Saiba como ajudar alguém que enfrenta um momento difícil sem dar conselhos
Tentar resolver o problema pelo outro nem sempre é o tipo de suporte que a pessoa precisa no momento

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Quando alguém desabafa, o impulso de quem ouve costuma ser tentar resolver o problema. Dar uma sugestão, apontar um caminho ou dizer o que faria na mesma situação parece uma forma de ajudar. Mas, muitas vezes, ser ouvido com atenção e sem julgamentos é mais útil do que receber conselhos.

Para a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), o ímpeto de oferecer uma solução é natural. "A gente quer cuidar, quer fazer com que a pessoa não sofra."
O problema, segundo ela, é que receber conselhos logo após desabafar —ou antes de ser ouvida— pode deixar a pessoa com a sensação de que não é compreendida ou de que o que ela sente não importa.
Existem formas de oferecer apoio sem tentar resolver o problema pelo outro. Ouvir com atenção, validar o que a pessoa está vivendo e entender suas necessidades naquele momento são algumas delas.

Veja, a seguir, algumas dicas de psicólogas.
Ao evitar conselhos imediatos ou soluções prontas, quem escuta transmite segurança emocional e valida a dor do outro, o que pode aliviar a sensação de solidão e favorecer a recuperação, afirma a psicóloga Priscila Galhardo, do Grupo de Pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento Moral do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).
Antes de oferecer um conselho, o mais importante é estar presente e ouvir de verdade. Para a psicóloga Jhoanne Hansen, cofundadora da Desvirtua, empresa de psicoeducação em saúde mental , uma escuta atenta exige interesse genuíno pelo outro e cuidado para não transformar a conversa em um relato sobre as próprias experiências.

"Muitas vezes, quem está passando por um problema não quer um conselho, quer ser ouvido. Ser ouvido é muito mais importante para que a pessoa se escute", afirma.
Segundo Galhardo, a escuta cria um espaço para que a pessoa organize o próprio sofrimento ou problema. "A escuta é o lugar em que esse sofrimento encontra uma fala, um sentido, um movimento", afirma.
Hansen lembra que a presença não depende necessariamente de um encontro presencial. Uma ligação, uma chamada de vídeo, um áudio ou uma mensagem também podem demonstrar cuidado quando estar junto fisicamente não é possível. "O importante é mostrar que você está ali para a pessoa."
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Outra forma de oferecer apoio é convidar a pessoa para atividades que a façam sair, ainda que por um momento, do foco do sofrimento. Hansen afirma que isso não significa ignorar o problema, mas criar oportunidades para que ele deixe de ocupar toda a atenção.
Se alguém está sofrendo após um divórcio, por exemplo, sair de casa pode ajudar. Um passeio, uma ida ao museu, a prática de um esporte coletivo ou até um café. "Isso tira o foco da dor."
Para a psicóloga, convites como esses permitem que a pessoa experimente outros momentos que ajudam a lembrar que a vida não se resume ao problema que ela enfrenta.
Também é importante evitar críticas e julgamentos durante a conversa. Uma escuta acolhedora faz com que a pessoa se sinta segura para compartilhar suas dificuldades sem medo de ser censurada ou desqualificada.
Segundo Hansen, quando alguém encontra esse espaço de acolhimento, tende a procurar apoio novamente nos momentos de maior vulnerabilidade. A sensação de segurança fortalece a confiança na relação e facilita que a pessoa peça ajuda quando precisar.
Em vez de perguntar genericamente "tem algo que eu possa fazer?", é mais útil ser específico: "O que você gostaria que eu fizesse?" ou "O que faria bem para você agora?", diz Pereira Franco. Segundo ela, essa abordagem ajuda a transformar um desejo amplo de aliviar a dor em um pedido concreto, que pode ser atendido.
Hansen acrescenta que também vale perguntar se a pessoa quer ouvir uma opinião ou apenas desabafar. Dizer "Você quer pensar em algo junto comigo ou só quer ser escutado?", por exemplo, é uma forma de entender se há abertura para sugestões.
Para Priscila Galhardo, antes de tentar resolver a situação, é importante oferecer segurança emocional e validar o que a pessoa está vivendo. "Eu posso imaginar esse momento difícil que você está passando. Fique à vontade, eu estou aqui para te escutar", sugere.
Reconhecer a dificuldade do outro não significa tentar encontrar uma solução imediata, mas mostrar que aquela experiência está sendo levada a sério. Galhardo diz que a validação do sofrimento é uma forma de oferecer segurança emocional e mostrar à pessoa que ela não está sozinha diante daquela situação.
Ela sugere começar com frases que reconheçam a dificuldade do momento, como "Eu posso imaginar esse momento difícil que você está passando. Fique à vontade, eu estou aqui para te escutar".
Pereira Franco também ressalta que a validação emocional aproxima as pessoas porque reconhece a dor sem minimizá-la. Em vez de frases como "você precisa ser forte", ela recomenda reconhecer o sofrimento do outro. "Olha, eu estou vendo como isso está difícil para você. Gostaria de poder fazer alguma coisa que amenizasse a sua dor."
As psicólogas também recomendam evitar comparações com outras histórias ou transformar a conversa em um relato pessoal. "A pessoa não está querendo ouvir a sua história. Ela mal está dando conta da própria", afirma Pereira Franco.
Sentir tristeza, desânimo e até optar um período de isolamento faz parte da experiência humana. Segundo Hansen, o alerta surge quando esses sentimentos se tornam persistentes e passam a comprometer a rotina.
Se a pessoa deixa de sair de casa por muito tempo, abandona o convívio social, para de cuidar de si ou passa a ter prejuízos no trabalho, nas finanças ou nos relacionamentos, talvez o momento seja de buscar avaliação profissional.
Pereira Franco lembra que mudanças após uma perda é algo natural. O problema é quando a pessoa não consegue sair daquele estado de sofrimento ou permanece paralisada pela dor.
Nesses casos, amigos e familiares podem sugerir ajuda especializada de forma acolhedora, sem julgamentos. Ela recomenda dizer algo como: "Eu estou vendo que está muito difícil para você. Há profissionais que podem oferecer uma escuta que eu não consigo dar."
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/08/saiba-como-ajudar-alguem-que-enfrenta-um-momento-dificil-sem-dar-conselhos.shtml.

Catarina Pignato/Folhapress · Catarina Pignato/Folhapress — Foto: UOL
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