Reestruturação no varejo é tendência com juros altos, dizem especialistas
Alem de pressão da Selic, crédito mais restritivo desde fraude da Americanas também prejudica varejistas brasileiras

Ao olhar para os números e o cenário macroeconômico do país, o especialista em reestruturação Claudio Damasceno, sócio da RGF Bizdoc, afirma que há uma tendência de que o futuro reserve novos casos de reestruturação entre empresas do setor varejista.
A última notícia que colocou o mercado em polvorosa foi a da recuperação judicial das Casas Bahia.
Após anunciar um prejuízo de R$ 10 bilhões no segundo trimestre e o fechamento de 298 lojas , a companhia publicou na segunda-feira (17) um pedido de recuperação judicial .

Em fato relevante, a varejista apontou uma piora de suas condições financeiras , indicando que um ambiente macroeconômico desafiador marcado pela alta taxa de juros, a restrição do crédito, o aumento do custo financeiro e a pressão sobre consumo e capital de giro foram fatores relevantes para a tomada de decisão.
Outros casos recentes como Tok&Stok/Mobly e Marabraz mostram que o problema não está restrito a uma única companhia, enfatiza Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores.
“É possível que continuemos vendo processos de reestruturação, principalmente entre empresas muito alavancadas e dependentes de capital de giro. […] O cenário atual está fazendo uma seleção mais dura entre empresas com balanços saudáveis e geração de caixa e aquelas que dependem excessivamente de dívida para sustentar suas operações. Com dinheiro caro, ineficiências que antes ficavam escondidas aparecem muito mais rapidamente”, pontua Tozzi.

Com isso em mente, leitura a se fazer no momento não é apostar em nomes, e sim reconhecer um padrão, indica Damasceno.
“Onde houver crediário, estoque financiado e dívida cara, sob juros altos e concorrência do digital, haverá mais casos. O emblemático de amanhã será quem, como a Casas Bahia, demorar a trocar o modelo antes que a conta financeira o alcance”, observa o sócio da GRF Bizdoc.
Além de afetarem a margem das empresas, os juros altos pressionam o consumo das famílias.

“Juros elevados, crédito escasso, endividamento das famílias e perda de poder de compra pressionam o consumidor”, explica Tozzi.
Mais de 9,1 milhões de pessoas estão inadimplentes no país , patamar recorde na série histórica da Serasa Experian.
“A inadimplência afeta o varejo de duas formas. Primeiro, reduz a renda disponível das famílias e torna o consumidor mais cauteloso. Segundo, e talvez mais importante para alguns segmentos, restringe o acesso a novo crédito”, elenca a CEO da AGR.

Por Lucinda Pinto: Juro alto é golpe final em crise de anos da Casas Bahia | FECHAMENTO DE MERCADO
“Isso impacta especialmente a compra de bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, que têm tíquetes maiores e dependem muito do parcelamento. Com uma parcela relevante da população inadimplente ou endividada, o consumidor posterga compras, reduz o tíquete e aumenta a busca por preço e promoção”, conclui.
Damasceno ainda reforça que o varejista que depende da mecânica do crediário “paga a Selic duas vezes”.

“O cliente inadimplente é um cliente a quem não se pode mais vender a prazo — ou a quem se vende com provisão maior para perda. A inadimplência ataca, portanto, as duas pontas do balanço do varejista de crediário: reduz a venda e aumenta a perda com o crédito concedido”, aponta o especialista em reestruturação.
“Com o rotativo do cartão perto de 428% ao ano, o consumidor endividado paga a fatura antes de voltar à loja. Para o varejo físico de crediário — o modelo da Casas Bahia —, a inadimplência não é um vento contrário qualquer: é uma pressão sobre o próprio motor do negócio”, sublinha.
Para deteriorar ainda mais o cenário do setor, o acesso ao crédito pelas empresas foi dificultado por outro fator também.

“O caso Americanas […] quebrou a confiança dos bancos no crédito ao varejo. O que era um instrumento rotineiro passou a ser esquadrinhado: os credores ficaram mais exigentes com transparência e garantias, passaram a cobrar a real fotografia do endividamento, encareceram o spread do setor e encurtaram prazos”, afirma Damasceno.
“Para uma indústria que vive de capital de giro — comprar estoque, financiar o cliente —, crédito mais caro e mais escasso é um golpe estrutural. A Americanas não criou a crise do varejo, mas retirou a folga de crédito que mascarava balanços frágeis. Empresas que rolavam dívida com facilidade passaram a ter de mostrar geração de caixa real — e as que não a tinham foram empurradas para a reestruturação. O episódio elevou o custo de errar: no varejo pós-Americanas, o mercado deixou de financiar a esperança e passou a cobrar a cobertura.”
O caso Americanas aumentou significativamente a percepção de risco em relação ao varejo, reforça Tozzi, de modo que bancos, fornecedores e investidores passaram a analisar com maior rigor endividamento, risco sacado, antecipação de recebíveis, geração de caixa e capacidade de pagamento das varejistas.

“O crédito não desapareceu, mas ficou mais seletivo e mais caro principalmente para empresas já alavancadas. Depois da Americanas, passou a ser ainda mais crítico não apenas quanto uma empresa vende, mas como ela financia aquilo que vende e quanto efetivamente transforma essas vendas em caixa”, diz.
Com informações de Manuela Miniguini, da CNN Brasil
Juros altos são uma das principais causas de inadimplência no Brasil

Publicado originalmente por CNN Brasil. Leia a matéria completa em https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/negocios/reestruturacao-no-varejo-e-tendencia-com-juros-altos-dizem-especialistas/.

Última notícia que colocou o mercado em polvorosa foi a da recuperação judicial das Casas Bahia. • Ilustração gerada por IA · • Ilustração gerada por IA — Foto: CNN Brasil
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