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    Se o osso peniano em certos animais ainda é uma novidade para muitos, o osso clitoriano é ainda mais surpreendente

    Quando pensamos em ossos, principalmente no que se refere aos mamíferos , certamente fazemos associação com o crânio, fêmur e vértebras, ou seja, conhecemos quais são os ossos que compõem nosso esqueleto e sabemos a sua função -sustentação, equilíbrio, mobilidade e proteção. Leia mais (08/14/2026 - 16h00)

    Folha de S.Paulo
    14 de agosto de 2026 às 19:00
    Se o osso peniano em certos animais ainda é uma novidade para muitos, o osso clitoriano é ainda mais surpreendente
    Objeto alongado e fino, com superfície irregular, posicionado horizontalmente sobre uma régua com marcação de 1 cm para escala. O objeto tem aproximadamente 6 cm de comprimento e está sobre fundo escuro. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Professora da pós-graduação em Estudos Ambientais Aplicados à Fauna, PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)

    O osso clitoriano, ou baubelo, presente em algumas espécies mas cuja função ainda é objeto de pesquisa - Foto disponibilizada por Cláudia Guimarães Costa · Foto disponibilizada por Cláudia Guimarães Costa
    O osso clitoriano, ou baubelo, presente em algumas espécies mas cuja função ainda é objeto de pesquisa - Foto disponibilizada por Cláudia Guimarães Costa · Foto disponibilizada por Cláudia Guimarães Costa — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando pensamos em ossos, principalmente no que se refere aos mamíferos , certamente fazemos associação com o crânio, fêmur e vértebras, ou seja, conhecemos quais são os ossos que compõem nosso esqueleto e sabemos a sua função —sustentação, equilíbrio, mobilidade e proteção.

    No entanto, ao nos referirmos à existência de um osso no pênis , a maior parte das pessoas se surpreende. Contudo, é ainda mais surpreendente quando mencionamos a existência de um osso no clitóris das fêmeas.

    Sim, alguns grupos de mamíferos —como roedores , morcegos e primatas— possuem estruturas ósseas associadas à genitália . O báculo é o osso que ocorre no pênis, enquanto o baubelo é o osso presente no clitóris das fêmeas. Essas estruturas têm seus nomes com origem no latim: Baculum (em português, bastão ou cajado) e Baubellum (em português, joia).

    Homossexualidade em animais pode ter raiz evolutiva profunda
    Homossexualidade em animais pode ter raiz evolutiva profunda — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Diferente do que acontece com os machos, para os quais existem diversas publicações científicas que apresentam a morfologia da genitália, descrevem o báculo e suas funções, o estudo da genitália feminina e a estrutura presente nas fêmeas é negligenciado .

    E não se trata apenas dos animais : é assim com os humanos também.

    O clitóris é amplamente reconhecido como o principal ponto do prazer sexual feminino . Apesar de seu papel central, historicamente o órgão recebeu descrições imprecisas, sendo frequentemente tratado de forma simplificada como uma versão miniaturizada do pênis. Chegou a ser omitido em manuais médicos entre as décadas de 1950 e 1970.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas a identificação do órgão remonta à Antiguidade clássica. Autores como Rufo de Éfeso —responsável por introduzir o termo kleitoris— e Sorano de Éfeso já documentavam a anatomia feminina por volta do século 2 depois de Cristo. Em contrapartida, figuras de grande influência como Galeno, o mais famoso médico da Antiguidade depois de Hipócrates , negligenciaram o tema. E o próprio pai da Medicina interpretou o clitóris, erroneamente, como um mecanismo de proteção.

    Na Idade Média , a estrutura anatômica sofreu forte repressão moral e religiosa, recebendo denominações pejorativas no manual inquisitorial, como o "mamilo do diabo" Malleus Maleficarum.

    No século 16, o anatomista Matteo Realdo Colombo divulgou em sua publicação De re anatomica a definição do clitóris como o foco central do prazer feminino. Mas foi apenas entre os séculos 17 e 19 que o rigor científico em torno do órgão ganhou força.

    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool)
    Surfista Ítalo Ferreira durante eclipse solar em praia entre as cidades de Natal e Baía Formosa, no Rio Grande do Norte - (Foto: Marcelo Maragni / Red Bull Content Pool) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Regnier De Graaf desempenhou um papel central ao detalhar o clitóris, surpreso por nenhum anatomista tê-lo descrito até o momento, pois "se trata de uma estrutura perceptível a visão e ao tato".

    George Ludwig Kobelt realizou o mapeamento detalhado da rede nervosa, vascular e interna. Mas esse período foi marcado também por práticas médicas retrógradas, como a realização de clitoridectomias (remoção cirúrgica do clitóris) para conter supostos transtornos mentais e neurológicos.

    No século 20, o assunto retornou aos debates médicos por intermédio das teorias de Sigmund Freud sobre o desenvolvimento psicossexual. Apesar disso, o tema permaneceu sob forte tabu social: a edição número 25 do renomado manual "Gray’s Anatomy", lançada em 1948, omitiu completamente ilustrações anatômicas do órgão .

    Historicamente, a anatomia feminina foi quase exclusivamente documentada por homens, tratada como um tabu por séculos e com forte influência de paradigmas culturais, religiosos e científicos.

    Este cenário só mudou drasticamente em 2005, quando Helen O'Connell e sua equipe apresentaram o mapeamento mais abrangente da estrutura até então, recorrendo a exames de ressonância magnética , análises histológicas e modelagem em 3D.

