Setor elétrico está diante do desafio da maturidade operacional
Os recentes debates do setor elétrico brasileiro deixaram uma mensagem clara: a abertura do mercado livre avançou no plano regulatório e agora precisa se consolidar como uma realidade operacional segura, eficiente e compreensível para o consumidor. Leia mais (08/25/2026 - 22h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Vice-presidente Institucional e Regulatório do Grupo Delta Energia
Os recentes debates do setor elétrico brasileiro deixaram uma mensagem clara: a abertura do mercado livre avançou no plano regulatório e agora precisa se consolidar como uma realidade operacional segura, eficiente e compreensível para o consumidor.
O país soma mais de 84 mil unidades no Ambiente de Contratação Livre, responsável por 41% da eletricidade consumida no Brasil, segundo a Abraceel (Associação Brasileira de Comercializadores de Energia). O crescimento em escala está desenhado. O desafio agora é garantir liquidez, previsibilidade e confiança na operação.

Essa agenda ganha urgência diante da abertura total do mercado para consumidores de baixa tensão até novembro de 2028. Para além de ampliar a carteira de clientes, precisamos preparar o mercado para atender milhões de novos consumidores de energia.
A experiência com o varejo de alta e média tensão já oferece aprendizados. Desde a liberação do acesso ao grupo, o número de unidades consumidoras varejistas saltou de 4.400 para mais de 39 mil em pouco mais de dois anos —uma expansão acumulada de 800%. O dado da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) retrata uma demanda por liberdade de escolha e a necessidade de o mercado se preparar para uma escala ainda maior. As empresas ganharam experiência em digitalização, automação, gestão da conta e redução do custo de aquisição. Contratos de milhões por mês deram lugar a algumas centenas de reais. O preço segue como a porta de entrada aos novos consumidores, mas a permanência dependerá de confiança, tecnologia, serviços agregados, educação e clareza.
O consumidor —do proprietário de uma loja, restaurante ou pequena indústria ao residencial— precisará entender o que está contratando, quais riscos assume na operação e quais garantias terá com a migração.

Para isso, diretrizes legais devem ser equacionadas, como a figura do Supridor de Última Instância (SUI), a capacitação das comercializadoras varejistas e os mecanismos de proteção ao consumidor. Quem migra precisa confiar que sua comercializadora é sólida e que o sistema terá respostas para situações extremas.
A autorregulação liderada pelo próprio mercado é um passo relevante para evitar que problemas individuais se transformem em risco sistêmico.
A maturidade operacional passa também pela correção de gargalos estruturais. Dificuldades vivenciadas por comercializadoras expuseram problemas de liquidez e distorções na formação de preços. Em 12 meses, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) variou 181%, enquanto o preço de longo prazo atingiu 36%. Quando o preço deixa de cumprir a função de sinal econômico, o mercado perde parte de sua capacidade de coordenação no momento em que está prestes a operar com milhões de novos consumidores.
Sem liquidez suficiente, o mercado livre perde credibilidade e não oferece segurança para que comercializadoras e consumidores migrem em escala. Precisamos equacionar isso antes da abertura para baixa tensão. Do contrário, a adesão permanecerá concentrada nos grandes consumidores e a nova fase do mercado livre ficará no papel.
À medida que o sistema se torna mais descentralizado, a consolidação do mercado livre dependerá de maior conexão. A relação entre distribuidoras e comercializadoras não deve ser vista como disputa, mas reorganização de papéis para um mercado mais eficiente, seguro e orientado ao consumidor. Regras claras, isonomia competitiva, celeridade regulatória, educação do consumidor e responsabilidade dos agentes serão essenciais para transformar a abertura plena em confiança operacional, competitividade e desenvolvimento para o país. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/setor-eletrico-esta-diante-do-desafio-da-maturidade-operacional.shtml.

Painéis fotovoltaicos em telhado de casa em Salvador - Rafaela Araújo - 4.mar.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

