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    Seis meses depois, guerra no Irã vira o atoleiro que Trump prometeu evitar

    Outro dia, o presidente Donald Trump publicou uma imagem heroica de si mesmo tendo ao fundo um porta-aviões, aviões de guerra e bandeiras americanas. No canto inferior esquerdo, apareciam o ex-presidente George W. Bush e uma placa com os dizeres: "Missão não cumprida, 2001-2021". No outro canto, havia uma placa em referência a ele próprio: "Missão cumprida, 2026". Leia mais (08/30/2026 - 06h00)

    Folha de S.Paulo
    30 de agosto de 2026 às 09:00
    Seis meses depois, guerra no Irã vira o atoleiro que Trump prometeu evitar
    Ex-presidente desce escada de avião com expressão séria. Selo presidencial dos Estados Unidos aparece desfocado ao fundo à esquerda. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Outro dia, o presidente Donald Trump publicou uma imagem heroica de si mesmo tendo ao fundo um porta-aviões, aviões de guerra e bandeiras americanas. No canto inferior esquerdo, apareciam o ex-presidente George W. Bush e uma placa com os dizeres: "Missão não cumprida, 2001-2021". No outro canto, havia uma placa em referência a ele próprio: "Missão cumprida, 2026".

    O presidente dos EUA, Donald Trump, ao desembarcar do Air Force One em base militar em Maryland - Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP · Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP
    O presidente dos EUA, Donald Trump, ao desembarcar do Air Force One em base militar em Maryland - Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP · Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Só que não está. A guerra de Trump no Irã , que completou seis meses na sexta-feira (28), está longe de ter sido concluída . Meio ano depois, o conflito se deteriorou e se transformou em um atoleiro criado pelo próprio presidente, sem objetivos claros, estratégia evidente ou fim à vista.

    Trump, que chegou ao poder fazendo campanha contra as "guerras eternas" de Bush , apostou sua Presidência em uma versão própria delas.

    Para Trump, talvez seja o pior dos dois mundos. Ele se vê preso em um purgatório exasperante entre um combate em grande escala e a paz verdadeira. Reluta em retomar um bombardeio total, apesar de suas ameaças estrondosas, mas até agora não conseguiu mediar um acordo que encerre a guerra em termos satisfatórios. Não tem uma vitória da qual possa reivindicar o mérito, mas paga o preço político pelos impactos sobre a economia dos Estados Unidos e sobre as chances de seu partido nas eleições de meio de mandato.

    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil
    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em tese, esse tipo de estagnação intermediária poderia se prolongar por muito tempo, muito distante do ataque-relâmpago de quatro a seis semanas que Trump previu ao ordenar a Operação Fúria Épica no fim de fevereiro. Sem nenhum avanço decisivo à vista, os dois lados testam a resistência um do outro, e Trump, apesar de seu histórico de impaciência, deixou claro que "não tem pressa".

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    "Não há muito o que conversar", disse ele a jornalistas na quinta-feira (27), rejeitando qualquer interesse em negociar com o Irã neste momento. "Não queremos falar com eles; não estamos procurando nos reunir nem nada disso. O estreito está aberto; estamos recebendo muitos navios —milhões e milhões de barris de petróleo saem do estreito todos os dias."

    EUA e Irã retomam ataques após fim de cessar-fogo
    EUA e Irã retomam ataques após fim de cessar-fogo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na realidade, o estreito de Hormuz continua sendo uma passagem volátil, com apenas uma fração do tráfego marítimo anterior à guerra, o que mantém os mercados de petróleo instáveis . Embora a guerra tenha matado o líder supremo do Irã, ele foi substituído pelo filho, e o regime brutal que estava no poder há seis meses continua no comando hoje. O programa nuclear iraniano foi danificado, mas Teerã ainda se recusa a abandoná-lo.

    "Tem sido um fiasco", disse Richard Haass, que era diretor de planejamento de políticas do Departamento de Estado quando Bush invadiu o Iraque , em 2003. "Essa é a dura realidade. Ele pode declarar ‘missão cumprida’. Pode tentar vender esse argumento, como costuma fazer, quase como se pudesse criar uma realidade. Mas será muito, muito difícil convencer as pessoas. Não há nada que indique que estamos em uma situação melhor ou que a guerra valeu a pena."

    Os apoiadores da guerra pedem paciência , argumentando que Trump conseguiu enfraquecer substancialmente um Irã radical e perigoso, com um número muito menor de baixas americanas do que nas guerras terrestres de Bush no Iraque ou no Afeganistão . Se Trump mantiver o rumo, afirmam, ainda poderá obrigar o Irã a recuar por meio da força militar ou da pressão econômica, tornando os EUA mais seguros no longo prazo.

    Velório do aiatolá Ali Khamenei atrai multidão e delegações internacionais
    Velório do aiatolá Ali Khamenei atrai multidão e delegações internacionais — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Sei que isso contraria o senso comum, mas acredito que o presidente está vencendo o confronto com o regime iraniano", disse Mark Dubowitz, CEO da Fundação para a Defesa das Democracias. "A República Islâmica nunca esteve tão fraca em seus 47 anos de história. E foi obrigada a usar sua carta mais importante, o estreito de Hormuz, a partir de uma posição de extraordinária fraqueza."

