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    Retrospectiva de Ismael Nery desmonta rótulos sobre artista fora de seu tempo

    Retrospectiva reúne 230 trabalhos na Pinacoteca de São Paulo

    UOL
    4 de setembro de 2026 às 08:00
    Retrospectiva de Ismael Nery desmonta rótulos sobre artista fora de seu tempo
    Pintura cubista mostra duas figuras humanas estilizadas, uma mulher à esquerda com vestido rosa e um homem à direita com camisa azul e verde. Fundo abstrato com formas geométricas e nuvens estilizadas. A mulher segura um objeto com desenho — Foto: UOL

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    "É tudo armadilha. Nery é uma armadilha", diz o curador Yuri Quevedo sobre a produção de Ismael Nery (1900–1934). Seja cubista, surrealista, queer ou modernista, cada tentativa de enquadrar o artista parece levar a um novo desvio em sua obra. É esse movimento que a Pinacoteca de São Paulo coloca em perspectiva a partir deste sábado (5) em "Ismael Nery: Armadilha Moderna", uma das maiores retrospectivas do artista realizadas nos últimos anos, com 230 trabalhos.

    Obra "Dois irmãos", 1927, tem Ismael e a esposa, Adalgisa, em formas cubistas - Isabella Matheus/Pinacoteca · Isabella Matheus/Pinacoteca
    Obra "Dois irmãos", 1927, tem Ismael e a esposa, Adalgisa, em formas cubistas - Isabella Matheus/Pinacoteca · Isabella Matheus/Pinacoteca — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Formado na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro , o artista foi funcionário público e colaborou com o arquiteto Josino de Souza Camargo, ligado ao movimento neocolonial. A corrente buscava formular uma arquitetura brasileira a partir da arquitetura colonial. "Essa é talvez a primeira armadilha da exposição", diz Quevedo.

    Nery costuma ser apresentado como um modernista pouco interessado nas questões nacionais, em contraste com nomes como Tarsila do Amaral , Di Cavalcanti e Cândido Portinari . Mas o fato de ter trabalhado com arquitetura neocolonial já indica uma relação com o debate sobre o que deveria ser uma arte ou arquitetura brasileiras.

    Além disso, Nery também produziria aquilo que o curador chama de uma "crônica da cidade". Em suas aquarelas, aparecem personagens, edifícios, carnaval, artistas e tipos sociais, mas muitas vezes reduzidos a figuras quase sem identidade individual.

    Veja obras da esposição
    Veja obras da esposição — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A cidade também aparece atravessada pela tensão entre tradição e modernidade. Em um autorretrato, Paris e Rio de Janeiro são representados quase como duas entidades em confronto. Nery, porém, não se limita a escolher entre elas. O artista moderno, segundo Quevedo, parece estar diante de um país que ainda tenta definir sua própria modernidade.

    Ainda no campo das armadilhas, a próxima estaria no cubismo. Nery é frequentemente descrito como cubista por conta da geometrização de suas figuras, mas Quevedo questiona a aproximação. No cubismo parisiense de Pablo Picasso , Georges Braque e Juan Gris , a decomposição da figura está associada à multiplicação dos pontos de vista e ao estilhaçamento da realidade. Em Nery, o procedimento seria outro.

    Seus corpos são fragmentados, mas não necessariamente para mostrar diferentes ângulos de um mesmo objeto. Eles parecem ser montados por partes: pescoço, tronco, cabeça, mãos. O corpo se torna quase uma estrutura composta de componentes, uma ideia que Quevedo relaciona à formação de Nery em artes decorativas, ao desenho aplicado e até à lógica da fundição.

    Ismael Nery
    Ismael Nery — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A fragmentação ganha ainda uma dimensão subjetiva. Em alguns retratos, o próprio Nery aparece com características femininas, misturando identidades e gêneros. Para Quevedo, essa operação não deve ser automaticamente traduzida por categorias contemporâneas, mas tampouco precisa ser descartada. A leitura queer da obra, diz ele, é bem-vinda, desde que seja feita levando em conta o vocabulário do próprio artista.

