de Gisele.

O assunto surgiu quando Geraldo reclamou da repercussão de mensagens íntimas trocadas com Gisele . Segundo ele, uma delas virou motivo de chacota entre os presos do Romão Gomes.
Ao descrever a cadeia, o tenente-coronel afirmou que 99% dos internos seriam cabos e soldados e que oficiais receberiam tratamento diferente.
“Aqui, eu não sou o Geraldo que a imprensa acusa de matar a Gisele. Aqui, dentro dos internos, eu sou o tenente-coronel que assassinou uma soldado”, afirmou. Em seguida, relatou a inversão da hierarquia militar.

“Eu entro na cela, eu peço permissão para o mais antigo da cela, que é um soldado.” Geraldo disse lavar banheiro, louças e corredor, fazer faxina em geral, buscar café, almoço e jantar. Segundo ele, dentro da unidade “existem as normas internas e existem as normas dos internos”.
O coronel também afirmou dividir o presídio com PMs que já fiscalizou enquanto exercia funções de comando nas zonas leste e oeste da capital paulista. “Esses policiais me encontram [no presídio] e me cobram”, disse.
Geraldo lembrou ainda que, em janeiro de 2025, chegou a dar voz de prisão a um tenente e a um pelotão inteiro por insubordinação. Segundo ele, há no Romão Gomes policiais de unidades sobre as quais exerceu fiscalização.

No raio onde está preso, afirmou haver 17 policiais e disse que o mais antigo é um soldado com menos de cinco anos de corporação, responsável pela chefia do grupo.
“Quem é oficial e está aqui, comandante [interlocutor], apenas devia contar, para cada dia cumprido, tinha que contar três. Porque só Deus sabe o quanto é difícil estar aqui dentro, como oficial”, declarou. As alegações sobre intimidação, cobrança e tratamento diferenciado são versões de Geraldo Neto. O IPM não apresenta confirmação de represálias contra ele.
Geraldo deveria ser interrogado pela Justiça comum nesta terça-feira (8/9), mas o ato foi adiado pela terceira vez, como informado em primeira mão pela coluna .

Em decisão de sexta-feira (4/9), a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro remarcou o interrogatório para 5 de outubro, às 13h.
O novo adiamento ocorreu após a defesa pedir diligências complementares antes da oitiva. A magistrada determinou que a perita Amanda Rodrigues Marinone esclareça quem realizou uma gravação mencionada durante audiência e requisitou ao Instituto de Criminalística uma “nova (e derradeira) complementação” aos quesitos da defesa, no prazo de 20 dias



Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/alfredo-henrique/sou-um-escravo-coronel-reu-por-matar-esposa-pm-relata-rotina-na-prisao.

Reprodução/TJM — Foto: Metrópoles
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