“Se deixarmos, a China vai desindustrializar o mundo”, diz ex-embaixador
Mexicano Jorge Guajardo, que atuou no país asiático, alerta para urgência de países se protegerem contra “inundação” de produtos chineses

Mexicano Jorge Guajardo, que atuou no país asiático, alerta para urgência de países se protegerem contra “inundação” de produtos chineses
Jorge Guajardo , ex-embaixador do México na China, considera que a “inundação” de produtos manufaturados chineses tem potencial de “desindustrializar” o mundo inteiro caso governos não adotem medidas para evitar a exportação em massa vinda do país asiático.
Guajardo, que representou seu país em Pequim de 2007 a 2013, apresentou um diagnóstico sobre a política industrial chinesa nesta 3ª feira (29.set.2026), durante o Congresso Aço Brasil 2026 , em São Paulo. O ex-diplomata afirma que os governos e autoridades devem tratar o tema com “urgência” para não verem suas indústrias desaparecerem “do dia para a noite” .

O ex-embaixador defende que os países imponham barreiras comerciais ou taxas aos produtos chineses e bloqueiem até mesmo parcerias em linhas de montagem e mercadorias vindas de países do Sudeste Asiático. De acordo com ele, a região recebe capital e bens intermediários chineses para posterior confecção e venda de mercadorias a países que aplicam restrições à China.
Segundo Guajardo, o direcionamento do excedente produtivo chinês para o mercado global faz parte de uma estratégia do governo de Xi Jinping, onde o Estado tem ingerência completa sobre a economia e a indústria.
O ex-embaixador afirma que a China atravessa desde 2022 um momento de enfraquecimento do seu “motor econômico”.

De acordo com ele, o país enfrenta problemas de reposição populacional e colapso demográfico depois de ter “urbanizado uma população equivalente à de toda a Europa” em 30 anos, de 1990 a 2020. Nesse período, a China levou para as cidades cerca de 20 milhões de pessoas por ano, o que exigiu construir o equivalente a 2,5 cidades de Nova York, segundo o diplomata.
O problema, diz Guajardo, é que o Estado chinês decidiu não desacelerar a indústria diante desse novo cenário, apesar de já não ter mais um motor de crescimento econômico interno .
“Nas nossas economias, quando o mercado cai e não há demanda, nós fechamos as plantas. É trágico, mas é a realidade do mercado. A China é uma economia planejada e disse: ‘Não, não vamos fechar fábrica nenhuma. Nosso motor de crescimento acabou, temos aço, vidro, cimento, petroquímica e carros de sobra, mas não vamos fechar nada. O que vamos fazer? Vamos exportar para quem aceitar’. E quando os 30% do PIB que vinham da construção imobiliária sumiram, o governo decidiu investir ainda mais em manufatura para descarregar a produção no resto do mundo” , afirma.
No setor automotivo, por exemplo, o ex-embaixador afirma que a China exportava 1 milhão de carros em 2020 e projeta exportar 12 milhões em 2026, volume superior a todo o mercado anual da Europa. Apesar do mercado interno chinês ter encolhido 24%, não houve qualquer corte de produção.
Guajardo defende que os países que não adotarem medidas contra a estratégia chinesa correm risco de serem “desindustrializados” em diversas áreas. “Não tenham dúvida. Se permitirmos que a China continue exportando isso, vai desindustrializar o mundo inteiro”, afirmou no evento .
Ele cita que algumas potências como Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul já aplicaram medidas para fechar suas fronteiras comerciais e alerta que toda a produção excedente da China será descarregada nos países que mantiverem seus mercados abertos.
O ex-embaixador defende ainda que os países estão excessivamente preocupados com o tarifaço dos EUA, enquanto deveriam voltar suas atenções para a China. “E eu digo uma coisa a vocês: parem de prestar atenção no Trump, parem de prestar atenção nos Estados Unidos” , alerta.
“Atualmente, o Trump está tirando todo o oxigênio da conversa porque estamos todos observando se os Estados Unidos vão impor uma tarifa ou não. Nesse meio-tempo, todos os nossos governos estão focados nos Estados Unidos e se esquecendo da China — ou, no pior dos casos, acreditando que a China é um contrapeso aos Estados Unidos. Não é. É ruim se os Estados Unidos impuserem tarifas sobre os nossos produtos, é péssimo se nós não as impusermos sobre a China” , finalizou.
O Congresso Aço Brasil 2026 é o principal evento do setor do país. O encontro é realizado no Transamérica Expo Center, em São Paulo, pelo Instituto Aço Brasil, que representa as empresas brasileiras produtoras de aço.
Em sua 36ª edição, o evento reúne, nos 2 dias de programação, os principais representantes da indústria do aço, além de especialistas e lideranças do cenário econômico e empresarial. O objetivo é debater as perspectivas do setor e sua importância para o desenvolvimento do Brasil.
Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-china/se-deixarmos-china-vai-desindustrializar-o-mundo-diz-ex-embaixador/.

O ex-embaixador do México na China, Jorge Guajardo, participou nesta 3ª feira (29.set.2026) do Congresso Aço Brasil, em São Paulo — Foto: Poder360
Compartilhe
Espalhe essa notícia

