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    Santa ou pecadora? Dez obras que mostram por que Maria Madalena é uma das personagens mais polêmicas da Bíblia

    Poucas figuras bíblicas causaram mais fascinação na sociedade do que Maria Madalena . Leia mais (09/19/2026 - 11h33)

    Folha de S.Paulo
    19 de setembro de 2026 às 14:33
    Santa ou pecadora? Dez obras que mostram por que Maria Madalena é uma das personagens mais polêmicas da Bíblia
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Poucas figuras bíblicas causaram mais fascinação na sociedade do que Maria Madalena .

    Quadro 'O Desafio', da pintora espanhola Nieves González - Nieves González/Coleção particular · Nieves González/Coleção particular
    Quadro 'O Desafio', da pintora espanhola Nieves González - Nieves González/Coleção particular · Nieves González/Coleção particular — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Considerada a primeira pessoa a testemunhar a ressurreição de Cristo e divulgar a notícia, a chamada "apóstola dos apóstolos" mantém há séculos apaixonados seguidores entre comunidades religiosas e profanas.

    Mas a Bíblia apresenta relativamente poucas referências a Maria Madalena. Por isso, a mitologia em torno dela ofuscou sua figura real.

    Ao longo do tempo, o nome de Madalena passou a representar uma combinação de diferentes personagens bíblicos e noções históricas. E algumas delas se associaram ao seu nome com mais força do que os próprios relatos bíblicos.

    'A Elevação de Santa Maria Madalena', do artista alemão Albrecht Dürer - Museu Städel, Frankfurt (Alemanha) · Museu Städel, Frankfurt (Alemanha)
    'A Elevação de Santa Maria Madalena', do artista alemão Albrecht Dürer - Museu Städel, Frankfurt (Alemanha) · Museu Städel, Frankfurt (Alemanha) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É esta questão que explora a exposição "Maria Madalena. Pecado. Oração. Amor", em cartaz no Museu Städel em Frankfurt, na Alemanha.

    "Descobrimos essencialmente que existem três Marias Madalenas em uma", afirma o historiador da arte Bastian Eclercy, um dos curadores da exposição.

    "Uma é a pecadora anônima, outra é a Maria da Betânia e a terceira é a Maria Madalena bíblica, estritamente falando."

    'Marta Repreende sua Vaidosa Irmã Maria Madalena', do pintor francês Simon Vouet - Museu de História da Arte, Viena (Áustria) · Museu de História da Arte, Viena (Áustria)
    'Marta Repreende sua Vaidosa Irmã Maria Madalena', do pintor francês Simon Vouet - Museu de História da Arte, Viena (Áustria) · Museu de História da Arte, Viena (Áustria) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como o título sugere, a exposição analisa as três principais formas de representação de Madalena.

    "'Pecado' representa a imagem da pecadora e penitente que moldou as percepções ao longo dos séculos. 'Oração', a Maria Madalena santa e discípula de Jesus ; e 'Amor' relembra as diversas noções de amor, devoção e intimidade associadas a ela", explica Eclercy à BBC.

    Aqui, observamos dez obras da exposição que ilustram as diferentes visões de Maria Madalena e as mudanças da percepção das mulheres ao longo do tempo.

    Imagens da série Maria Madalena
    Imagens da série Maria Madalena — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na xilogravura em papel do artista alemão Albrecht Dürer (1471-1528), Maria Madalena aparece nua, sendo erguida em direção aos céus por seis anjos.

    A cena é inspirada na Legenda Áurea, um texto do século 13, de autoria do escritor e arcebispo italiano Jacobus de Voragine (c.1230-1298).

    Em uma das histórias populares incluídas na obra, Maria se retira para o sul da França, em busca de solidão.

    'A Dor de Madalena sobre o Corpo de Cristo', do pintor suíço Arnold Böcklin - Museu de Arte da Basileia (Suíça) · Museu de Arte da Basileia (Suíça)
    'A Dor de Madalena sobre o Corpo de Cristo', do pintor suíço Arnold Böcklin - Museu de Arte da Basileia (Suíça) · Museu de Arte da Basileia (Suíça) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na pintura a óleo do artista italiano Giovanni Girolamo Savoldo (c.1480-após 1548), Madalena não é imediatamente reconhecível.

    Mas especialistas afirmam que o pequeno vaso no canto esquerdo e seu vestido vermelho (geralmente associado à sensualidade e ao perigo), que surge por debaixo do manto de cetim prateado, ajudam a identificá-la.

