Brasil

    Renan Santos repete Enéas com ideia de bomba atômica

    Candidato do Missão retoma posição de presidenciável do Prona, que fazia campanha na década de 1990

    UOL
    27 de agosto de 2026 às 08:00
    Renan Santos repete Enéas com ideia de bomba atômica
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    Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha

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    O presidenciável Renan Santos, do Missão, discursa no primeiro ato de campanha, no largo São Francisco, em São Paulo - Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress · Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress
    O presidenciável Renan Santos, do Missão, discursa no primeiro ato de campanha, no largo São Francisco, em São Paulo - Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress · Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A ideia de construir uma bomba nuclear no Brasil circulou durante a ditadura e alimentou um programa sigiloso. Em 1986, já no governo Sarney, a repórter Elvira Lobato revelou, na Folha , que a Aeronáutica havia construído na serra do Cachimbo, no Pará, um poço de 320 metros cujas características eram compatíveis com testes nucleares subterrâneos.

    Anos depois, a bomba ganhou um defensor eleitoral. O pitoresco Enéas Carneiro , médico e líder do Prona, que disputou a Presidência em 1989, 1994 e 1998, defendeu abertamente que o Brasil construísse o artefato. "A bomba atômica é fundamental. Não para jogar em ninguém, mas para sermos respeitados", dizia.

    Enéas morreu em 2007, mas a ideia reaparece agora através de um novo candidato, Renan Santos, do Missão . Ele já havia se declarado favorável ao desenvolvimento da bomba e à saída do Brasil dos tratados que impedem essa decisão. Seria, em suas palavras, um "processo inevitável" de garantia da soberania. Nesta quarta (26), ele reafirmou a ideia em entrevista à Globo.

    Renan Santos e o partido Missão
    Renan Santos e o partido Missão — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Kim Kataguiri , do mesmo partido da direita liberal, já havia, em outubro de 2025, apresentado PEC para permitir ao Brasil produzir armas nucleares a título de dissuasão e também defesa da soberania. Desde 1988, o artigo 21 da Constituição determina que "toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos". A PEC de Kataguiri acabaria justamente com essa restrição constitucional.

    Enéas falava na esteira do Brasil Grande dos militares. Renan e Kataguiri falam em um mundo no qual os EUA, sob Trump, intervêm unilateralmente, sabotam a ordem liberal e redefinem a disputa global nas bases de uma partilha entre seu país e outras duas superpotências nucleares –a China de Xi Jinping e a Rússia de Putin.

    Neste mundo, o Brasil já não é aquele pobre país periférico subdesenvolvido: transformou-se numa economia considerável, com força ambiental, produção de alimentos e reservas naturais estratégicas. O candidato tem acenado com isso. Aliás, o presidente Lula também vem falando em investir mais na defesa nacional. Certamente a bomba não é aventada apenas pela direita.

    Enéas Carneiro
    Enéas Carneiro — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Armas nucleares são instrumentos reais de dissuasão. A invasão da Ucrânia reforçou o argumento de que países sem capacidade nuclear são mais vulneráveis diante de potências que a possuem. Casos como Coreia do Norte, Índia, Paquistão e Israel não deixam de demonstrar o peso geopolítico do poderio nuclear.

    A ideia é insensata, perigosa e enfrenta argumentos em contrário. O Brasil não tem potência hostil em suas fronteiras e exerce papel relevante numa região que, pelo Tratado de Tlatelolco, abriu mão desse tipo de armamento. O país possui diplomacia respeitada e é uma força em prol do multilateralismo e do diálogo.

    A tentativa de quebrar as atuais regras provocaria um terremoto. Além da Constituição, seria preciso rever Tlatelolco e o Tratado de Não Proliferação Nuclear . As reações internacionais, a começar pela norte-americana, seriam virulentas.

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    Enéas dizia que o Brasil precisava da bomba para ser respeitado, mas era visto como uma caricatura. Seus herdeiros parecem mais equipados para disputar posições políticas. O tema poderá crescer no debate nacional.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcosaugustogoncalves/2026/08/renan-santos-repete-eneas-com-ideia-de-bomba-atomica.shtml.

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    O presidenciável Renan Santos, do Missão, discursa no primeiro ato de campanha, no largo São Francisco, em São Paulo - Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress · Allison Sales - 16.ago.26/Folhapress — Foto: UOL

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