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    Sobre poder, querer e dever

    Em duas semanas estarei em Moscou, Rússia, falando sobre o futuro que eu gostaria de inventar. Imaginar, como eles me pediram, é fácil: gostaria de um futuro onde todos encontram oportunidades para esculpir seus cérebros, aprendendo diretamente uns com os outros tudo o que a humanidade já entendeu e construiu de melhor e desenvolvendo suas próprias permitências. Leia mais (09/10/2026 - 18h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de setembro de 2026 às 21:00
    Sobre poder, querer e dever
    Foto: Folha de S.Paulo

    Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

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    Sam Altman, CEO da OpenAI durante depoimento em uma audiência do Comitê de Comércio, Ciência e Transportes do Senado, em Washington, Estados Unidos - Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters · Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters
    Sam Altman, CEO da OpenAI durante depoimento em uma audiência do Comitê de Comércio, Ciência e Transportes do Senado, em Washington, Estados Unidos - Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters · Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em duas semanas estarei em Moscou, Rússia, falando sobre o futuro que eu gostaria de inventar. Imaginar, como eles me pediram, é fácil: gostaria de um futuro onde todos encontram oportunidades para esculpir seus cérebros, aprendendo diretamente uns com os outros tudo o que a humanidade já entendeu e construiu de melhor e desenvolvendo suas próprias permitências.

    Nesse meu futuro imaginado em que nossa humanidade se perpetua e estende, algoritmos são apenas ferramentas para resolver problemas que nos interessam e fazer bom uso do nosso tempo limitado, e não um modo de vida. No meu futuro, jovens ganham acesso às ditas IAs apenas ao concluírem sua educação e capacitação para viver em um mundo sempre em mutação.

    Mas pelo andar da carruagem, apenas uma elite terá esse luxo de crescer com oportunidades para cultivar suas permitências, com habilidades de construir e reconstruir ideias do zero e usar IA apenas como ferramenta.

    Homem de terno escuro e gravata azul sentado em mesa com placa 'Mr. Altman', em ambiente formal com público ao fundo. Pessoa com câmera em primeiro plano.
    Homem de terno escuro e gravata azul sentado em mesa com placa 'Mr. Altman', em ambiente formal com público ao fundo. Pessoa com câmera em primeiro plano. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Que ironia que no topo desta elite estarão os filhos dos atuais senhores da IA. Seus pais no momento estão ocupados em explorar seu novo brinquedo só porque podem e porque querem ganhar dos vizinhos... também só porque podem. Para isso, precisam convencer o maior número possível de humanos de que todos ganham com o brinquedo e aliás não podem mais viver sem ele. Menos, é claro, seus filhos, que, sem acesso a telas, continuam tendo oportunidades de aprender com seu próprio cérebro, desenvolver suas permitências e manter a humanidade de pé.

    Os filhos dos senhores da IA não usam IA só porque podem porque seus pais sacaram o que a neurobiologia ensina: que fazer só porque se pode fazer é coisa de seres descerebrados.

    Poder fazer é, como a vida, resultado de permitências e oportunidades: as possibilidades intrínsecas e extrínsecas, respectivamente, de quem faz. Quem não tem cérebro age apenas conforme as circunstâncias, vagando para lá e para cá ao sabor dos acontecimentos. Tem brinquedo novo? Eles usam.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas quem tem um cérebro, com tantos neurônios que eles se organizam em circuitos associativos, tem flexibilidade e quem tem a flexibilidade que um cérebro permite tem a inteligência que surge quando ele representa não só o que pode, mas também o que quer fazer e o que deve fazer.

    Querer acontece quando podemos sentir e representar o valor dos eventos, que com um cérebro agora são um tanto bons e também um tanto ruins, depois lembrar desses valores e evocá-los para projetar o futuro. Quem tem cérebro tem a permitência de agir agora de acordo com um futuro que se vislumbra como imediatamente prazeroso quando acontecer. O sentimento desse prazer vislumbrado é a vontade de fazer, o querer fazer.

    Mas querer não é dever. Dever acontece quando, para além do nosso possível futuro prazer imediato, usamos a permitência de representar os valores das consequências simuladas de uma ação num raio bem maior de tempo e espaço, que inclui os outros e nosso futuro estendido. Se os sentimentos evocados estendidos contradizem os imediatos, sabemos que queremos, mas não devemos.

    Basta abrir um jornal para ver que os senhores da IA deixam seus cérebros no lobby do trabalho e passam o dia querendo e fazendo só porque podem, quando já há evidências gritantes de que não devem. Em casa, botam o cérebro de volta, para sorte dos seus filhos, enquanto curtem a riqueza que ganham ao nos fazer tirar o nosso.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/suzanaherculanohouzel/2026/09/sobre-poder-querer-e-dever.shtml.

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    Sam Altman, CEO da OpenAI durante depoimento em uma audiência do Comitê de Comércio, Ciência e Transportes do Senado, em Washington, Estados Unidos - Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters · Jonathan Ernst - 8.mai.25/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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