Sob o fogo da diplomacia Donroe
Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira. Numa operação coordenada pela Casa Branca, converteram-se em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro. "Presidente não deve se envolver em eleição de outro país", lembrou Alckmin, em meio ao fogo. Leia mais (08/07/2026 - 10h00)

Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP
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Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira. Numa operação coordenada pela Casa Branca, converteram-se em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro. "Presidente não deve se envolver em eleição de outro país", lembrou Alckmin, em meio ao fogo.
São palavras simples, mas sábias. A interferência veicula desprezo pelo princípio da soberania nacional, que se expressa como soberania popular. Só vale no caso de ditaduras, onde os detentores do poder anularam os direitos do povo. Aí, é quase obrigação a solidariedade com dissidentes perseguidos (uma regra, aliás, que Lula ignora quando se trata de "ditaduras companheiras").
Alckmin não era aliado de Lula em 2006, época em que o PT o qualificava como "fascista". Por isso, não podia tentar evitar a viagem do presidente à Venezuela para participar de comício de campanha de Hugo Chávez, ocasião em que atacou a "imprensa" e as "elites" (ou seja, na linguagem dele, a oposição). Mas já era vice e calou-se em 2023, quando Lula não só declarou apoio a Sergio Massa como, via Sidônio Palmeira, enviou à Argentina um comboio de marqueteiros para reforçar a campanha peronista.
Seria um erro, contudo, concluir que Lula colhe o que semeou. Primeiro, porque a dupla Trump/Milei não precisa de precedentes legitimadores. Segundo, porque a operação em curso ultrapassa o campo do discurso –e mesmo das ofensas vulgares do fanfarrão da Casa Rosada. O que está em curso é uma versão diplomática da Doutrina Donroe.
Trump sinalizou descaso com o Brasil ao tardar um ano e meio para indicar um novo embaixador. Depois, ao anunciar o nome de Daniel Perez sem a tradicional consulta ao Itamaraty, sinalizou desprezo. A réplica brasileira, um chá de cadeira, pertence à valsa diplomática habitual para episódios desse tipo: simboliza desagrado com o procedimento da Casa Branca. Já a tréplica, revogação do visto da embaixadora em Washington, foge às normas que regulam as relações entre países amigos. É ato explícito de hostilidade.
Há um pano de fundo, formado pelas sanções da Lei Magnitsky aplicadas a integrantes do STF e outros funcionários do governo, em julho de 2025, por solicitação de Eduardo Bolsonaro, e pelas alegações políticas utilizadas na justificação do tarifaço. Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio , ambicionam uma "mudança de regime" no Brasil, mas pela via eleitoral. Por meio de uma versão light da "diplomacia das canhoneiras", almejam concluir o giro regional à direita, alinhando a única potência relevante da América do Sul.
Fracassarão, talvez, pois fornecem munição à narrativa eleitoral soberanista de Lula. Contudo, o fogo hostil exige mais que discursos de palanque orientados pelo marqueteiro-chefe. O governo precisa ajustar suas respostas diplomáticas, calibrando-as pelo interesse nacional. Já cometeu um equívoco inicial, ao retirar o representante errado: o rebaixamento de relações deveria incidir sobre Washington, não sobre Buenos Aires.
Mas o equívoco principal foi o telefonema de Lula a Putin, logo após o gesto hostil da Casa Branca. O presidente resolveu falar sobre soberania, paz, ONU e multilateralismo com o ditador predileto de Trump, que comanda a invasão imperial da Ucrânia. Nunca aprenderá a separar o interesse do Brasil de suas arraigadas pulsões ideológicas.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2026/08/sob-o-fogo-da-diplomacia-donroe.shtml.

Foto: Folha de S.Paulo
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