Brasil

    'Silêncio dos neurônios' pode ajudar a prever e evitar crises epilépticas

    Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que o cérebro apresenta uma pausa prolongada na atividade neuronal logo antes de uma crise epiléptica . Além de comprovar que essa "calmaria" funciona como um marcador confiável para prever a ocorrência de convulsões , o estudo sugere que é possível intervir nesse exato momento, reduzindo significativamente a duração das crises epilépticas. Leia mais (09/28/2026 - 15h00)

    Folha de S.Paulo
    28 de setembro de 2026 às 18:00
    'Silêncio dos neurônios' pode ajudar a prever e evitar crises epilépticas
    Conduzido na Unicamp, estudo é destaque em edição especial da revista Society for Experimental Biology and Medicine — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que o cérebro apresenta uma pausa prolongada na atividade neuronal logo antes de uma crise epiléptica . Além de comprovar que essa "calmaria" funciona como um marcador confiável para prever a ocorrência de convulsões , o estudo sugere que é possível intervir nesse exato momento, reduzindo significativamente a duração das crises epilépticas.

    Estudo comprova como há uma pausa prolongada na atividade neural logo antes de convulsão - Freepik · Freepik
    Estudo comprova como há uma pausa prolongada na atividade neural logo antes de convulsão - Freepik · Freepik — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A descoberta, divulgada na revista Scientific Reports , traz novas perspectivas para o tratamento da epilepsia, uma doença neurológica caracterizada por descargas elétricas anormais e excessivamente sincronizadas no cérebro, que causam convulsões e podem comprometer funções físicas e cognitivas. O distúrbio afeta cerca de 52 milhões de pessoas no mundo.

    "Esse silenciamento dos neurônios já havia sido observado em outros estudos, mas pudemos confirmá-lo tanto em pacientes quanto em modelos computacionais. A partir disso, conseguimos entender como a dinâmica lenta dos canais de potássio [estruturas na membrana celular que funcionam como freios para a excitabilidade elétrica do neurônio] está ligada à sincronização neuronal exacerbada e descrever a atividade elétrica dos neurônios antes e durante as crises. Com isso, foi possível explicar como o padrão neural se forma e propor sua utilização como biomarcador confiável para prever convulsões", explica Fernando da Silva Borges, pesquisador colaborador da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coautor do artigo.

    Nas simulações computacionais, o uso do silêncio neuronal como biomarcador para intervenções anticonvulsivas (como a aplicação do estímulo elétrico) promoveu uma redução de até 93% na duração das crises, delineando um caminho promissor para terapias de neuromodulação personalizadas no futuro.

    Demência e epilepsia podem estar relacionadas
    Demência e epilepsia podem estar relacionadas — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O trabalho envolveu pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade de São Paulo ( USP ), UFABC e Universidade Estadual de Nova York ( Estados Unidos ).

    Embora existam mais de 30 medicamentos já aprovados para o tratamento da epilepsia, dados da literatura científica indicam que entre 30% e 40% dos pacientes não respondem à terapia farmacológica (epilepsia refratária).

    Nesses casos, uma das alternativas tem sido uma técnica conhecida como estimulação cerebral , que consiste em modular os impulsos elétricos dos neurônios por meio de eletrodos implantados na cabeça ou em vias nervosas responsáveis por levar os sinais e impulsos elétricos do corpo em direção ao cérebro e à medula espinhal central (os chamados nervos aferentes).

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com a descoberta do silenciamento neuronal que precede a crise convulsiva, os pesquisadores pretendem unir um tipo de dispositivo e um tratamento já existentes em uma mesma estratégia e, com isso, prever e intervir antes que a tempestade neuronal aconteça.

    "O silêncio neuronal antecede de 40 a 160 milissegundos uma crise epiléptica. É um tempo curto, mas suficiente para interferir de forma automatizada, disparando um estímulo elétrico antes do início da crise", explica Borges.

    Segundo o pesquisador, já existem no mercado dispositivos –como o estimulador do nervo vago ou sistemas de feedback (que "leem" a atividade cerebral em tempo real para disparar o estímulo)– que monitoram continuamente outros sinais da crise convulsiva.

    "No entanto, atualmente, esses equipamentos só conseguem detectar a crise epiléptica quando ela já começou. Nossa ideia é utilizar esse tipo de dispositivo para detectar o novo biomarcador e aliar isso ao tratamento de neuromodulação, que manda sinais para um nervo que estimula o cérebro antes de a crise ocorrer", diz.

    Por meio de um procedimento pouco invasivo –a aplicação de uma pequena corrente elétrica–, o equipamento "acordaria" os neurônios antes da crise. Essa rápida ativação evita que o fluxo de potássio nas células caia a níveis críticos, impedindo a formação da tempestade elétrica. O estímulo é altamente focado: ele afeta apenas 1% dos neurônios responsáveis por excitar a atividade cerebral, o que já se mostrou suficiente para encurtar drasticamente a duração das convulsões.

    "O dispositivo interviria, portanto, de forma preventiva e automatizada, utilizando a eletricidade para interromper o processo biológico que leva à crise antes mesmo de ela acontecer. Isso é um grande ganho, pois sabemos que as convulsões podem desencadear diversos tipos de sequelas. Evitar que elas ocorram é extremamente positivo para a saúde e a qualidade de vida dessas pessoas", afirma Borges.

    Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/silencio-dos-neuronios-pode-ajudar-a-prever-e-evitar-crises-epilepticas.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Estudo comprova como há uma pausa prolongada na atividade neural logo antes de convulsão - Freepik · Freepik — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)