Sobre o afeto que se encerra
Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF , vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor. Leia mais (10/03/2026 - 15h00)

Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF , vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.
Entre nós, a superposição é estimulada pela identificação do campo antiprogressista ao bolsonarismo. Embora este termo já se distancie de um nome próprio à extrema direita, o fantasma do capitão assombra a memória democrática como objeto malsoante. Não apenas por seu espírito golpista, muito pelo legado negativo da grosseria de linguagem, indiferença à vida humana, ataques à educação. Matéria-prima da náusea.
Só que o cotidiano visto pelas lentes de uma sociologia do imediato mostra outra face da polarização. Um caso ilustrativo: alguém com fortes convicções direitistas, mas em quem se reconhecem algumas virtudes pessoais, repercute em conversa uma suposta declaração do imunologista Anthony Fauci de que ivermectina e hidroxicloroquina poderiam ter salvado vidas. Fauci não disse nada disso, calou-se na audiência do Senado americano (29/6/2026). O interlocutor, porém, é categórico: "O capitão estava certo".

Esse adepto não pode, entretanto, ser definido como réplica antropológica de seu ícone. Anestesiado, ele simplesmente não absorve fatos reais, é um Pedro Bó (o personagem crédulo de Chico Anísio) do afeto. Contra a corrupção política, recita o mensalão , o petrolão ou despesas de cartão do presidente da República. Personaliza tudo no epíteto "ladrão". Apenas esquece a voracidade financeira do clã predador da democracia, da ganância imobiliária, da associação com a criminalidade miliciana. E mesmo sabendo da quinta-coluna entreguista, anuncia, pimpão: "vamos libertar o país". Ingênuo parceiro do golpismo permanente.
Um caso singular, certo. Mas inteligível como holograma do laço social estruturado pelo vaivém entre desafecção e afecção. O indivíduo se dessensibiliza quanto a fatos sórdidos (pregação de extermínio físico, elogio da tortura), na vertigem do fascínio libidinal por um espectro, sobre o qual projeta instintos silenciados. Zero cognição: uma cabeça, uma estrutura de ressentimento internalizada.
Isso pode coexistir com civilidade ou com violência, como entre 2018-22, período de inédito antagonismo afetivo, teoricamente sonhado pelo politólogo Carl Schmitt: o inimigo funda a política. A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas eleitorais se orientam pelo escândalo do outro. Nem santas católicas escapam de ataques misóginos e racistas, contaminando ministros do STF "terrivelmente" qualquer coisa. Em sangria institucional desatada, trocam a liturgia interna pela hemorragia do cargo.

Questão intrigante é que polarização nenhuma explica o desejo repulsivo de ver o país transformado em modelo de narcoestado, como o Rio de Janeiro em 8 anos de bolsonarismo. Na exaustão dessa violência continuada, há vislumbres de socorro: fora da dinâmica fascista ou patológica, o corpo social não vota na aberração miliciana.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/muniz-sodre/2026/10/sobre-o-afeto-que-se-encerra.shtml.

Montagem mostra o presidente Lula (PT) segurando imagem de Nossa Sra. Aparecida (esq.) e o candidato Flávio Bolsonaro (PL) segurando santa feita em crochê (dir.) - Janja e Bruno Santos/Instagram e Folhapress · Janja e Bruno Santos/Instagram — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

