Política

    Saiba como Lula mudou de opinião sobre a taxa das blusinhas

    Governo criou imposto para proteger indústria nacional contra “concorrência desleal”; desgaste eleitoral levou Lula a zerá-lo sem compensar as perdas da indústria nacional

    Poder360
    28 de agosto de 2026 às 15:10
    Saiba como Lula mudou de opinião sobre a taxa das blusinhas
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em evento no Planalto; governo zerou em maio o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50 — Foto: Poder360

    Governo criou imposto para proteger indústria nacional contra “concorrência desleal”; desgaste eleitoral levou Lula a zerá-lo sem compensar as perdas da indústria nacional

    O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou de opinião sobre a chamada “ taxa das blusinhas ” . Em 2023, defendia a tributação de produtos importados para proteger a indústria nacional. Em maio de 2026, depois de identificar que a cobrança era impopular e poderia prejudicá-lo nas eleições, zerou o imposto sobre compras internacionais de até US$ 50.

    Lula também mudou a justificativa. Agora, diz que o fim da taxa é uma questão de “justiça ” . Compara os US$ 50 das compras on-line às cotas de quem viaja ao exterior e pode trazer produtos sem pagar Imposto de Importação. O presidente menciona ainda as compras em free shops de aeroportos.

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    Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    O novo argumento de Lula responde ao consumidor que quer comprar produtos mais baratos do exterior. Mas não à indústria nacional, já que os impostos pagos por quem produz e vende no Brasil seguem os mesmos.

    “ Se a gente pergunta para o consumidor final, ele vai dizer que o fim da ‘taxa das blusinhas’ é ótimo, porque é melhor para o bolso . Mas, para quem fabrica, já começa de forma desleal, porque o custo de produção lá na China é muito inferior ao custo que se tem no Brasil ”, disse o advogado tributarista Flávio Júnior.

    Sócio-administrador da F7 Produções, Flávio Júnior organiza a feira Boné Brasil , que reúne fabricantes e vendedores de Serra Negra do Norte (RN), cidade de 7.000 habitantes que é conhecida como a “ Terra dos Bonés ”.

    O polo reúne 50 fábricas e mais de 500 vendedores. Produz cerca de 1 milhão de peças por mês e fatura R$ 192 milhões por ano, segundo Flávio Júnior. Ainda assim, diz ter dificuldade para competir com produtos estrangeiros. O fim da taxa, segundo ele, pode quebrar fábricas e causar desemprego em massa na cidade.

    Tal temor é embasado em dados. Segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgou na 4ª feira (26.ago.2026), o fim da taxa das blusinhas põe em risco 109 mil empregos e R$ 21,8 bilhões em produção nacional em 2026. Leia a íntegra da nota técnica da CNI (PDF – 527 kB).

    O projeto da taxa das blusinhas foi aprovado em 11 de junho de 2024 com ajuda do governo. Era um “jabuti” no meio do PL que estabelecia o Mover (Programa Mobilidade Verde e Inovação). Os poucos votos contrários na Câmara e no Senado foram de congressistas de direita e de centro.

    A cobrança entrou em vigor em agosto de 2024. As compras internacionais de até US$ 50 passaram a pagar 20% de Imposto de Importação. A cobrança federal se somou ao ICMS já incidente sobre as remessas.

    A virada de posição veio nos primeiros meses de 2026. Em 26 de março, pesquisa AtlasIntel mostrou que 62% dos entrevistados avaliavam que a aplicação da taxa das blusinhas foi o “maior erro” do governo Lula.

    O ministro da Secretaria de Comunicação de Lula, Sidônio Palmeira, alertou o presidente de que o tema poderia custar votos nas urnas.

    Lula ouviu o marqueteiro. Em 12 de maio, baixou a medida provisória e zerou o Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. Não houve anúncio de uma política para compensar a indústria e o varejo nacionais pela retirada da proteção tributária.

    O último movimento do governo se deu na 4ª feira (26.ago.2026), quando Lula fechou acordo com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para a instalação, na próxima 3ª feira (1º.set), da comissão mista que analisará a medida provisória que revogou a cobrança.

