Região onde passageiro foi morto em BRT, na zona sudoeste do RJ, vira líder em mortes violentas no estado
Polícias dizem monitorar e combater grupos criminosos, além de investigar alianças e disputas

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O gerente de farmácia Flávio de Abreu Lira, 53, morreu baleado num ônibus do BRT na manhã desta quarta-feira (30), em Jacarepaguá, na zona sudoeste do Rio, enquanto a Polícia Militar fazia uma operação na comunidade Dois Irmãos.

O caso ocorreu na área que passou a liderar, em 2026 em números absolutos, o indicador de mortes violentas e mortes causadas pela polícia em todo o estado fluminense.
Segundo a polícia, a alta é consequência da disputa entre grupos criminosos —o CV ( Comando Vermelho ) se expande, entrando em confronto com milícias e com o TCP (Terceiro Comando Puro). No caso do BRT, não se sabe de onde partiu o disparo nem se ele tem ligação com a ação policial. A Delegacia de Homicídios investiga a ocorrência.
De janeiro a agosto, a área do 18º BPM (Batalhão de Polícia Militar), que abrange bairros como Jacarepaguá, Taquara, Praça Seca e Rio das Pedras, registrou 177 mortes violentas, contra 112 no mesmo período de 2025, alta de 58%, segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública).

É o maior aumento do estado. No restante do Rio, o indicador caiu 7,4%.
A região, que ocupava o sétimo lugar no ranking de letalidade violenta em 2025, assumiu a primeira posição, à frente das Aisps (Áreas Integradas de Segurança Pública) 15, em Duque de Caxias, com 168 mortes, e 41, Irajá, com 145. Não há dados disponíveis que levem em consideração no cálculo a população que vive em cada área.
O indicador soma homicídio doloso (com intenção de matar), morte por intervenção de agente do Estado, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.

A alta foi puxada pelos homicídios, que passaram de 64 para 108 (+69%), enquanto no restante do estado caíram 7,7%. Com isso, a área saltou do nono para o terceiro lugar em homicídios no Rio.
A polícia também mata mais ali, na contramão do estado. As mortes por intervenção de agente do Estado subiram de 47 para 64 (+36%), o maior número entre as Aisps; no restante do Rio, caíram 6,2%.
A PM disse que a Subsecretaria de Inteligência monitora os grupos criminosos responsáveis pelos confrontos armados na região para subsidiar estratégias conjuntas para prender integrantes dessas quadrilhas.
A Polícia Civil disse manter "investigações contínuas sobre a atuação de grupos criminosos e possíveis alianças entre organizações, incluindo disputas territoriais, fornecimento de armas e apoio logístico".
"O trabalho busca alcançar toda a cadeia criminosa, identificando executores, articuladores, lideranças e demais integrantes das estruturas responsáveis pelas atividades criminosas", afirmou. A corporação disse também que "não há necessidade de reforço do efetivo".
Segundo a PM, desde 2023, quando os confrontos entre grupos criminosos se intensificaram, foram feitas mais de 5.700 prisões e mais de 320 apreensões de adolescentes na área do 18º BPM.
A corporação também afirmou que mantém duas companhias destacadas em Jacarepaguá, uma na Praça Seca e outra nas imediações da rua Tirol, perto da Freguesia, para coibir a circulação de criminosos vindos da Gardênia Azul e da Cidade de Deus.
Desde o início de setembro, segundo a nota, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) mantém uma base avançada dentro da Muzema, numa área de mata entre a comunidade e Rio das Pedras, perto do corredor do Itanhangá, para conter confrontos entre grupos rivais.
A região é disputada há anos por milícias e pelo CV , acirramento que se intensificou na pandemia. Segundo o Geni (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos), da UFF (Universidade Federal Fluminense), a facção passou a se expandir pela zona oeste nos últimos anos e conquistou território na Grande Jacarepaguá.
Para a socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Geni, a escalada tem relação direta com o avanço da facção. "O aumento de operações e da letalidade não é surpreendente."
Grillo afirma que a atuação policial não se distribui de forma igual entre os grupos armados. "Além disso, é importante notar que nossas pesquisas apontam, há muito tempo, que as regiões controladas pelo CV são mais submetidas a operações do que as de milícia. Há um direcionamento."
Policiais responsáveis por operações afirmaram à reportagem que as planejam conforme a mancha criminal.
A disputa tem se refletido em episódios de violência nas últimas semanas. Na noite de 29 de agosto, tiroteios em Jacarepaguá deixaram quatro mortos e um ferido, e 14 ônibus foram usados como barricadas na Muzema, em Curicica, na Gardênia Azul e na Taquara.
Em 17 de setembro, o Bope fez operação nas comunidades da Chacrinha e do Jordão, e criminosos incendiaram barricadas.
O gerente Flávio Lira estava em pé no ônibus, que passava pelo corredor Transolímpico, perto da estação Ventura, quando foi atingido na barriga, segundo testemunhas. O motorista seguiu até a estação Asa Branca, onde bombeiros tentaram socorrê-lo por volta das 6h. Ele morreu no local.
A operação foi coordenada pelo 18º BPM. De acordo com resumo de inteligência da PM, obtido pela Folha , os agentes entraram na área para localizar suspeitos de matar um homem na comunidade Asa Branca na terça-feira (29).
Segundo o documento, os autores seriam da comunidade Dois Irmãos, área de milícia, e tentariam tomar nesta quarta a Asa Branca, hoje dominada pelo CV.
Na versão da PM, os policiais foram recebidos a tiros por homens armados em um carro e revidaram. A corporação afirma que a reação foi feita "de forma técnica, moderada e proporcional".
Um suspeito foi preso com quatro fuzis, sete rádios transmissores, dois artefatos explosivos, um colete à prova de balas, duas câmeras e dois veículos roubados.
Em um segundo confronto, numa área de mata, outro homem foi preso com um fuzil calibre 5,56. Ele foi baleado sem gravidade e levado ao Hospital Municipal Lourenço Jorge. Segundo o documento, os policiais só souberam da morte do passageiro depois dessa segunda prisão.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/regiao-onde-passageiro-foi-morto-em-brt-na-zona-sudoeste-do-rj-vira-lider-em-mortes-violentas-no-estado.shtml.

Janela de ônibus do BRT após o disparo que matou um passageiro no Rio de Janeiro - Reprodução/TV Globo · Reprodução/TV Globo — Foto: UOL
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