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    Setembro Amarelo: cuidado com a saúde mental deve começar nos sinais invisíveis que antecedem à depressão

    Psiquiatra Isaac Efraim explica como a mente vai se fechando aos poucos até parecer que não há saída — e por que reconhecer esse processo antes pode mudar o desfecho

    CNN Brasil
    10 de setembro de 2026 às 06:33
    Setembro Amarelo: cuidado com a saúde mental deve começar nos sinais invisíveis que antecedem à depressão
    Foto: CNN Brasil

    Quando se fala em depressão, quase sempre a atenção se concentra no ato extremo que a doença pode levar um paciente a cometer contra si mesmo. Mas talvez estejamos com o foco equivocado. Essa atitude pode ser compreendido como a manifestação extrema de um processo mental de autodestruição que, muitas vezes, começou antes. O que precisamos compreender – e tentar interromper – é o processo invisível que o antecede.

    A mente humana não registra simplesmente a realidade : ela a interpreta. Um mesmo acontecimento pode adquirir significados completamente diferentes dependendo das experiências anteriores, das memórias e dos padrões que cada pessoa carrega. É nesse espaço entre o que aconteceu e aquilo que a mente construiu sobre o acontecimento que grande parte do sofrimento psíquico se desenvolve.

    Uma perda, uma rejeição, um fracasso profissional, uma separação ou uma humilhação são acontecimentos reais. Mas a mente pode produzir, a partir deles, imagens muito mais devastadoras : “minha vida acabou”, “eu estraguei tudo”, “não tenho mais saída”, “nada vai melhorar”. Aos poucos, a pessoa deixa de sofrer apenas pelo que aconteceu e passa a sofrer também pelo cenário que a própria mente produz.

    Setembro Amarelo é o mês de conscientização sobre a importância da saúde mental • Reprodução/Freepik · • Reprodução/Freepik
    Setembro Amarelo é o mês de conscientização sobre a importância da saúde mental • Reprodução/Freepik · • Reprodução/Freepik — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    É aqui que começa um fenômeno perigoso: o estreitamento da realidade . As alternativas continuam existindo, mas a pessoa deixa de enxergá-las. O futuro passa a ser representado sempre pelo mesmo filme: dor hoje, dor amanhã, dor depois. A mente transforma uma situação insuportável neste momento na convicção de uma vida inteira insuportável . E uma imagem mental repetida muitas vezes pode adquirir, para quem sofre, a força de uma realidade.

    Em algumas pessoas, esse processo se dirige contra o próprio eu. A culpa deixa de dizer simplesmente “eu errei” e começa a dizer “eu sou um erro”. Essa diferença parece pequena, mas é enorme. Enquanto reconhecer um erro ainda permite corrigir, aprender e seguir, transformar a falha em identidade aprisiona. Nos meus estudos sobre culpa, descrevo justamente essa passagem: da culpa para a vergonha e, em situações mais graves, da punição interna para a autodestrutividade.

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    Ex-marido de Thais Carla esclarece suposto fetiche em mulheres gordas
    Ex-marido de Thais Carla esclarece suposto fetiche em mulheres gordas — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Forma-se então uma espécie de tribunal interno em funcionamento permanente. A própria pessoa é acusadora, réu e juiz. Ela cobra de si mesma aquilo que acredita que deveria ter sido, deveria ter feito ou deveria ter conseguido. O problema é que não há como fugir desse credor, porque credor e devedor moram na mesma cabeça. Quanto mais se pune, menos energia psíquica possui para reconstruir a própria vida ; quanto menos consegue reconstruir, mais motivos encontra para se punir. É um circuito que se retroalimenta.

    Por isso considero imprecisa a ideia de que quem pensa em cometer um ato contra si mesmo simplesmente “quer morrer”. Muitas vezes, o que aquela pessoa desesperadamente quer é que determinada experiência de sofrimento termine. Morrer aparece para uma mente progressivamente encurralada como uma solução para acabar com a dor. E aqui está uma distinção fundamental para a prevenção: não encontrar uma saída é muito diferente de não existir uma saída.

    É também por isso que frases como “pense positivo” , “você tem tudo para ser feliz” ou “olhe quantas pessoas têm problemas piores” costumam fracassar. Elas discutem com a conclusão sem alcançar o processo que a construiu. A tarefa não é convencer aquela pessoa de que sua vida é maravilhosa. É ajudá-la a perceber que o filme que ocupa a mente naquele momento não é toda a realidade. O sofrimento é real. A interpretação de que ele será eterno não necessariamente é.

    ONU demanda liberdade de médico de Gaza preso em Israel
    ONU demanda liberdade de médico de Gaza preso em Israel — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Prevenir o ato extremo que a depressão pode levar, portanto, não começa apenas quando alguém verbaliza que pretende morrer. Começa muito antes: quando percebemos o isolamento crescente, a desesperança, a culpa que virou identidade, a sensação de ser um peso, a repetição de cenários mentais sem saída e a perda progressiva da capacidade de imaginar um futuro diferente. Quanto mais cedo interrompemos esse circuito, maior a possibilidade de devolver à pessoa algo que o sofrimento lhe roubou: perspectiva.

    Talvez essa seja a mensagem mais importante. No auge de uma crise suicida, não é necessariamente a vida que ficou sem possibilidades; é a mente que perdeu temporariamente a capacidade de enxergá-las. E isso muda tudo. Porque aquilo que foi construído dentro da mente pode ser compreendido, tratado e transformado. Entre a dor e a autodestruição existe um espaço . É nesse espaço que precisam entrar o outro, o cuidado, o tratamento e, principalmente, uma nova possibilidade de futuro.

    *Texto escrito pelo psiquiatra Dr. Isaac Efraim – CRM/SP 38124 | RQE 33307

    Análise: Depois da era do declínio das instituições
    Análise: Depois da era do declínio das instituições — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil
    Análise: Depois da era do declínio das instituições
    Análise: Depois da era do declínio das instituições — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil
    ONU demanda liberdade de médico de Gaza preso em Israel
    ONU demanda liberdade de médico de Gaza preso em Israel — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil
    Ex-marido de Thais Carla esclarece suposto fetiche em mulheres gordas
    Ex-marido de Thais Carla esclarece suposto fetiche em mulheres gordas — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil
    Saúde mental: autolesão é um dos sinais de alerta, afirma especialista | CNN Sinais Vitais
    Saúde mental: autolesão é um dos sinais de alerta, afirma especialista | CNN Sinais Vitais — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/saude/setembro-amarelo-cuidado-com-a-saude-mental-deve-comecar-nos-sinais-invisiveis-que-antecedem-a-depressao/.

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