    Esta pesquisa revolucionou o entendimento científico ao descrever o clitóris como um sistema complexo e unificado —que inclui a glande, as hastes, o corpo, os bulbos e seções adjacentes à uretra e à vagina —, consolidando-o como o eixo principal da resposta orgástica feminina.

    Assim como a genitália das mulheres vem sendo mais estudada, também os corpos das fêmeas de muitas espécies estão recebendo mais atenção de pesquisadores —e sobretudo pesquisadoras .

    Um grupo de pesquisa italiano, especialmente duas cientistas, tem se dedicado a descrever a morfologia do baubelo de algumas espécies de primatas . Os resultados obtidos revelam que muitos primatas não humanos possuem báculo e a maior parte das fêmeas destas espécies possuem baubelo.

    As pesquisas do grupo reforçam grandes questões relacionadas à evolução: por que os primatas não humanos , tão próximos de nós, possuem báculo e baubelo? Por que os primatas humanos os perderam? O que pode ter levado a essa perda?

    Alguns pesquisadores sugerem que diferentes pressões seletivas possam ter influenciado na manutenção, assim como na perda e mudança desses ossos, dentre elas, o tipo de sistema de acasalamento .

    Os primatas não humanos, em sua maioria poligâmicos, possuem estas estruturas. É possível que a sua presença favoreça, de alguma forma, o sucesso reprodutivo das espécies poligâmicas que as possuem. Isso levanta a hipótese de que, provavelmente, por termos um comportamento tendenciosamente monogâmico , estas estruturas teriam se perdido. Será?

    Fascinada por estas questões, tenho me dedicado e este estudo, contando com parcerias de pesquisadores da PUC Minas e da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A princípio, a questão básica da minha pesquisa se concentra na identificação da presença ou ausência do báculo e baubelo em algumas espécies de carnívoros para, posteriormente, inferir nas possíveis causas da sua existência ou não.

    São investigadas espécies de cachorro-do-mato ( Cerdocyon thous ), raposinha ( Lycalopex vetulus ), cachorro-do-mato-vinagre ( Speothos venaticus ) e lobo-guará ( Chrysocyon brachyurus ). A presença do báculo já foi descrita para os canídeos neotropicais, mas nenhum estudo descreve e confirma a presença do baubelo nas espécies desse grupo.

    Também investigo a presença destas estruturas em onça-pintada ( Panthera onca ), onça-parda ( Puma concolor ), jaguatirica ( Leopardus pardalis ), gato-mourisco ( Herpailurus yagouaroundi ), e gato-do-mato-pequeno ( Leopardus guttulus ).

    Uma questão especialmente desafiadora é a confirmação da presença/ausência do osso clitoriano em felideos. O báculo já foi citado em publicações para algumas espécies do grupo, onde foi mencionado que trata-se de uma estrutura cartilaginosa, não completamente ossificada.

    Vale destacar que, todas as amostras coletadas, são provenientes de carcaças de animais atropelados em estradas ou de indivíduos que vieram à óbito em criatórios ou zoológicos, devidamente autorizadas pelos órgão competentes.

    Em geral, o baubelo é menor e morfologicamente menos definido quando comparado ao báculo. Na morsa ( Odobenus rosmarus ), por exemplo, os machos adultos têm o maior báculo conhecido dentre os mamíferos (cerca de 65 centímetros), enquanto as fêmeas têm um baubelo bem menor e de formato diferente do báculo. Por outro lado, fêmeas do esquilo-cinzento-oriental ( Sciurus carolinensis ), espécie comum nos Estados Unidos , possuem o baubelo semelhante, em forma e tamanho, ao báculo.

    A ocorrência do osso clitoriano e do báculo pode estar associada a hormônios masculinos (no caso, a testosterona). Um estudo experimental observou o desenvolvimento do baubelo em cães, furões e ratos nos quais se administrou testosterona, mesmo que poucas espécies destes grupos possuam a estrutura naturalmente.

    Por outro lado, a realização de castração em machos alterou o desenvolvimento completo do báculo, impedindo que o osso atingisse seu tamanho e forma do estágio adulto em várias espécies.

    Muitas funções são propostas para o báculo, como suportar o pênis, facilitar a introdução de tampões copulatórios em posição ideal, garantir o depósito de esperma mais perto do local da fertilização, proteger a uretra da compressão durante cópulas prolongadas, ou ainda estimular a fêmea durante a cópula.

    Ainda que o baubelo e o báculo geralmente estejam presentes tanto em machos quanto em fêmeas da mesma espécie, a presença do osso clitoriano é muito mais instável: ele tende a estar ausente com maior frequência e a apresentar padrões menos consistentes que o báculo. Isso indica que pode não ter uma função clara e acabar sendo perdido em algumas espécies. Ou seja, a possível função do baubelo não é conhecida e pode se tratar de uma estrutura não funcional.

    Estudos que documentam a presença e descrevem a morfologia do baubelo em espécies neotropicais , sobre as quais a ciência não possui informações, são importantes para compreender quais os fatores favorecem a ocorrência desta enigmática estrutura das fêmeas de algumas espécies de mamíferos.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/08/se-o-osso-peniano-em-certos-animais-ainda-e-uma-novidade-para-muitos-o-osso-clitoriano-e-ainda-mais-surpreendente.shtml.

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