    "Alguns defendem que poderia ser Maria, a mãe de Cristo, pois não temos muitas indicações óbvias. Mas acredito que seja Maria Madalena porque temos aquele jarro de alabastro", afirma a professora de estudos cristãos Siobhan Jolley, da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

    'Cristo e a Pecadora', do pintor alemão Max Beckmann - Museu de Arte de Saint Louis (EUA)/Doação de Curt Valentin · Museu de Arte de Saint Louis (EUA)/Doação de Curt Valentin
    'Cristo e a Pecadora', do pintor alemão Max Beckmann - Museu de Arte de Saint Louis (EUA)/Doação de Curt Valentin · Museu de Arte de Saint Louis (EUA)/Doação de Curt Valentin — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jolley é curadora de uma exposição sobre Maria Madalena a ser realizada na Galeria Nacional, em Londres, em 2027. Ela observa que o jarro é associado à mulher "pecadora" não identificada na Bíblia, que ungiu os pés de Jesus.

    Para ela, as obras de arte que ilustraram Madalena ao longo dos séculos não nos contam muito sobre ela enquanto indivíduo real.

    "Elas contam, pelo menos para mim, muito mais sobre o que as diferentes culturas queriam que as mulheres fossem", segundo Jolley.

    'Naomi Campbell como Maria Madalena', da artista sul-africana Marlene Dumas - Museu Noordbrabants (Holanda)/Coleção de Arte JK/Marlene Dumas · Museu Noordbrabants (Holanda)/Coleção de Arte JK/Marlene Dumas
    'Naomi Campbell como Maria Madalena', da artista sul-africana Marlene Dumas - Museu Noordbrabants (Holanda)/Coleção de Arte JK/Marlene Dumas · Museu Noordbrabants (Holanda)/Coleção de Arte JK/Marlene Dumas — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A pintora maneirista italiana Lavinia Fontana (1552-1614) pinta Madalena no seu vestido vermelho característico. É uma das primeiras ilustrações da santa por uma artista mulher.

    "Você pode procurar uma espécie de olhar feminino, mas não conseguimos detectá-lo", segundo Eclercy.

    Fontana faz referência direta a uma passagem bíblica, na qual Maria confunde Jesus com um jardineiro. Na pintura, ele aparece vestido como um trabalhador italiano tradicional do século 16, usando uma túnica e um chapéu de abas largas.

    Gravura em preto e branco mostra uma figura feminina nua com mãos em oração, cercada por anjos alados ao redor da cabeça e do corpo. Ela está em pé sobre uma formação rochosa com vegetação, com um halo luminoso atrás da cabeça. Ao fundo, há
    Gravura em preto e branco mostra uma figura feminina nua com mãos em oração, cercada por anjos alados ao redor da cabeça e do corpo. Ela está em pé sobre uma formação rochosa com vegetação, com um halo luminoso atrás da cabeça. Ao fundo, há — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Muitas noções históricas e contemporâneas de Maria Madalena a associam a diferentes personagens da Bíblia.

    Elas incluem uma "mulher pecadora" não identificada, que ungiu os pés de Jesus, uma adúltera e Maria de Betânia, parente de duas outras figuras bíblicas, Marta e Lázaro.

    "É o que [a historiadora da arte] Marina Warner chama de 'confusão de Marias'", explica Jolley. "Os artistas não diferenciam as várias Marias, desde que ela desempenhe o papel necessário para que a pintura ou a história faça sentido."

    Duas mulheres sentadas à mesa com toalha vermelha. Mulher à esquerda veste vestido azul e branco, segura espelho na mão direita levantada. Mulher à direita, com xale marrom e branco, estende a mão esquerda sobre a mesa. Objetos como corrent
    Duas mulheres sentadas à mesa com toalha vermelha. Mulher à esquerda veste vestido azul e branco, segura espelho na mão direita levantada. Mulher à direita, com xale marrom e branco, estende a mão esquerda sobre a mesa. Objetos como corrent — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na pintura do francês Simon Vouet (1590-1649), Madalena aparece em uma cena inventada (que não está na Bíblia), em um toucador, recebendo uma reprimenda da sua irmã Marta, por ser muito vaidosa.

    Maria Madalena em estado de compunção é uma metáfora comum na história da arte.

    "Ela se tornou modelo para os penitentes, homens e mulheres", segundo Eclercy.

    Mulher com véu preto cobre parcialmente corpo nu de homem deitado em superfície de mármore. Ela inclina a cabeça para trás com mão no rosto, expressando dor ou tristeza.
    Mulher com véu preto cobre parcialmente corpo nu de homem deitado em superfície de mármore. Ela inclina a cabeça para trás com mão no rosto, expressando dor ou tristeza. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A tradição ocidental, particularmente, passou a associar Madalena cada vez mais ao pecado sexual, o que fica claro em muitas pinturas, como esta do artista italiano Guido Cagnacci (1601-1663), cujos temas de desejo sexual são inevitáveis.

