Brasil

    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo

    Após a COP30, turismo de luxo na floresta se destaca pela autenticidade e a busca pelos conhecimentos ancestrais

    Metrópoles
    9 de setembro de 2026 às 09:00
    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo
    Foto: Metrópoles

    Já pensou em viajar para um lugar onde o luxo está associado ao silêncio e a contemplação? Onde um prato conta a história dos ingredientes daquele território, uma peça feita à mão carrega um conhecimento transmitido entre gerações e uma caminhada pela mata pode revelar coisas que, sem alguém para explicá-las, passariam despercebidas diante dos olhos?

    Na Amazônia, exclusividade e luxo significam justamente isso: experimentar algo que não poderia ser reproduzido com a mesma verdade em nenhum outro endereço do planeta.

    Há conforto, boa gastronomia e serviço de alto padrão em meio a selva. Mas há também rios sem fim, uma floresta com paisagens intocadas e pessoas capazes de transformar uma folha, uma semente ou uma lenda em algo especial aos olhos de quem veio de longe.

    Felipe Castellari
    Felipe Castellari — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o significado de luxo se transformou no últimos anos.

    “Atualmente a experiência de luxo é traduzida em algo muito mais sensorial do que material. Às vezes são elementos muito simples, mas muito únicos, autênticos e bem cuidados.”

    Isso não significa abandonar conforto, boa gastronomia ou serviço de qualidade. Significa acrescentar algo que dinheiro não consegue produzir: identidade.

    Na Amazônia há conforto, boa gastronomia e serviço de alto padrão
    Na Amazônia há conforto, boa gastronomia e serviço de alto padrão — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A CEO aponta que a sustentabilidade também não deve ser separada do segmento. “O luxo é indissociável da sustentabilidade.”

    E o perfil do viajante mudou, pontua Camilla. “Quem vai em busca de uma experiência de luxo na floresta quer saber de onde vem a comida, quer conhecer a história daquelas pessoas, como as coisas são feitas, de onde vêm os materiais. Ele quer ver a vida real como ela é”, diz Camilla.

    Segundo ela, esse turista que atravessa milhares de quilômetros para conhecer a floresta preservada, biodiversidade, cultura e comunidades locais se interessa menos por representações folclóricas criadas exclusivamente para visitantes.

    Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o significado de luxo mudou
    Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o significado de luxo mudou — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Augusto Costa Filho, empresário e um dos proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge , em Novo Airão, diz que a grande maioria dos hóspedes que buscam seu empreendimento, têm esse perfil.

    “Hoje se fala muito desse novo luxo, chamado de quiet luxury . E a Amazônia é a cara disso.”

    Para ele, quatro elementos resumem o que esse público procura: arquitetura, gastronomia, natureza e cultura. “A Amazônia entrega tudo isso de forma arrebatadora.”

    Fabiana e Augusto são os proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge, hotel de luxo localizado em Novo Airão
    Fabiana e Augusto são os proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge, hotel de luxo localizado em Novo Airão — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Fabiana Caricati Boaretto, empresária, esposa e sócia de Augusto, acrescenta que a região precisa se afastar da ideia do “luxo dourado”. Segundo ela, o caminho está na combinação entre “autenticidade, bom serviço e conforto”.

    Área externa do hotel combina arquitetura e paisagem amazônica

    Espaço de convivência do hotel é cercado pela vegetação

    Noite na Casa Passarinha
    Noite na Casa Passarinha — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Arquitetura valoriza materiais naturais e integração com a floresta

    Quartos unem conforto e materiais naturais em hospedagem na Amazônia

    Hospedagem aposta na integração entre conforto e natureza amazônica

    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo - destaque galeria
    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Áreas comuns valorizam iluminação natural e contato com a natureza

    Gastronomia e elementos artesanais fazem parte da experiência de hospedagem

    Restaurante valoriza arquitetura integrada à paisagem amazônica

    Espaço de convivência do hotel é cercado pela vegetação
    Espaço de convivência do hotel é cercado pela vegetação — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Arquitetura do hotel prioriza madeira, iluminação natural e contato com a floresta

    Inaugurado em 2007, o Anavilhanas é um retrato de como o interesse pela região mudou. Quando o hotel abriu, cerca de 90% dos hóspedes eram estrangeiros e apenas 10% brasileiros. Hoje, de acordo com os donos, a divisão gira em torno de 60% de estrangeiros e 40% de brasileiros. “Acho que o brasileiro se interessa mais pela Amazônia hoje do que se interessava há 20 anos”, afirma Augusto.

    Mas o empresário entende que o turismo na floresta tem suas peculiaridades. “É um destino em que o visitante precisa de condutor, precisa de gente que conhece o lugar, equipamento, combustível, roteiro, história”, explica Augusto. O guia, portanto, não serve apenas para mostrar o caminho. Ele funciona como um tradutor da floresta.

    Arquitetura valoriza materiais naturais e integração com a floresta
    Arquitetura valoriza materiais naturais e integração com a floresta — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    “O que faz a Amazônia ter sentido é incorporar o conhecimento ancestral, o saber de quem é local, dentro dessa jornada.”

