Série chilena revisita Colonia Dignidad e expõe trauma após os crimes
Décadas depois de viver sob o domínio de Paul Schäfer na Colônia Dignidad, Anne Schnellenkamp ainda sente algo estranho quando entra numa loja, escolhe uma blusa e paga com seu próprio dinheiro. Durante boa parte da vida, trabalhou sem salário e não conheceu o significado de possuir algo. Leia mais (08/31/2026 - 23h00)

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Décadas depois de viver sob o domínio de Paul Schäfer na Colônia Dignidad, Anne Schnellenkamp ainda sente algo estranho quando entra numa loja, escolhe uma blusa e paga com seu próprio dinheiro. Durante boa parte da vida, trabalhou sem salário e não conheceu o significado de possuir algo.

Anne é uma das personagens de "Los Sobrevivientes: Colonia Dignidad", minissérie documental chilena disponível na Amazon Prime Video. Seu mérito é contar uma história que não termina com a descoberta dos crimes cometidos naquele enclave alemão no sul do Chile . Trata do que veio depois: como reconstruir uma vida após alguém passar décadas decidindo até quem você poderia ser.
A monstruosidade do antes, porém, precisa ser lembrada. Schäfer chegou ao Chile em 1961 fugindo de acusações de abuso sexual de menores na Alemanha . Fundou uma comunidade religiosa fechada e submetida à sua autoridade absoluta, na qual famílias eram separadas, crianças eram afastadas dos pais, o trabalho não era remunerado e meninos eram vítimas de abusos sexuais.
A ditadura de Augusto Pinochet acrescentou outra camada de horror. Ligada à Dina, a polícia política do regime, a colônia serviu como centro clandestino de detenção, tortura e desaparecimento de opositores. Mas não sobreviveu durante décadas apenas porque Schäfer controlava quem vivia dentro dela. Sobreviveu também pelas relações que construiu do lado de fora.

O hospital da Colônia Dignidad atendia uma população rural pobre e ajudava a alimentar sua imagem de instituição beneficente. E a rede de proteção atravessou a redemocratização.
O governo democrático de Patricio Aylwin retirou a personalidade jurídica da organização em 1991, mas não conseguiu desmontar o enclave. Entre os defensores públicos da colônia nos anos 1990 estava Hernán Larraín, que décadas depois se tornaria ministro da Justiça e dos Direitos Humanos .
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Até a estrutura econômica sobreviveu. A antiga colônia funciona hoje como uma holding pertencente a 128 colonos-acionistas, com negócios em agricultura , alimentos e turismo. O patrimônio construído por uma comunidade em que durante décadas se trabalhou sem salário continua sendo motivo de disputas.
Schäfer fugiu do Chile em 1997 e só foi localizado e preso em 2005, escondido na Argentina . Morreu numa prisão chilena cinco anos depois . Sua saída de cena, entretanto, não libertou quem havia vivido sob seu domínio.
Werner Schmidtke conta que Schäfer os convencera de que era o mediador entre eles e Deus. Sexo , casamento e relações afetivas praticamente não existiam naquele mundo.

Quando a colônia se abriu, seus moradores tiveram de aprender já adultos a construir uma identidade própria e se relacionar com outras pessoas. Alguns formaram famílias. Schmidtke diz que nunca superou a vergonha e, por isso, nunca pôde se casar.
Outros decidiram permanecer. Anne ficou. A antiga Colônia Dignidad tornou-se Villa Baviera e passou a receber turistas. Ela trabalha para que o lugar gere renda para os sobreviventes e preserve a memória do que aconteceu .
Para alguns sobreviventes, reconstruir-se significou partir; para outros, ficar. Mas libertação não é o mesmo que reparação. Décadas depois, ainda há crimes sem esclarecimento, desaparecidos sem destino conhecido e disputas sobre memória e patrimônio.

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/serie-chilena-revisita-colonia-dignidad-e-expoe-trauma-apos-os-crimes.shtml.

Vista da entrada de um dos bunkers usados pelo líder de culto e ex-soldado da Wehmacht, Paul Schäfer, em Colônia Dignidad, no Chile - Rodrigo Arangua - 15.abr.25/AFP · Rodrigo Arangua - 15.abr.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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