Se as bets acabaram, por que ainda precisamos falar sobre elas?
Aos 13 anos, eu, Deivyd, depositava minha esperança de mudar de vida no campo de futebol. Não era só minha: era a do meu pai, do meu irmão e de quase todo garoto da minha escola. Pouquíssimos chegariam ao profissional, mas havia uma rota: treinar e tentar entrar em campo. Hoje, um jovem nem precisa entrar em campo para receber uma promessa parecida. Basta apostar em quem está nele. Leia mais (10/03/2026 - 08h00)

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Fundadora da Politiqueiros Brasil, é estudante de administração pública na FGV e destaque do Empreendedor Social 2024 como Jovem Transformadora
Fundador da Investeens e Jovem Transformador Ashoka
Aos 13 anos, eu, Deivyd, depositava minha esperança de mudar de vida no campo de futebol. Não era só minha: era a do meu pai, do meu irmão e de quase todo garoto da minha escola. Pouquíssimos chegariam ao profissional, mas havia uma rota: treinar e tentar entrar em campo. Hoje, um jovem nem precisa entrar em campo para receber uma promessa parecida. Basta apostar em quem está nele.

Começamos a escrever este artigo antes de o governo federal proibir as bets . Achamos que a medida havia envelhecido nossa pergunta. Aconteceu o contrário. A proibição enfrenta os danos das apostas, mas não explica por que sua promessa encontrou tanta gente disposta a acreditar nela.
Já eu, Rhayani, cheguei a essa pergunta por outro caminho. Uma pessoa que amo muito aposta. Certa vez, nós dois estávamos com dificuldades financeiras quando ela disse que nossas situações eram diferentes. Eu estava perto de me formar e podia esperar ganhar mais nos anos seguintes. Ela não. "A minha tendência é continuar o mesmo."
Aquilo ficou comigo. Ela não falava só daquele mês, mas do futuro. Nós dois estávamos apertados; eu ainda via uma escada. Ela, uma linha reta.

O Atlas da Mobilidade Social, divulgado pela Folha neste ano , mostra que 1,28% dos filhos dos 25% mais pobres chegam aos 10% mais ricos quando adultos. Para muita gente, a linha reta não é só pessimismo.
Deivyd trabalha com educação financeira e sabe que entender risco e planejamento muda decisões. Rhayani esbarra numa pergunta anterior: como convencer alguém a apostar no longo prazo quando ele parece uma repetição do presente?
Há também uma diferença entre o sonho do campo e a promessa na tela: na bet, quem define a odd —o multiplicador que determina quanto a aposta paga em caso de acerto— é a casa. E o negócio só funciona porque, no conjunto, ela ganha.
Isso não significa que quem aposta não entenda de dinheiro. Em um estudo com adultos na Alemanha, Jens Beckert e Mark Lutter relacionaram o jogo na loteria a fatores como privação social percebida, escolaridade e convívio com outros apostadores.
Não é um estudo sobre bets nem sobre o Brasil e, portanto, não explica o que acontece aqui. Mas ajuda a desconfiar de uma resposta fácil: reduzir a aposta a erro de cálculo ou falta de informação.
Educação financeira importa . Mas não pode carregar sozinha uma resposta que é também social. É possível ensinar alguém a entender uma odd ou planejar o futuro. Mais difícil é convencer essa pessoa a esperar dez anos quando ela não consegue imaginar uma vida muito diferente ao final deles. Reduzir tudo à educação financeira transforma um problema de país em falha individual.
Depois daquela conversa, a euforia dessa pessoa ao ganhar passou a fazer mais sentido. Não porque o risco desapareça, mas porque a bet oferece algo que o trabalho já não parece oferecer: a possibilidade de mudar de trajetória.
Há ainda um detalhe. Essa pessoa não vota. Acredita que a política pode piorar sua vida. O que não acredita é que possa melhorá-la.
Uma história não prova que apostar afaste alguém da democracia. Nossa inquietação é outra: o que acontece quando a sorte parece uma possibilidade de transformação mais crível do que a ação coletiva?
Talvez esteja aí o apelo das bets. Elas não precisam prometer salários melhores, escolas melhores ou mais oportunidades. Nada ao redor precisa mudar; basta que você seja a exceção. É uma espécie de privatização da esperança: diante de problemas coletivos, a saída oferecida é escapar sozinho .
A proibição pode tirar a aposta do celular. Não tira a linha reta. Educação financeira ajuda alguém a cuidar melhor do dinheiro que tem. Não consegue, sozinha, fazer o salário crescer, criar oportunidades ou tornar a mobilidade social mais provável. Isso depende também das escolhas que fazemos como sociedade.
As bets podem ter acabado. A pergunta que elas deixaram, não: o que uma democracia tem a oferecer a quem trabalha, olha para o próprio futuro e conclui que sua tendência é continuar o mesmo?
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/10/se-as-bets-acabaram-por-que-ainda-precisamos-falar-sobre-elas.shtml.

Mulher usa celular para fazer apostas em jogo online - Laryssa Toratti - 7.out.2024/Folhapress · Laryssa Toratti - 7.out.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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