Sabotagens e drones elevam temor de escalada russa na Europa
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Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Há meses, os serviços de inteligência europeus vinham repetindo, quase em coro, que a Rússia testava as fronteiras do continente com sabotagens, drones e ciberataques. Era uma hipótese amplamente compartilhada, mas uma hipótese. Na terça-feira (1º), o governo alemão tirou o assunto desse terreno: acusou nominalmente Moscou de ter enviado um drone carregado de explosivos contra um avião cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig, na madrugada de 4 para 5 de agosto, sem que o explosivo chegasse a detonar. A reação em Berlim e nas demais capitais, mesmo entre quem já esperava a confirmação, foi de choque. Uma coisa é temer algo em abstrato. Outra é vê-lo, de repente, com nome, data e responsável apontados por um governo do G7.
O caso alemão é o capítulo mais recente de uma escalada que os números já vinham desenhando havia meses. Um levantamento do International Centre for Counter-Terrorism (ICCT), em parceria com o think tank eslovaco Globsec, contabilizou 151 casos de sabotagem, incêndios criminosos e outras ações atribuídas à Rússia na Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro deste ano. Quase metade aconteceu só no primeiro semestre de 2024. A Polônia lidera a lista, com 31 casos, seguida por França, Lituânia, Alemanha, Reino Unido e Estônia. Drones à parte, o britânico International Institute for Strategic Studies soma 144 incidentes desse tipo específico na Europa nos últimos dois anos, todos ligados a Moscou.

Este espaço já registrou, em julho , o mesmo alerta proveniente de Vilnius e Varsóvia. A diferença agora é que ele veio de Berlim, sobre solo alemão, da boca do próprio governo federal. É essa mudança de endereço que consolida, nas capitais europeias, um temor específico: não o de um confronto direto com a Otan, considerado improvável no curto prazo, mas o de uma escalada por essa porta lateral, feita de provocações pequenas o bastante para ficarem impunes, até que uma delas force uma resposta que ninguém planejou dar. Para o analista Maksym Beznosiuk, do Carnegie Endowment, essa lógica só deve se aprofundar. O desgaste econômico e militar da Rússia no quarto ano de guerra, escreveu ele em julho, não torna o Kremlin mais cauteloso: "essas pressões devem aprofundar a dependência de Moscou de uma guerra híbrida de baixo custo", sobretudo ao longo do flanco leste da Otan.
A pergunta prática é o que a Europa consegue fazer a respeito. A resposta mais lúcida da semana vem de um relatório do think tank European Council on Foreign Relations, assinado pela pesquisadora Ulrike Franke, do escritório parisiense da instituição. Ela expõe uma aritmética desconfortável: um drone como o usado em Leipzig custa, em média, dez mil euros; derrubá-lo com um caça e um míssil guiado pode custar até um milhão. Na incursão de cerca de 20 drones que levou a Polônia a invocar o Artigo 4 da Otan em setembro do ano passado, a Rússia gastou menos de 250 mil euros. A resposta ocidental, entre voos de caça e mísseis disparados, consumiu milhões.
O problema, escreve Franke, não é falta de iniciativa. É excesso desorganizado dela: a Otan, a Comissão Europeia e os governos nacionais avançam em paralelo, por vezes duplicando esforços, sem um sistema comum que cruze os dados de detecção ao longo de toda a fronteira leste. A Polônia, mais exposta que qualquer outro país à fronteira direta com a Rússia e Belarus, é também a mais vocal sobre o risco e a mais rápida a se armar contra ele: lançou em janeiro um sistema antidrone orçado em 3,8 bilhões de euros, o maior da Europa, em parceria com a norueguesa Kongsberg, fabricante de sistemas de defesa. Países bálticos e a Finlândia avançam mais devagar; Romênia, Bulgária e Eslováquia, ainda mais devagar, apesar de a Romênia já somar dezenas de incursões neste ano. Mesmo assim, pondera Franke, a solução não é só técnica: "nenhum reforço das defesas europeias substitui esforços diplomáticos, políticos e militares" para encerrar a guerra e as ações híbridas que a acompanham.