    Há pressa para aprovar a MP. O prazo termina em 8 de setembro. Se Câmara e Senado não aprovarem o texto até lá, o Imposto de Importação de 20% sobre compras de até US$ 50 voltará a valer. É uma das pautas que o governo quer concluir antes das eleições.

    A mudança de discurso é notória. Em entrevista ao Brasil247 , em 21 de março de 2023, Lula afirmou que crescia no Brasil a importação de produtos que “ não pagam nenhum tributo ”. Disse que “ assim não dá para viver ”.

    País que não recolhe imposto “ não cresce ”, argumentou. O presidente disse querer uma relação “ extraordinária ” com os chineses, mas ressaltou que os produtos importados teriam de ser tributados.

    Em 13 de abril de 2023, Haddad fez defesa similar. Disse haver “ concorrência desleal de empresas estrangeiras com as nacionais que pagam impostos no Brasil ”. Segundo o ministro, era preciso “ garantir a concorrência igual para todo mundo ”.

    A defesa da cobrança continuou dentro do governo. Em 2024, o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, disse que a intenção era fazer “quem produz fora pagar o mesmo que quem produz no Brasil ”.

    Já em abril de 2026, pouco mais de 1 mês antes da revogação, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou que a taxa representava a “defesa do emprego e da renda” dos brasileiros.

    Lula mudou o discurso do governo. A defesa do emprego, da indústria nacional e da igualdade tributária saiu do centro da argumentação. O petista, então, passou a falar no bolso de quem compra.

    No domingo (23.ago), Lula declarou à Record que o fim das taxas é “ para o bem das pessoas que gostam de comprar coisinha pouca por US$ 50 ”. Não disse mais nada sobre o assunto. Também não foi questionado .

    Na 4ª feira (26.ago), ao anunciar o acordo com o Congresso, Lula disse que ficou “ muito feliz ” e que estava “ convencido ” de que os presidentes das 2 Casas aprovarão o fim da taxa. “Porque é uma questão de justiça” , afirmou.

    A expressão já havia sido usada em 18 de agosto de 2026, a menos de 50 dias da eleição. Em vídeo publicado nas redes sociais, Lula disse não entender por que algumas pessoas estão “ incomodadas ” por acharem que o fim da taxa prejudica o comércio.

    Foi quando citou os viajantes e os free shops . O argumento é politicamente conveniente: contrapõe quem consegue viajar ao exterior e gastar até US$ 2.000 em produtos sem impostos nacionais a quem compra produtos baratos pela internet. Mas não responde à questão econômica que o próprio governo levantou ao defender a taxa.

    A estimativa do Ministério da Fazenda é que a medida tenha custo orçamentário de R$ 1,94 bilhão em 2026, R$ 3,54 bilhões em 2027 e R$ 4,24 bilhões em 2028.

    O excesso de impostos já leva empresas brasileiras a transferir parte da produção para o exterior. A Riachuelo aportou US$ 5 milhões (R$ 25,6 milhões) neste ano com a paraguaia Texcin. O Grupo Dass, fabricante para Nike e Adidas, investiu US$ 40 milhões (R$ 205,5 milhões) na Dasstex, no Paraguai. As duas levaram empregos brasileiros para o país vizinho.

    A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) classificou a revogação como “ extremamente equivocada ”.

    A CNI chama a medida de “ vantagem concedida a indústrias estrangeiras em detrimento das nacionais ”. A Abvtex (Associação Brasileira do Varejo Têxtil) descreve a decisão como “ ataque direto à indústria e ao varejo nacional ”.

    O setor produtivo, portanto, continua apresentando em 2026 a mesma preocupação que o governo dizia ter quando apoiou a taxa: a diferença de condições entre quem vende produtos estrangeiros diretamente ao consumidor brasileiro e quem produz e emprega no país.

    Lula mudou de posição. O governo ainda não demonstrou que o problema usado para justificar a posição anterior tenha acabado.

    Vídeo: Poder360 · Fonte: Poder360

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/saiba-como-lula-mudou-de-opiniao-sobre-a-taxa-das-blusinhas/.

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