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    Santos terá que indenizar cadeirante que perdeu visão de um olho após jogo

    TJSP manteve decisão que avalia danos morais e estéticos em R$ 90 mil após suposta bala de borracha atingir torcedor nos arredores do estádio; valor será pago solidariamente pelo Estado de São Paulo

    CNN Brasil
    1 de setembro de 2026 às 14:51
    Santos terá que indenizar cadeirante que perdeu visão de um olho após jogo
    Foto: CNN Brasil

    O TJSP ( Tribunal de Justiça de São Paulo) manteve a condenação do Santos Futebol Clube e do Estado de São Paulo ao pagamento de R$ 90 mil em indenização por danos morais e estéticos a um torcedor atingido por um suposto disparo de bala de borracha durante uma ação policial nos arredores do estádio da Vila Belmiro .

    A decisão foi tomada pela 6ª Câmara de Direito Público e confirmou sentença da 1ª Vara da Fazenda Pública de Santos.

    O caso teve origem em um episódio ocorrido em 20 de setembro de 2017 , após uma partida de futebol disputada na Vila Belmiro. O torcedor, que é cadeirante e possui mobilidade reduzida, estava nas imediações do estádio quando houve um tumulto envolvendo torcedores e policiais militares . Ele foi atingido no olho direito e precisou ser levado a um hospital, onde passou por cirurgia .

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    Santos vê Olympique de Marseille barrar saída de Emerson Palmieri — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    De acordo com a sentença acessada pela CNN Brasil , a vítima relatou que havia deixado o estádio e, diante da confusão, tentou retornar ao local. Nesse momento, teria sido atingida pelo disparo . O homem foi socorrido por amigos e encaminhado ao Hospital Santa Casa de Santos, onde passou por procedimento cirúrgico para reconstrução ocular.

    Segundo laudo, a lesão provocou perda permanente da visão do olho atingido . A perícia médica realizada durante o processo apontou a existência de lesão definitiva e grave, com alteração permanente da visão e incapacidade para determinadas atividades. O laudo também registrou que a sequela poderia gerar impacto psicológico decorrente da perda da visão.

    Durante a tramitação da ação , houve controvérsia sobre a origem exata do objeto que provocou a lesão. O clube sustentou que não havia comprovação de que o ferimento tivesse sido provocado por uma bala de borracha disparada por policiais e alegou que o dano poderia ter decorrido de outros objetos lançados durante o tumulto.

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    A perícia, de fato, não conseguiu identificar de maneira conclusiva o objeto que atingiu o torcedor, mas afirmou que tanto o relatório médico do hospital quanto o relato da vítima "indicam para uma bala de borracha". Além disso, ao analisar o caso, a relatora do recurso, desembargadora Tania Ahualli, considerou que a hipótese apresentada pela defesa permaneceu sem comprovação.

    “A tese defensiva de que o ferimento poderia ter sido causado por outros objetos arremessados no tumulto permanece no campo meramente hipotético, desacompanhada de prova efetiva capaz de infirmar a narrativa autoral acolhida pela sentença”, escreveu.

    Na sentença de primeiro grau, o juízo também considerou relevante a prova testemunhal produzida durante a instrução. Uma testemunha afirmou ter presenciado a confusão entre torcedores e policiais e relatou ter visto o momento em que o autor foi atingido.

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    "Eu lembro como se fosse hoje. A gente estava assistindo um jogo de futebol na Vila Belmiro, na Conmebol, que era Libertadores, e o jogo foi em setembro de 2017. (...) Acabamos se encontrando lá, saímos e do lado de fora teve uma confusão, um conflito com policiais, com a torcida organizada do Santos e (...) eu escutei um grito chamando socorro. Quando vi, era o autor, que estava caído todo ensanguentado, tomou um tiro no olho. Eu fui ajudá-lo, (...) quando nós voltamos o portão estava fechado e não deixava mais ninguém entrar", relatou uma testemunha no curso do processo.

    A prova oral foi considerada, em conjunto com a perícia médica, suficiente para estabelecer o nexo entre a ocorrência e a perda da visão do olho.

    A condenação do Estado foi fundamentada na responsabilidade civil objetiva da administração pública . Pela Constituição Federal, o poder público responde pelos danos causados por seus agentes a terceiros no exercício de suas funções, independentemente da demonstração de culpa.

    Santos vê Olympique de Marseille barrar saída de Emerson Palmieri
    Santos vê Olympique de Marseille barrar saída de Emerson Palmieri — Foto: CNN Brasil · Fonte: CNN Brasil

    Na decisão de primeiro grau, o juízo destacou que a atuação policial durante o tumulto estava relacionada diretamente ao evento e que, no caso analisado, ficou demonstrada a relação entre a conduta dos agentes públicos e o dano sofrido pelo torcedor. A sentença também afastou a possibilidade de enquadrar o episódio simplesmente como caso fortuito ou força maior.

    A discussão, porém, não ficou restrita à atuação dos policiais . O clube também foi responsabilizado.

    O Santos havia argumentado no processo que não poderia ser responsabilizado pelo ocorrido porque o tumulto teria acontecido fora das dependências do estádio e porque a segurança pública seria atribuição da Polícia Militar. Também afirmou ter adotado medidas de segurança e solicitado efetivo policial para a partida.

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    A Justiça, entretanto, entendeu que a responsabilidade do clube decorre do Estatuto do Torcedor , que atribui ao mandante da partida deveres relacionados à segurança dos espectadores. Ao manter a condenação, a desembargadora Tania Ahualli afastou a alegação de ilegitimidade passiva do Santos e destacou que a obrigação prevista na legislação especial alcança situações relacionadas ao evento esportivo e às suas imediações.

    “Ainda que a atuação operacional da segurança pública seja atribuição estatal, a responsabilidade prevista na legislação especial possui natureza solidária, especialmente quando os fatos decorrem diretamente do evento esportivo e ocorrem em suas imediações imediatas”, afirmou a relatora.

    Segundo a magistrada, o fato de o clube ter adotad o providências preventivas não seria suficiente , por si só, para afastar a responsabilidade reconhecida judicialmente.

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    “O tumulto teve origem imediatamente após a realização da partida de futebol, inserindo-se no contexto do risco inerente à atividade desenvolvida pela entidade desportiva”, escreveu. Para ela, as medidas adotadas pelo Santos , embora relevantes, “não afastam a responsabilidade solidária reconhecida pela legislação aplicável”.

    A sentença de primeiro grau já havia seguido essa linha ao considerar que o Estatuto do Torcedor estabelece responsabilidade do clube mandante pela segurança do evento, inclusive diante da necessidade de contratação ou solicitação de agentes públicos.

    Além da lesão física, a Justiça reconheceu a existência de dano estético , considerando a alteração permanente provocada pela lesão ocular.

    Na sentença, considerou-se que a perda da visão ultrapassava o mero aborrecimento e produzia consequências relevantes sobre a vida da vítima . O dano moral foi associado ao sofrimento decorrente da lesão, enquanto o dano estético levou em conta a alteração da integridade física e da aparência.

    O valor total da reparação foi fixado em R$ 90 mil , quantia que deverá ser paga solidariamente pelo clube e pelo Estado. O pedido de indenização por danos materiais, por sua vez, não foi acolhido com a justificativa de que não houve comprovação suficiente dos gastos alegados.

    A CNN Brasil entrou em contato com o Santos Futebol Clube e com o Estado de São Paulo. O espaço permanece aberto.

    Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/santos-tera-que-indenizar-cadeirante-que-perdeu-visao-de-um-olho-apos-jogo/.

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