Redes ligadas a argentino miram Lula com desinformação sobre migração marroquina em SC
Contas de redes sociais da Argentina ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos ao presidente Javier Milei promovem uma campanha falando em uma suposta "invasão" de imigrantes marroquinos em Santa Catarina "impulsionada" por políticas migratórias do governo Lula . Leia mais (08/28/2026 - 04h00)

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Contas de redes sociais da Argentina ligadas ao consultor Fernando Cerimedo e a influenciadores próximos ao presidente Javier Milei promovem uma campanha falando em uma suposta "invasão" de imigrantes marroquinos em Santa Catarina "impulsionada" por políticas migratórias do governo Lula .

As postagens usam fotos da crise espanhola de refugiados de maio deste ano, quando milhares de marroquinos chegaram ao enclave espanhol de Ceuta , na África, vindos a nado ou em barcos do vizinho Marrocos .
A viralização das mensagens, mapeada pelo Observatório Lupa, iniciou-se com publicações do veículo argentino La Derecha Diario no site e em redes sociais. Com o título "Gravíssimo: Lula impulsiona a imigração de marroquinos para o Brasil", a publicação dizia que "disparou" a imigração de marroquinos para o Brasil "com impulso" das políticas do "governo do socialista Luiz Inácio Lula da Silva", afirmando que havia consequências econômicas para os municípios do estado.
A postagem tinha como base a notícia de que 50 marroquinos pediram refúgio em Santa Catarina nos últimos três meses.

O número é comparativamente minúsculo. Segundo dados do ObMigra e Conare, houve 57 solicitações de refúgio de marroquinos em Santa Catarina em 2026 até julho, que representam 1,86% do total de 3.059 pedidos. Foram 1.707 de pedidos de cubanos, 543 de haitianos, 227 de venezuelanos e 61 de argentinos.
No país, foram 40.961 solicitações de refúgio em 2026, sendo 24.008 de Cuba, 6.880 da Venezuela e 835 do Marrocos.
O consultor argentino Fernando Cerimedo era o dono de 50% do portal La Derecha Diario até a semana passada. Ele saiu da empresa pouco após ser preso na Bolívia, acusado de ter ordenado o assassinato de sua ex-companheira, Nadia Beller, que está grávida. Ele nega envolvimento no crime. A Folha não conseguiu localizar sua defesa.

Cerimedo é próximo da família Bolsonaro. Após a vitória do presidente Lula (PT) no segundo turno das eleições de 2022, o consultor fez lives e publicações afirmando que as eleições brasileiras haviam sido fraudadas. O argentino foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe, mas não entrou na denúncia da Procuradoria-Geral da República.
No fim de julho deste ano, ele participou de uma transmissão ao vivo de Eduardo Bolsonaro, na qual os dois voltaram a levantar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Segundo levantamento do Observatório Lupa, a publicação do La Derecha Diario foi replicada, em diferentes versões, entre sexta-feira (21) e esta quinta-feira (27), com 13,4 mil menções, em redes sociais e websites.

Análise produzida a partir da Meltwater Explore, ferramenta de monitoramento de redes sociais, mostra que os posts partiram de contas baseadas principalmente na Argentina, em seguida no Brasil, e estão em português e espanhol.
Publicações com os títulos "Onda de imigrantes marroquinos chega ao Brasil pelas mãos de Lula" e "Disparou a chegada de imigrantes marroquinos em Santa Catarina" chegaram a 475 mil visualizações.
Segundo o relatório, entre os disseminadores das publicações está o influenciador Christopher Marchesini ("Mate con Mote"), que produziu um vídeo sobre a publicação do La Derecha Diario com a legenda "Lula impulsiona imigração do Marrocos para o Brasil e ameaça fronteira da Argentina".
Marchesini foi recebido em maio pelo presidente Milei na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência da Argentina, ao lado de outros influenciadores. Após o encontro, Milei fez uma publicação no X criticando a mídia tradicional e exaltando os influenciadores.
"Neste estudo, conseguimos algo que geralmente é bastante difícil: identificar o ponto de origem de uma narrativa desinformativa. Ela surgiu no site argentino La Derecha Diario a partir de informações verdadeiras sobre imigração, mas esses dados foram retirados de contexto, exagerados e associados artificialmente ao presidente Lula. O caso combina malinformation [uso prejudicial de informações verdadeiras] com desinformação, porque acrescenta relações causais e alegações sem provas para criar a impressão de uma crise migratória", diz Maiquel Rosauro, analista de inteligência do Observatório Lupa.
"Em seguida, a narrativa foi adaptada e reproduzida, em um curto intervalo, por diferentes perfis ideologicamente alinhados, que utilizaram argumentos e imagens semelhantes."
Segundo Beatriz Farruggia, pesquisadora de inteligência do Observatório Lupa, a Argentina surge como um novo "ator" em operações estrangeiras de influência, normalmente associadas à Rússia, China e Irã.
"Vínhamos suspeitando de redes operando de maneira transacional na América Latina e essa é uma evidência de um novo ator entrando nesse jogo de usar manipulação da informação para influenciar em cenários eleitorais em outros países."
Em Santa Catarina, a Missão Scalabrini Pastoral do Migrante, que prestou assistência aos 50 marroquinos, sentiu as repercussões da campanha sobre a "explosão" de imigração. "Sempre recebemos comentários negativos nas redes em relação a imigrantes, mas, desta vez, houve um grande aumento. E por causa dos 50 marroquinos, um número que não é expressivo. Recebemos muito mais cubanos e venezuelanos", diz Dina Scharb, coordenadora do escritório Scalabrini.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/redes-ligadas-a-argentino-miram-lula-com-desinformacao-sobre-migracao-marroquina-em-sc.shtml.

Ex-deputado Eduardo Bolsonaro faz live com consultor argentino Fernando Cerimedo no fim de julho. - Eduardo Bolsonaro no Youtube · Eduardo Bolsonaro no Youtube — Foto: Folha de S.Paulo
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