    Sem esse olhar, o visitante pode enxergar apenas árvores. Com ele, começa a entender quantos ecossistemas, histórias e conhecimentos existem dentro daquela paisagem.

    Se natureza e cultura são vantagens competitivas, infraestrutura continua sendo um dos principais desafios da região. “

    Quartos unem conforto e materiais naturais em hospedagem na Amazônia
    Quartos unem conforto e materiais naturais em hospedagem na Amazônia — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Às vezes as rotas impedem”, resume Camilla. Mais conexões aéreas poderiam facilitar a chegada de turistas nacionais e internacionais, mas o problema vai além dos aeroportos.

    Fabiana chama atenção para necessidades básicas de quem vive nas cidades amazônicas. “Como é que eu vou garantir qualquer coisa se a pessoa que vai trabalhar ali não tem uma moradia digna, não tem água encanada e não tem tratamento de esgoto?”.

    Com apenas 25 quartos, o Anavilhanas se tornou o maior empregador privado de Novo Airão. Diante disso, Augusto reforça: “A infraestrutura não pode ser só para o turista. A infraestrutura tem que ser para quem está ali todo dia”.

    Hospedagem aposta na integração entre conforto e natureza amazônica
    Hospedagem aposta na integração entre conforto e natureza amazônica — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Educação também entra nessa conta. O empresário relata que ainda é necessário contratar profissionais de outras regiões para algumas funções que exigem inglês, mesmo quando há trabalhadores locais tecnicamente preparados.

    Qualificar a população significa, portanto, não apenas melhorar o serviço, mas permitir que os empregos mais valorizados também permaneçam na região.

    Experiência na floresta aproxima visitantes da natureza amazônica

    Áreas comuns valorizam iluminação natural e contato com a natureza
    Áreas comuns valorizam iluminação natural e contato com a natureza — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Turismo de natureza permite conhecer detalhes da floresta amazônica

    Passeios pela floresta fazem parte da experiência de hospedagem na Amazônia

    Guia explora formação natural durante atividade na floresta

    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo - destaque galeria
    Silêncio e contemplação: como a Amazônia virou o novo destino de luxo do mundo - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Guias ajudam visitantes a interpretar a floresta durante experiências na Amazônia

    Caminhadas revelam paisagens e elementos da floresta que passam despercebidos, como os jacarés

    Turismo de natureza também inclui experiências em meio à floresta durante a noite

    Turismo de natureza permite conhecer detalhes da floresta amazônica
    Turismo de natureza permite conhecer detalhes da floresta amazônica — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Pôr do sol sobre a paisagem amazônica encerra experiência na natureza

    O interesse pela floresta chega em um momento de crescimento do turismo brasileiro. O país recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, o que corresponde a uma alta de 37,1% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, os gastos de estrangeiros chegaram a US$ 7,9 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, foram 3,74 milhões de chegadas internacionais.

    O Amazonas também acompanhou esse movimento. O estado recebeu 88.869 turistas estrangeiros em 2025, apontando um crescimento de 38% sobre 2024. Entre janeiro e março de 2026, o desembarque de passageiros internacionais no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, avançou 14,84%.

    Passeios pela floresta fazem parte da experiência de hospedagem na Amazônia
    Passeios pela floresta fazem parte da experiência de hospedagem na Amazônia — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A COP30, realizada em Belém em 2025, ampliou ainda mais a exposição internacional da Amazônia. O desafio agora é transformar essa atenção em turismo permanente sem criar um modelo de massa capaz de degradar justamente aquilo que os visitantes querem conhecer.

    A Embratur afirma que pretende transformar a visibilidade conquistada durante a COP30 em fluxo turístico permanente.

    Segundo Leonardo Persi, coordenador de Segmentos Turísticos da agência, a estratégia passa por mais conectividade internacional, fortalecimento do turismo de natureza e promoção conjunta dos sete estados da Região Norte. Estados Unidos, Alemanha, França, Portugal, Colômbia e Peru aparecem entre os mercados com destaque para viagens ligadas à natureza na região.

    Guia explora formação natural durante atividade na floresta
    Guia explora formação natural durante atividade na floresta — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Para a Embratur, a Amazônia também tem alto potencial no mercado de alto padrão porque reúne características cada vez mais procuradas: autenticidade, exclusividade, privacidade, silêncio e contato com a natureza preservada.

    A COP30 colocou a região em uma vitrine global. O desafio agora é fazer com que o turismo gere renda para quem vive ali e ajude a manter de pé aquilo que motivou a viagem. Na Amazônia, talvez o verdadeiro luxo seja exatamente esse: encontrar algo que o dinheiro pode permitir conhecer, mas jamais fabricar.

    Guias ajudam visitantes a interpretar a floresta durante experiências na Amazônia
    Guias ajudam visitantes a interpretar a floresta durante experiências na Amazônia — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles
    Caminhadas revelam paisagens e elementos da floresta que passam despercebidos, como os jacarés
    Caminhadas revelam paisagens e elementos da floresta que passam despercebidos, como os jacarés — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/conteudo-especial/amazonia-destino-de-luxo.

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