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    Sobrevivente da ditadura relembra suas lutas e as torturas que sofreu durante o regime militar

    Quem ouve a fala cadenciada de Giba, esculpida em mineiríssimo sotaque, e vê seus cabelos brancos e o rosto tranquilo de quem não deve nada a ninguém não consegue imaginar que ele faz parte de um grupo, na minha opinião, composto por heróis nacionais. Leia mais (10/02/2026 - 09h50)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 12:50
    Sobrevivente da ditadura relembra suas lutas e as torturas que sofreu durante o regime militar
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Gilberto Vasconcelos, na segunda fila, ao lado de Dilma Rousseff, durante interrogatório em Juiz de Fora (MG), em 1972 - Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora · Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora
    Gilberto Vasconcelos, na segunda fila, ao lado de Dilma Rousseff, durante interrogatório em Juiz de Fora (MG), em 1972 - Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora · Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quem ouve a fala cadenciada de Giba, esculpida em mineiríssimo sotaque, e vê seus cabelos brancos e o rosto tranquilo de quem não deve nada a ninguém não consegue imaginar que ele faz parte de um grupo, na minha opinião, composto por heróis nacionais.

    A Delfinópolis em que Gilberto Vasconcelos nasceu, em 1946, é cercada pelo paredão da serra da Canastra e fica às margens do rio Grande. Por isso, tem fama de cidade ilhada, passagem para lugar nenhum. Apesar de minúscula, tinha um cinema onde assistiu os heróis do pós-guerra e teve até três jornais.

    Aos 12 anos, ele foi estudar num colégio de padres italianos, onde, contrariando expectativas, virou ateu. Seus primeiros embates contra o abuso de autoridade foram com os religiosos do internato. "Devo respeitar meus superiores e não falar palavrão" foi a frase que o obrigaram a escrever 2.000 vezes no papel. Mas ele cumpriu a sentença no terço do tempo, amarrando três canetas na mão. Testei a técnica durante nossa entrevista, funciona.

    Dez pessoas sentadas em um tribunal, com quatro homens atrás de uma bancada elevada e seis pessoas à frente, incluindo homens e uma mulher. Um crucifixo está pendurado na parede ao centro, e cadeiras vazias estão ao fundo.
    Dez pessoas sentadas em um tribunal, com quatro homens atrás de uma bancada elevada e seis pessoas à frente, incluindo homens e uma mulher. Um crucifixo está pendurado na parede ao centro, e cadeiras vazias estão ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando ele fez 18, seu pai foi ao cartório e o emancipou. Na época, carteira de motorista só se tirava com 21. Giba viajou o Brasil numa Kombi vendendo calçado e desceu o rio Araguaia numa canoa. O gosto pela aventura veio cedo, embora sua aventura maior e mais perigosa fosse a política .

    Apesar do entorno conservador, em 1964 já era a favor de Brizola e das forças legalistas. No último ano do científico, em Uberaba, assistiu a uma palestra na faculdade de direito com o ministro do STF Evandro Lins e Silva e foi o primeiro a levantar a mão quando foram abertas as perguntas.

    "Ministro, por que é que rico não vai pra cadeia?" Não lembra da resposta, mas o ruivo branquelo chamou a atenção da turma da esquerda ligada à Polop, organização clandestina influenciada por ideias trotskistas .

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    Quando ingressou em direito , já era membro da organização. Daí para assumir a presidência do diretório acadêmico foi um pulo. O sonho de derrubar a ditadura na Polop acabou dando origem à Colina, que tinha a mesma visão da revolução cubana: tomar a cidade através do campo. Nessa época, a repressão era mais leve. "Não tinha tanto o ranço de direita e esquerda. Até os professores que eram de direita me respeitavam, me tiravam da cadeia. Era diferente. Aí veio o AI5 ."

    Antes disso, aconteceu o famoso congresso clandestino da UNE em Ibiúna . "Ocê imagina juntar 800 estudantes cabeludos, com aquelas roupas de estereótipo de estudante, numa cidade minúscula... As padarias de Ibiúna não deram conta de tanto pão e, obviamente, a polícia chegou e prendeu todo mundo."