Foi nesse clima que os chanceleres da União Europeia se reuniram nesta quarta (2) em Wicklow, na Irlanda, em formato informal conhecido como Gymnich. A chefe de política externa do bloco, Kaja Kallas, disse que o episódio de Leipzig tem "todas as características de terrorismo patrocinado por um Estado" e que o tema entra na discussão sobre um novo pacote de sanções, que pode atingir mais de 1.600 alvos, entre empresas e pessoas físicas.
Voltou à mesa também a proposta de usar os cerca de 193 bilhões de euros em ativos russos congelados na câmara de compensação belga Euroclear. Dessa vez o pedido é liderado por Suécia, Países Baixos, Polônia e Espanha: antes, a resistência da própria Bélgica bastava, sozinha, para travar a ideia. Reuniões informais não produzem decisões — sanções ainda exigem unanimidade no Conselho Europeu —, mas o tom da conversa, como o resto da semana, mudou desde Leipzig.
Enquanto os chanceleres discutiam sanções, a escalada seguia em curso em tempo real. Na Alemanha, duas instalações de energia sofreram um segundo ato de sabotagem em 24 horas, em Bergheim, no oeste, e em Turnow-Preilack, no leste, a dias da eleição na Saxônia-Anhalt.

Na Dinamarca, o serviço de contrainteligência (PET) alertou que a Rússia recruta 'dinamarqueses comuns' para mapear acessos a instalações da indústria de defesa. Sanções levam meses para sair do papel. Os incidentes, como mostrou esta semana, não esperam tanto.
Guerra híbrida não é só um incômodo na internet. Guerra híbrida significa esquadrões de assassinato. Significa incêndios criminosos. Significa explodir trens em movimento, como na Polônia. Significa violações do espaço aéreo com drones e mísseis de cruzeiro
em Wicklow, Irlanda, nesta terça-feira (1º), durante a reunião informal de chanceleres da União Europeia

A guerra entre Estados Unidos e Irã, que voltou a esquentar nos últimos dias, acentua um nervosismo que já vinha se acumulando nos mercados de títulos públicos europeus nas últimas semanas. O gás natural negociado no mercado de referência holandês (TTF) rompeu a barreira de 75 euros por megawatt-hora nesta quarta (2), o nível mais alto desde o início de 2023, antes de recuar um pouco. Os estoques europeus seguem abaixo da meta para o inverno, e a Alemanha, maior armazenadora do continente, corre risco de não bater a própria meta.
O rendimento do papel alemão de dez anos (Bund) chegou a 3,4% nesta quarta, o maior nível desde 2011, reflexo direto da pressão que a energia mais cara impõe sobre os bancos centrais.
Por trás de tudo está o impasse no Golfo. Os Estados Unidos retomaram os ataques ao Irã na terça, e as duas partes disputam o controle do Estreito de Hormuz, rota por onde passa parte do gás natural liquefeito (GNL) que chega à Europa. Sem sinal de trégua, as energéticas hesitam em comprar gás caro para reforçar os estoques, o que pode custar caro no meio do inverno.

O que monitorar até a próxima quarta-feira (9)
"Elizabeth II: In Private. In Public. The Inside Story.", de Robert Hardman (Macmillan, 448 páginas) - lançado em abril, no ano em que a rainha completaria 100 anos, é a quarta biografia de Hardman sobre Elizabeth 2ª, com acesso direto a familiares, assessores e até Donald Trump, último chefe de Estado recebido oficialmente por ela. Sem edição em português até o momento —só em inglês.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/sabotagens-e-drones-elevam-temor-de-escalada-russa-na-europa.shtml.

Investigador procura material suspeito em Leipzig ao lado de um robô especializado em recolher bombas - Hendrik Schmidt - 5.ago.26/AFP · Hendrik Schmidt - 5.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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