Rússia mobiliza santo do século 14 para a guerra na Ucrânia
Igreja Ortodoxa reforça apoio ao Kremlin e envia ossos da mão de Dmitri Donskoi para a linha de frente

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
A Igreja Ortodoxa da Rússia renovou seu compromisso de fé em Vladimir Putin nesta quinta-feira (10) ao anunciar que mobilizou um de seus mais populares santos para a Guerra da Ucrânia .

Segundo o Patriarcado de Moscou, um fragmento ósseo de Dmitri Donskoi (1350-1389) foi enviado para a frente de batalha na região de Donetsk, no leste ocupado do vizinho. O pedaço é, diz nota do órgão, "da mesma mão direita em que ele empunhou a espada nos campos de Kulikovo".
A referência não é casual. Na Batalha de Kulikovo, em 1380, o grão-príncipe de Moscou Donskoi enfrentou pela primeira vez e derrotou a Horda Dourada, força mongol que controlou territórios da Ásia Central até o rio Danúbio de 1240 a 1502.
Entre seus domínios estavam as terras do sul ucraniano e a Crimeia, depois absorvidas pelo Império Russo. Reverenciado extraoficialmente como um santo guerreiro, o nobre do século 14 deu nome até a unidade militar da ateia União Soviética na Segunda Guerra Mundial.

Os soviéticos batizaram o maior e mais poderoso submarino nuclear da história com seu nome. Depois da aposentadoria do modelo, em 2023, o nome passará a uma embarcação da nova geração de submersíveis de ataque balístico.
Em 1988, já nos estertores do império comunista, a Igreja Ortodoxa declarou Donskoi santo de fato. Seus restos mortais, contudo, permaneceram desaparecidos até este ano, quando uma urna funerária foi encontrada durante a renovação da Catedral do Arcanjo, dentro do Kremlin.
Após testes forenses, a igreja disse que a ossada era do santo. Putin, que mantém estreita ligação com o patriarca Cirilo, visitou a relíquia e rezou à sua frente no fim de agosto.

Conhecido por usar e reescrever a história do país para justificar suas ações, o presidente disse que "a descoberta maravilhosa reforçava as fundações da Rússia". No fim de semana passado, o sarcófago foi mostrado em procissão em Moscou.
A associação entre Putin e a igreja remonta à sua chegada ao poder, em 1999. Mesmo sob os soviéticos, quando foi perseguida, a instituição buscava acomodações pontuais com o poder. Agora, está no centro da busca do presidente por uma narrativa que una o passado e o presente russos.
O porta-voz do Patriarcado, Vladimir Legoida, sustenta que a relação é de duas mãos e que a igreja é independente. Ao mesmo tempo, ele considera a religião ortodoxa "a cola do tecido social russo" , como já definiu à reportagem.

A relíquia da mão do santo, colocada em uma urna com vidro reforçado, será levada a unidades em toda a frente de batalha, segundo a igreja. "Ele foi um comandante sagrado e irá reforçar o espírito de nossos soldados", disse a nota.
Donskoi é visto entre soldados russos na frente de batalha como um padroeiro. Quando visitou a zona de combates de Donetsk em 2024, a Folha foi abrigada por uma unidade com seu nome. Em uma de suas bases, numa casa ocupada perto do monastério de Nikolske, mapas militares dividiam espaço na parede com imagens sacras e do santo.
Se para baixo todo santo ajuda, como diz o ditado brasileiro, a tarefa de Donskoi não é tão simples em Donetsk. Lá, as forças de Putin estão avançando lentamente , buscando conquistar os 15% restantes da região ainda nas mãos de Kiev.

Relatos de blogueiros militares falam em baixas brutais, principalmente do lado russo, na casa de até mil soldados por dia. Não há confirmação disso, mas o avanço foi retomado após uma pausa no começo deste ano.
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
Nesta quinta, ao menos 9 pessoas morreram em ataques russos em diversas regiões da Ucrânia, enquanto bombardeios com drones mataram 5 na Rússia.
Enquanto busca mais mísseis de defesa antiaérea, cuja escassez elevou a mortalidade do conflito, o presidente Volodimir Zelenski celebrou um ataque a mais de 3.000 km de distância de suas fronteiras contra unidades de gás russas na Sibéria.
Agosto manteve o alto nível de mortes entre civis, com 19,5 vítimas por dia, 78% delas na Ucrânia. Em janeiro, eram 7,1, segundo o Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, no acrônimo em inglês) .
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/russia-mobiliza-santo-do-seculo-14-para-a-guerra-na-ucrania.shtml.

Putin visita relíquias de Dmitri Donskou na Catedral do Arcanjo, que fica no Kremlin, no fim de agosto - Viacheslav Prokofiev - 20.ago.26/Sputnik/Reuters · Viacheslav Prokofiev - 20.ago.26/Sputnik/Reuters — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