    Giba foi mandado ao Dops de Belo Horizote, mas conseguiu fugir e voltar para a faculdade. A Colina se juntou a outros grupos e, no Rio de Janeiro, fundaram a VAR-Palmares , a mesma de Dilma Roussef e Carlos Lamarca . Uma de suas ações mais famosas foi o assalto de US$ 2,5 milhões ao cofre de Adhemar de Barros , o primeiro a receber a alcunha "Rouba, mas faz".

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O mineiro morava com seu grande amigo Carlos Alberto Soares de Freitas, também conhecido com Beto no movimento estudantil e Breno na clandestinidade. Detalhe importante: esses são os nomes que Giba escolheu dar para seus dois filhos homens, anos depois. Carlos Alberto foi morto pela ditadura e, como muitos, até hoje não teve seu corpo encontrado.

    Giba tinha dois caminhos na VAR: luta armada urbana ou movimento operário. Optou pelo segundo e, por sorte, ou acaso, nunca participou de um ato de violência . Mas, diante de tudo que viveu, afirma que sim, teria coragem de matar ou morrer, se necessário.

    Em 1969 foi mandado para São Paulo e percebeu que seus contatos estavam desaparecendo. Seu ponto era na República e, ao se aproximar de um colega, ele disse: "Tá todo mundo sendo preso, inclusive eu e você!", "Como assim?" Antes que o colega pudesse responder, dois policiais chegaram por trás e os levaram.

    Foi para a Oban (Operação Bandeirante), na rua Tutoia, onde foi torturado por dez dias e dez noites. Pau de arara, cadeira do dragão , choque em todas as partes do corpo, três paradas cardíacas . A regra de ouro na tortura era tentar não entregar nada por pelo menos 24 horas, tempo de as pessoas fugirem ou esvaziarem aparelhos.

    Por três dias manteve a mesma história. Minimizava sua importância no movimento e alegava ter chegado à cidade na véspera da prisão. Para não ser morto, no quarto dia, forneceu seu endereço, onde não havia mais ninguém. Mas as torturas não pararam. "Como é humanamente possível aguentar?", pergunto. "Guenta ...", ele responde com seu sotaque.

    A gente sabe que muitos, infelizmente, não aguentaram. No primeiro dia na Oban ele conseguiu destruir um papelzinho que estava em seu bolso, com 17 nomes que faziam parte de sua "célula". Nesses dez dias, Giba não entregou ninguém e conta com orgulho que as prisões na VAR pararam nele. Mas não se ressente do colega que entregou seu ponto. Sabe que na tortura cada ser humano tem um limite de dor, e que ele teve sorte de resistir.

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    Depois da Oban, ele foi mandado ao Dops. Em seguida, para o presídio Tiradentes, onde ficou dois anos e meio. Apesar da tensão que pairava sobre si, Giba abriu a cabeça para muita coisa: leu sem parar, teve aula com outros presos, aprendeu a cozinhar, a conviver com mais de 15 pessoas numa cela, fez amizades, como a com Frei Tito, e até cachaça na panela de pressão produziu.

    Terminou os estudos quando saiu da prisão, tornou-se um advogado respeitado e se casou com Sueli, com quem teve Beto, Ligia e Breno. Foi presidente da OAB e continuou trabalhando contra a ditadura. Atuou na anistia e na fundação do PSDB , juntamente com Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso .

    Giba nunca escondeu de ninguém sua história e, mesmo com visão crítica sobre o período, tem muito orgulho do que fez e de quem é. Dia desses, sua neta Bel estava explicando para o avô as fases da vida humana: a pessoa é criança, depois pré-adolescente, jovem, adulto, velho. "E você, vovô, você é um sobrevivente."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/sobrevivente-da-ditadura-relembra-suas-lutas-e-as-torturas-que-sofreu-durante-o-regime-militar.shtml.

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    Gilberto Vasconcelos, na segunda fila, ao lado de Dilma Rousseff, durante interrogatório em Juiz de Fora (MG), em 1972 - Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora · Diário Mercantil/Arquivo Histórico de Juiz de Fora — Foto: Folha de S.Paulo

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