    "Isso não fazia parte do vocabulário dele. O que fazia era essa ideia de imagem e semelhança de Deus", afirma.

    É aí que o catolicismo de Nery ganha importância. O artista era profundamente religioso e colaborava com revistas modernas de orientação católica, como "A Ordem" e "Festa".

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Essa relação com a fé desemboca no essencialismo, uma espécie de doutrina formulada por Nery a partir da tentativa de alcançar aquilo que chamava de homem essencial. Segundo Quevedo, o artista entendia que o tempo e o espaço corrompiam o corpo e sua identidade. Para chegar à forma plena, à imagem e semelhança de Deus, seria necessário abstraí-lo dessas condições.

    A ideia encontra uma tradução formal na própria obra. Corpos inicialmente representados com massa, pele e temperatura vão perdendo volume até se transformarem em linhas e silhuetas. A pintura se aproxima do desenho; a representação dá lugar ao símbolo.

    Quanto menos particularizado o corpo, mais próximo estaria dessa essência. O gênero também desaparece, assim como as marcas individuais e, no limite, a própria identidade. "Quanto mais símbolo você vira, mais pleno, menos afetado pelo tempo e pelo espaço você é", diz o curador.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Essa operação ajuda a entender a relação de Nery com o surrealismo .

    O artista esteve em Paris e teve contato com nomes ligados à vanguarda, entre eles Marc Chagall e Max Ernst . Suas imagens fantásticas, figuras híbridas e cenas oníricas contribuíram para a associação com o surrealismo. Mas, para Quevedo, a semelhança termina aí.

    No surrealismo europeu, diz ele, o sonho funciona como método de criação e a obra procura desestruturar a consciência do espectador. Em Nery, não haveria automatismo nem uma tentativa de lançar o observador ao inconsciente. Ao contrário: suas imagens seriam "projetuais". Elas apresentam uma ideia, uma espécie de demonstração visual do que aconteceria caso fosse possível superar as limitações do tempo e do espaço.

    Por isso, a imagem da armadilha, presente no título da exposição, ganha um sentido mais amplo. O nome parte de uma passagem de André Breton sobre Salvador Dalí , em que a obra surrealista é pensada como uma armadilha para o espectador. Nery, segundo Quevedo, subverte essa lógica: ele também atrai o observador, mas, em vez de conduzi-lo a uma desestruturação, apresenta uma construção utópica.

    Nery morreu em 1934 e permaneceu praticamente ausente da cena artística até ser recuperado décadas depois. Nos anos 1960, o crítico Antônio Bento ajudou a reintroduzi-lo no debate, apresentando-o como um artista "fora do tempo". Mais tarde, outras leituras reforçariam a ideia de um "gênio incompreendido", criador cuja obra só poderia ser plenamente compreendida por gerações posteriores.

    Para Quevedo, esse processo contribuiu para a construção da figura de Nery como artista maldito, isolado e místico. Parte dessa narrativa também foi alimentada pelo poeta Murilo Mendes, amigo próximo do artista, que recolhia obras que Nery descartava e, após sua morte, publicou textos sobre sua vida.

    A retrospectiva prefere não substituir esse mito por outro. Essa postura se torna relevante diante das lacunas documentais que cercam a produção de Nery, já que títulos e datas de muitas obras só foram atribuídos posteriormente —quadro agravado pelo pedido que Nery teria feito, no leito de morte, a Murilo Mendes: que estudasse o Evangelho de São João e destruísse sua obra.

    O desejo do artista, somado à dificuldade de acesso a algumas coleções, faz da retrospectiva uma oportunidade de conhecer uma produção que, durante décadas, permaneceu dispersa e foi conhecida apenas em fragmentos.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/retrospectiva-de-ismael-nery-desmonta-rotulos-sobre-artista-fora-de-seu-tempo.shtml.

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    Obra "Dois irmãos", 1927, tem Ismael e a esposa, Adalgisa, em formas cubistas - Isabella Matheus/Pinacoteca · Isabella Matheus/Pinacoteca — Foto: UOL

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