Brasil

    Só vi fantasmas duas vezes na vida, e um deles foi o de Guimarães Rosa

    Passei três dias no apartamento onde ele escreveu a maior parte de sua obra

    UOL
    25 de agosto de 2026 às 10:00
    Só vi fantasmas duas vezes na vida, e um deles foi o de Guimarães Rosa
    Homem de meia-idade com óculos redondos e gravata borboleta está sentado em frente a uma estante cheia de livros. A imagem apresenta um efeito de espelhamento vertical, mostrando o mesmo retrato invertido abaixo. — Foto: UOL

    Jornalista e doutora em estudos da literatura, é autora de 'A Cabeça do Santo' e 'Oração para Desaparecer'

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Detalhe de convite para a estreia da adaptação teatral de 'Grande Sertão: Veredas' em Belo Horizonte, em maio de 1985 - Israel Crispim Jr/Acervo Dimus · Israel Crispim Jr/Acervo Dimus
    Detalhe de convite para a estreia da adaptação teatral de 'Grande Sertão: Veredas' em Belo Horizonte, em maio de 1985 - Israel Crispim Jr/Acervo Dimus · Israel Crispim Jr/Acervo Dimus — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Eu só vi fantasma duas vezes na vida: uma mulher de quem não sei o nome e o Guimarães Rosa . Se vi algum outro, tratei como se fosse um ser vivo e não entrará nas estatísticas. Dos dois, lembro muito bem.

    A senhora aparece para mim desde que sou criança, em sonhos. Eu estava quase para fazer uma cirurgia para tirar o miolo da garganta, amígdalas, adenoides, isso tudo. Sonhei com ela me dando conselhos.

    Mandou fazer gargarejos em vez de tomar mel, que eu sempre detestei. Mandou também usar lambedor de ervas e açúcar. Essa palavra, lambedor, dá trabalho aos tradutores quando uso em livro. É só isso mesmo: um tipo de xarope caramelado, você ferve plantas medicinais na calda açucarada e disfarça o amargor.

    Veja anotações de Guimarães Rosa
    Veja anotações de Guimarães Rosa — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Quando acordei dessa consulta com a senhora, ela estava ao meu lado na cama. Disse que eu já estava curada e saiu do quarto. De fato, a cirurgia não foi mais necessária.

    Lembro dos cabelos grandes, da roupa larga, da saia. Depois eu sonhei com ela avisando que eu estava grávida de uma menina, dizendo para escolher o nome entre Camila ou Carina, com "C". Ficou Camila. Quase todos os dias da gravidez a senhora misteriosa estava ali perto. Nunca mais a vi.

    Com Guimarães Rosa foi uma experiência muito mais impactante. Eu tive a honra e a sorte de passar três dias no apartamento onde ele escreveu a maior parte de sua obra, no Rio de Janeiro .

    João Guimarães Rosa
    João Guimarães Rosa — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Está muito bem conservado pela família, com mobiliário embutido intacto, o mesmo que aparece em várias fotos do Rosa. Assim que cheguei lá, com minha mala para três dias, fui até o local onde ele trabalhava e onde faleceu. Tive todas as confirmações pela sua neta, Vera Tess, minha querida amiga.

    Eu estava realmente sentada diante do lugar de sua criação, o chão do escritório onde ele lutou contra o Diabo ao escrever "Grande Sertão: Veredas" . Uma mesa nova ocupa o lugar da escrivaninha onde ele morreu.

    Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Pois ali, diante de um dos lugares mais mágicos da literatura brasileira, passou um senhor de pijama azul, indo até o quarto onde coloquei minhas coisas. Perguntei à Vera se por acaso seria o dormitório dele. Não, ela disse, mas é o quarto onde ele foi velado. Confirmou também a preferência do avô pelos pijamas azuis. E pediu que, caso ele voltasse, eu dissesse que ela manda um beijo e tem saudades.

    Foi só isso. Eu só o vi passar na minha frente. Fiquei na dúvida, sem saber se ia embora correndo ou se pedia a ele pra aparecer de novo. Não fui embora, mas não o chamei.

    Logo eu, tão cheia de valentias, com medo do espectro de alguém com quem eu sonho tanto. Porque, antes desse dia, eu sonhei várias vezes com ele —inclusive me ensinando a fazer bolo de laranja, o meu favorito.

    Nesse apartamento eu decidi o começo do meu novo romance, "Delírio San Pedro" . Não poderia estar em situação melhor para escrever um livro sobre loucura .

    Tenho que terminar o livro antes do final deste ano. Acho que preciso voltar lá. Comprar um bolo de laranja, passar um café, esperar que ele desculpe o mau jeito da primeira vez e me dê outra chance para conversar sobre delírios. A loucura é a minha vereda.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/socorro-acioli/2026/08/so-vi-fantasmas-duas-vezes-na-vida-e-um-deles-foi-o-de-guimaraes-rosa.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Detalhe de convite para a estreia da adaptação teatral de 'Grande Sertão: Veredas' em Belo Horizonte, em maio de 1985 - Israel Crispim Jr/Acervo Dimus · Israel Crispim Jr/Acervo Dimus — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)