    Não existe, nas escrituras, nenhuma menção direta de qual foi a transgressão da "mulher pecadora" não identificada, mas muitos presumiram que tenha sido de natureza sexual.

    "É muito comum ouvir sua descrição como sendo uma profissional do sexo, principalmente em textos mais antigos", destaca Jolley, "mas não temos nenhuma base real para esta definição nos documentos bíblicos."

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    "Para os artistas, é uma oportunidade de se atrever um pouco em relação a uma imagem sagrada. Eles sabem que podem ilustrá-la impunemente como atraente ou levemente sexualizada, o que não é possível fazer com outros santos."

    Na pintura de Cagnacci, Madalena segura uma caveira, o que é utilizado com frequência na história da arte como lembrete de que a vida é breve e devemos preparar nossas almas para encontrar a Deus.

    A versão da "Madalena penitente" do pintor francês Georges de La Tour (1593-1652) é sensivelmente mais suave.

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    "Gosto de de La Tour por nos oferecer uma espécie de Madalena interior", afirma Jolley.

    "Temos espelhos, velas e outras metáforas de tempo, mortalidade e autorreflexão, sem que o artista precise tornar a pintura apelativa de outras formas."

    Por isso, poderíamos afirmar que suas pinturas rejeitam os retratos tradicionais de mulheres na arte como sendo eróticos ou decorativos.

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    O pintor suíço Arnold Böcklin (1827-1901) retrata uma Madalena dramática, de pé, ao lado do corpo sem vida de Jesus.

    Em vez de seguir os retratos tradicionais de Madalena subjugada ou abertamente sexual, Böcklin cria esta personagem ardente, que se permite expressar todas as suas emoções, lamentando intensamente a morte de Jesus.

    Para Eclercy, "de certa forma, Maria Madalena assume o papel da Virgem Maria, expressando o máximo de luto que alguém pode ter."

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    Também conhecida como Cristo e a Adúltera, esta pintura do alemão Max Beckmann (1884-1950) retrataria a famosa passagem bíblica em que Jesus impede uma multidão furiosa de apedrejar uma mulher não identificada até a morte. Ao longo do tempo, esta história também ficou associada a Maria Madalena.

    Em obras anteriores, Madalena era abertamente sexualizada, o que "nos conta mais sobre o que as pessoas imaginam que poderia ser o pior de uma mulher", segundo Jolley.

    Mas Beckmann oferece uma interpretação mais tolerante desta história.

    A representação de Madalena como a supermodelo Naomi Campbell, pela artista sul-africana Marlene Dumas, aborda diversas ideias ao mesmo tempo.

    Ela não só "fala sobre celebridade e reputação, algo que Maria Madalena enfrentou ao longo do tempo", segundo Jolley. "Ela nos convida a pensar sobre como nós etnizamos a beleza."

    Existem poucas descrições da aparência física de Madalena na Bíblia. Mas, na arte ocidental, a santa é frequentemente retratada como uma mulher jovem e branca.

    Dumas nos oferece uma opção para considerarmos.

    "A obra age como um espelho para o público... um reflexo da sociedade", segundo Jolley. Ela destaca que muitas pessoas sentem que conhecem Madalena, mas compreendem muito pouco sobre ela.

    "As pessoas mantêm uma relação parassocial com Maria Madalena", explica ela.

    "Eles têm dela a sensação que encontram na cultura popular e na arte, que, na verdade, não é baseada no conhecimento da personagem bíblica, nem por qualquer interesse real sobre ela."

    A artista visual espanhola Nieves González consegue manter várias das características de Madalena, como seu cabelo loiro avermelhado, suas roupas vermelhas e a caveira nas mãos. Mas sua obra moderniza a famosa personagem, colocando-a em um casaco estofado alguns números maior.

    Eclercy acredita que González "apresenta uma mulher jovem e extremamente autoconfiante".

    Madalena lança um olhar destemido para o observador. "É uma obra sobre domínio e autonomia", explica Jolley.

    "Você quase tem a sensação de que ela está meio que perguntando: 'O que você quer dizer sobre mim?'"

    A exposição Maria Madalena: Pecado. Oração. Amor está em cartaz no Museu Städel, em Frankfurt (Alemanha), de 17 de setembro de 2026 a 17 de janeiro de 2027.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/santa-ou-pecadora-dez-obras-que-mostram-por-que-maria-madalena-e-uma-das-personagens-mais-polemicas-da-biblia.shtml.

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    Quadro 'O Desafio', da pintora espanhola Nieves González - Nieves González/Coleção particular · Nieves González/Coleção particular — Foto: Folha de S.Paulo

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