Sérgio Rodrigues ajudou nossa relação com o português a caminhar ladeira acima
Desafio de falar da nossa língua é imenso, mas me apoio no ombro de gigantes

Professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho curatorial do Museu da Língua Portuguesa, é autor de 'Latim em Pó'
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Os brasileiros estão num excelente momento de crise em sua relação com o idioma . "Excelente" porque eu gosto de ver o circo (ao menos esse) pegar fogo? Pode até ser.
Mas acima de tudo porque a tal da crise tem muito a ver com o abandono de certas imposições fáceis, falsas, forjadas sobre a língua portuguesa.
Decorre de uma aceitação maior da nossa real multiplicidade , nossa imensa complexidade. Decorre de um "à-vontade" mais marcado pelo que sempre foi especificamente nosso, profundamente nosso, e que em tantas situações fomos obrigados a esconder, levados a desconsiderar e desautorizar.

O momento em que Sérgio Rodrigues assumiu a posição de "cronista da língua brasileira" aqui neste jornal —ocupando justo o lugar de um gramático que vinha dessa forte e tradicional corrente prescritivista— é uma marca importante dessa longa caminhada ladeira acima, em que os brasileiros vão entendendo quais de fato são —e quais precisam vir a ser— as regras do jogo com a sua própria língua.
Sem ter um diploma em linguística, mas com formação sólida e sempre atualizada na área, o Sérgio soube ocupar esse lugar de maneira nova, mais moderna, mais real e mais interessante.
Somando a isso a sua atuação criativa com o idioma, como grande escritor que é, ele conseguiu, com todíssimas as letras, realizar o que na sua última coluna disse ter sido seu maior motor aqui: não apenas escrever sobre a língua, mas escrever a língua. Colocá-la em uso, na mesa, debaixo das lentes do microscópio e na palma da mão: no ápice, no extremo, na ponta da língua.

Com a chegada dele, dez anos atrás, a Folha saiu do modelo enferrujado do Consultório Gramatical pra uma ativa reflexão sobre o idioma, seu papel na nossa sociedade e na nossa vida, sem desprezar o pensamento mais profundo sobre questões pontuais de gramática, história do idioma, discurso, etimologia...
O trabalho realizado por ele, tanto em sua coluna quanto no livro "Viva a Língua Brasileira" , é de importância histórica para a nossa cultura, a nossa autoestima, a nossa maturidade. Só me cabe agradecer.
Como tantas leitoras e tantos leitores, eu também vou sentir demais a falta dele por aqui. Só que a minha situação eu sinto informar que é ainda pior. Porque eu preciso fingir ser capaz de ocupar esse lugar, me convencer de que consigo, e convencer a vocês de que mereço a leitura, o interesse.
Vinha tentando em colunas online, quinzenais, mas agora vou pro parquinho com as crianças grandes. Toda quinta-feira, também no jornal impresso, um lugar a que até agora eu vinha só como leitor.
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O desafio, igualzinho ao meu antecessor, é bem maior que eu (vamos fingir que estou falando apenas da estatura física). Mas gigante pode também servir de escada. A gente sobe nos ombros deles e tenta continuar o trabalho.
Eu, que venho da universidade, que venho da linguística, passo a vida me baseando no trabalho e nos escritos de gerações de pesquisadores e autores que me antecederam. E, entre eles, sem a menor sombra de dúvida, fica o meu amigo que agora preciso "substituir".
Não vai ser igual. Vai ter a minha cara, o que nem sei se é grande vantagem.
Mas vai ser movido pelo mesmo interesse que, entre outras tantas coisas, nos transformou em amigos de muitos anos. Entender e pôr em prática nosso fascínio, nosso deslumbre, nossa irritação e nosso amor pela realidade do português usado no Brasil.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/caetano-w-galindo/2026/08/sergio-rodrigues-ajudou-nossa-relacao-com-o-portugues-a-caminhar-ladeira-acima.shtml.

O escritor Sérgio Rodrigues - Ricardo Borges - 13.jun.2019/Folhapress · Ricardo Borges - 13.jun.2019/Folhapress — Foto: UOL
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