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    Sem fruta, macaco-prego vira caçador tal como ancestrais humanos

    Ver um macaco-prego encarapitado em fios telefônicos, com uma pomba das mais gorduchas que lhe pendia da boca não era bem o que eu estava esperando ao morar perto de um fragmento florestal. (A bizarrice da cena só perde para o dia em que um quati escalou a cerca que nos separa da mata equilibrando um pote de achocolatado no focinho.) Leia mais (08/29/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    29 de agosto de 2026 às 10:00
    Sem fruta, macaco-prego vira caçador tal como ancestrais humanos
    Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"

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    Macaco-prego se alimenta com uma cobra no município de Gilbués, no sul do Piauí - Luciano Candisani/Divulgação · Luciano Candisani/Divulgação
    Macaco-prego se alimenta com uma cobra no município de Gilbués, no sul do Piauí - Luciano Candisani/Divulgação · Luciano Candisani/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ver um macaco-prego encarapitado em fios telefônicos, com uma pomba das mais gorduchas que lhe pendia da boca não era bem o que eu estava esperando ao morar perto de um fragmento florestal. (A bizarrice da cena só perde para o dia em que um quati escalou a cerca que nos separa da mata equilibrando um pote de achocolatado no focinho.)

    O fato, porém, é que eu não devia ter ficado surpreso: os macacos-pregos podem ser predadores de mão cheia, e um novo estudo indica que seus talentos para a caça talvez iluminem até o que sabemos sobre certos aspectos da evolução humana.

    Como há várias espécies aparentadas de primata que têm o mesmo nome popular, o bicho de que trata a pesquisa, o Sapajus libidinosus , provavelmente não é o mesmo que os meus vizinhos, já que habita o município de Gilbués (PI), numa zona de transição entre o cerrado e a caatinga. Na localidade, há dois grupos de macacos-pregos que já são observados há vários anos por uma equipe que inclui Patrícia Izar e seus colegas do Departamento de Psicologia Experimental da USP .

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os pesquisadores estavam particularmente interessados na caça a vertebrados, um comportamento já registrado em 89 espécies de primatas até agora, mas que tem nos macacos-pregos alguns de seus maiores representantes.

    O que a equipe queria entender, conforme narrado em artigo na revista científica PLOS One , era o possível padrão de incentivos que levava os bichos a capturar outros animais , bem como as diferenças individuais que levavam certos macacos a investir mais ou menos tempo nessa prática trabalhosa e sangrenta, mas também potencialmente muito nutritiva.

    Vale mencionar ainda outro detalhe importante: um dos grupos costumava receber "provisionamento" –agrados como castanhas, milho e água– para facilitar a observação dos macacos, enquanto o outro não. A diferença também virou uma maneira de checar os fatores que estimulam a predação: num contexto de comida farta, ainda vale a pena caçar?

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    Depois de mais de 5.000 horas de observação, nas quais a equipe registrou 446 casos de predação de vertebrados. Na conta entra o consumo de ovos, mas também a captura de aves já nascidas, répteis (lagartos, lagartixas, iguanas e até cobras; no caso delas, os macacos arrancam a cabeça e consomem o resto) e mamíferos (roedores, gambás e morcegos).

    Em meio à carnificina emergem certos padrões. De fato, o provisionamento faz com que um dos grupos seja menos ávido na hora de caçar. Os macacos-pregos partem para a caça com mais frequência quando as frutas escasseiam e também quando são do sexo masculino. Além disso, dão preferência ao consumo do cérebro e das vísceras dos bichos que lhes caem nas mãos.

    Os paralelos são intrigantes, ainda que não definitivos. Uma possibilidade, no caso da evolução humana, é que o aumento da aridez na África há alguns milhões de anos tenha feito escassear as frutas como fonte de alimento, levando nossos ancestrais a adotar a mesma abordagem dos macacos piauienses.

    Também entre nós o sexo masculino caça com mais frequência (embora haja várias exceções), e o consumo do cérebro e das entranhas casa com a ideia de uma busca por maximizar calorias e nutrientes como estímulo principal da captura de presas. O único toque exclusivamente humano seria abater bichos maiores que o próprio caçador, coisa que nenhum outro primata faz.

    Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2026/08/sem-fruta-macaco-prego-vira-cacador-tal-como-ancestrais-humanos.shtml.

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    Macaco-prego se alimenta com uma cobra no município de Gilbués, no sul do Piauí - Luciano Candisani/Divulgação · Luciano Candisani/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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