Socos e canivetes em sala
Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão -não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes. Leia mais (08/30/2026 - 08h00)

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.
Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.
Em Curitiba, uma aluna investiu a palavrões, socos e pontapés contra uma pedagoga, provocando-lhe inchaços e cortes no rosto. A estudante foi contida e sua mãe se recusou a ir à escola para saber do ato da filha. Em Araçatuba (SP), um estudante com canivete tentou avançar sobre seus colegas. Foi desarmado pela segurança e suspenso por três dias. No dia seguinte, sua mãe foi ao colégio para forçar a diretora a aceitá-lo em sala. Como esta não cedesse, agarrou e bateu a cabeça da diretora contra uma janela.

Segundo pesquisa, 65, 6% dos professores só do estado de São Paulo já sofreram violência física ou verbal no ambiente escolar. E no resto do país? Mesmo quem ainda não foi vítima fica tenso —sabe que pode ser o próximo. Professores de cidades pequenas têm medo de sair à rua e encontrar seus alunos.
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Uma professora de São José dos Campos (SP) resumiu o terror da situação. Depois de sobreviver a anos de balbúrdia, desrespeito e xingamentos, um dia pediu água a um deles. O garoto lhe levou a água num copo contendo vidro quebrado. "Ninguém merece passar por isso", ela disse, chorando. "Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida da gente? Quem cuida de quem cuida de nossas crianças?".
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/08/socos-e-canivetes-em-sala.shtml.

Escola Municipal de Ensino Fundamental João de Zorzi, em Caxias do Sul (RS), onde uma professora de inglês foi alvo de esfaqueamento dentro de sala de aula - 2.abr.25/Reprodução/Google Street View · 2.abr.25/Reprodução/Google Street View — Foto: Folha de S.Paulo
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