    Dubowitz afirmou que agora resta ao Irã decidir se negociará seriamente ou se passará os próximos dois anos sob pressão implacável. "Não estamos em paz, mas também não estamos em grandes operações de combate", disse. "Trump talvez tenha encontrado o ponto estratégico ideal entre as duas situações: pressão coercitiva contínua, sem uma grande guerra nem um acordo inaceitável."

    Seja qual for o desfecho, a guerra no Irã tornou-se, provavelmente, a maior aposta da Presidência de Trump, ao menos na política externa, e um estudo de caso sobre como ele tem conduzido seu segundo mandato de maneira diferente do primeiro.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Enquanto seus quatro primeiros anos no poder foram definidos por uma política de America First mais voltada para dentro, em reação ao intervencionismo de Bush, Trump voltou à Casa Branca no ano passado mais disposto a exercer poder no exterior e aparentemente mais empenhado em remodelar o mundo a seu gosto.

    A decapitação da liderança venezuelana , suas ameaças de tomar a Groenlândia , o Canal do Panamá e Cuba , e até mesmo o fato de ter rebatizado o Lago Ontário como Lago América nesta semana indicam um presidente preocupado com seu legado e disposto a deixar sua marca para além das fronteiras dos EUA. No entanto, qualquer esperança de que o Irã representasse um sucesso rápido e decisivo há muito se dissipou, e agora o principal objetivo é encontrar uma saída que possa ser apresentada como algum tipo de vitória.

    "A meu ver, a Operação Fúria Épica é a essência de Trump", disse Steven Cook, estudioso do Oriente Médio de longa data no Council on Foreign Relations. "Sem dúvida é ousada, mas seu arquiteto é, em grande parte, descuidado e despreparado, conduzindo um conflito à base do improviso e de muita bravata."

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Cook acrescentou: "Os EUA poderiam vencer no fim, mas isso só ocorreria porque são poderosos apesar dos erros de Trump e porque os iranianos são relativamente fracos, não porque o presidente adotou uma estratégia eficaz."

    Victor Davis Hanson, pesquisador sênior da Hoover Institution, da Universidade Stanford, discordou, afirmando que Trump segue o que chamou de "uma estratégia Anaconda da Guerra Civil", que acabará dando resultado.

    "Ele vai apertá-los tanto quanto puder e, quando começarem a ceder, eles lançarão mísseis ou drones de sua frota residual, e ele os atingirá com força", disse Hanson nesta semana, em um podcast do Daily Signal. "E ele espera que isso continue, que essa contenção prossiga até as eleições de meio de mandato."

    Hanson acrescentou que a pressão econômica sobre o Irã poderia, em última instância, desencadear levantes populares ou reduzir ainda mais a capacidade do país. "Isso é vitória? Não sei", disse. Mas acrescentou que a estratégia poderia impedir o Irã de desenvolver uma arma nuclear a um custo em vidas e recursos muito inferior ao das guerras de Bush. "Compare isso com US$ 1 trilhão no Iraque e provavelmente US$ 2 trilhões no Afeganistão ao longo de 20 anos", afirmou.

    Quanto aos objetivos delineados por Trump no início, a maioria continua sem ser alcançada. Ele gosta de se vangloriar de ter destruído a Força Aérea e a Marinha iranianas , mas Teerã continua capaz de atacar bases e aliados dos EUA na região. O dia da libertação que ele previu para o povo iraniano, quando este se livraria de seus opressores, nunca chegou. A capacidade do Irã de apoiar grupos terroristas aliados na região diminuiu, mas não foi eliminada. E seu programa nuclear foi seriamente danificado , mas o regime se recusa a abandoná-lo e poderia reconstituí-lo, segundo analistas.

    Haass, que era cético quanto ao plano de Bush de invadir o Iraque enquanto trabalhava em seu governo e depois escreveu um livro sobre o fracasso da operação, afirmou que, paradoxalmente, tanto aquele conflito quanto o de Trump deixaram o Irã mais forte.

    No caso do Iraque, observou Haass, o Irã tornou-se uma força dominante dentro do país vizinho e inimigo depois da derrubada de Saddam Hussein; agora, demonstrou sua capacidade de abalar os mercados mundiais de energia ao bloquear o transporte marítimo pelo estreito. "O Irã é o beneficiário estratégico das duas guerras", afirmou.

    Trump, é claro, contestaria essa avaliação. Na verdade, ele tem afirmado repetidamente que já prevaleceu contra o Irã. "Já vencemos", declarou em 7 de março, pouco mais de uma semana após o início da guerra. "Vencemos em tudo; temos todas as cartas", disse em 25 de abril. "Já vencemos essa", afirmou em 4 de maio. "Não sei se vocês ficaram sabendo, mas encerramos hoje a guerra com o Irã", disse em 11 de junho, comemorando um cessar-fogo que não durou.

    A publicação de Trump nas redes sociais com os dizeres "Missão cumprida", nesta semana, fazia alusão ao malfadado discurso de Bush diante de uma faixa com essas palavras a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, poucas semanas após a invasão inicial do Iraque, em 2003 —uma declaração que mais tarde se tornou símbolo de uma vitória anunciada prematuramente. Se Trump percebeu a ironia de invocar ele próprio essa imagem, não deu nenhum sinal disso, mas muitos outros perceberam.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/seis-meses-depois-guerra-no-ira-vira-o-atoleiro-que-trump-prometeu-evitar.shtml.

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    O presidente dos EUA, Donald Trump, ao desembarcar do Air Force One em base militar em Maryland - Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP · Kent Nishimura - 28.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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