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    Recuperações judiciais batem recorde; é hora de fugir do crédito privado?

    Nesta quinta-feira (20), o Banco Central divulgou sua Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, que mostra como as instituições financeiras estão percebendo a evolução do risco e ajustando sua disposição para emprestar. Ela chega em um momento particularmente interessante. Leia mais (08/21/2026 - 18h00)

    Folha de S.Paulo
    21 de agosto de 2026 às 21:00
    Recuperações judiciais batem recorde; é hora de fugir do crédito privado?
    Foto: Folha de S.Paulo

    Michael Viriato escreve sobre como cuidar do seu dinheiro, poupar e planejar o futuro

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    Crédito privado exige mais seleção e diversificação, não necessariamente abandono da classe. - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters
    Crédito privado exige mais seleção e diversificação, não necessariamente abandono da classe. - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesta quinta-feira (20), o Banco Central divulgou sua Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, que mostra como as instituições financeiras estão percebendo a evolução do risco e ajustando sua disposição para emprestar. Ela chega em um momento particularmente interessante.

    De um lado, multiplicam-se as notícias sobre o número recorde de empresas em recuperação judicial . Do outro, quando combinamos a pesquisa com as estatísticas de inadimplência divulgadas pelo próprio BC, não encontramos uma explosão semelhante no crédito empresarial. Como as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo?

    A resposta começa por uma distinção simples, mas importante: quantidade e severidade não são a mesma coisa. Contar empresas em recuperação judicial dá o mesmo peso a uma pequena empresa e a uma companhia com bilhões de reais em dívidas.

    Casas Bahia fecha lojas, tem ordem de despejo e crise; entenda
    Casas Bahia fecha lojas, tem ordem de despejo e crise; entenda — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para o investidor, entretanto, não importa apenas quantas empresas tiveram problemas, mas quanto do crédito concedido está efetivamente deixando de ser pago. Frequência de eventos e severidade financeira são conceitos diferentes.

    Para saber o que efetivamente está acontecendo com a inadimplência, precisamos recorrer às Estatísticas Monetárias e de Crédito, também divulgadas mensalmente pelo Banco Central.

    Em junho, a inadimplência das empresas no Sistema Financeiro Nacional estava em 3,2%, alta de 0,5 ponto percentual em 12 meses. É uma piora, mas ainda abaixo do pico de 4,1% registrado em 2017.

    No crédito livre, a diferença é ainda maior: os atuais 4,0% estão bem distantes dos 6,1% alcançados naquele período. Portanto, enquanto as recuperações judiciais batem recordes, a inadimplência empresarial sequer está próxima de seu máximo histórico

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    A situação é diferente quando olhamos para as famílias. Em junho, a inadimplência das pessoas físicas chegou a 5,6%, avanço expressivo de 1,2 ponto percentual em apenas 12 meses. É um nível próximo dos piores momentos da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011, quando a inadimplência das famílias chegou à casa de 6% durante a recessão de 2015 e 2016.

    Mas também não estamos no máximo histórico como muito se fala em mídias sociais. No crédito livre, a inadimplência atual já alcança 7,6%. Portanto, se existe hoje um segmento em que a deterioração merece preocupação maior, os números apontam muito mais para as famílias do que para as empresas.

    O Relatório de Estabilidade Financeira reforça essa leitura. O Banco Central afirma que a materialização de risco nas carteiras de empresas permaneceu relativamente estável e que as probabilidades de default vinham caindo em todos os portes, embora ainda estivessem em níveis elevados, especialmente entre empresas médias.

    Entre companhias abertas, receita e Ebitda ainda sustentavam indicadores de endividamento e cobertura de juros relativamente adequados, apesar da expectativa de alguma piora adiante.

    A pesquisa divulgada nesta quinta, contudo, mostra que não há espaço para complacência. Os bancos relatam condições de crédito mais restritivas para empresas e apontam a inadimplência entre os principais fatores de cautela.

    Ao mesmo tempo, cresce a procura por capital de giro, enquanto a demanda por financiamento para investimento em ativo fixo permanece fraca. É um sinal de maior seletividade e de pressão sobre algumas empresas, mas ainda não de uma crise generalizada do crédito corporativo.

    Isso ajuda a entender por que o recorde de recuperações judiciais precisa ser interpretado com cuidado. Uma possível explicação, que os dados do Banco Central sozinhos não permitem comprovar, é que o instrumento esteja sendo utilizado com maior frequência por empresas menores, inclusive em segmentos do agronegócio.

    Alguns casos de grandes companhias chamam atenção, mas o conjunto dos dados ainda não mostra deterioração equivalente em todo o estoque de crédito empresarial. Cem recuperações pequenas podem representar menos dinheiro em risco do que uma única grande recuperação.

    Para quem investe em crédito privado, essa diferença é essencial. O recorde de recuperações judiciais não deve ser ignorado, mas tampouco justifica abandonar a classe inteira.

    Ele reforça a necessidade de selecionar melhor os emissores, observando geração de caixa, endividamento, cobertura de juros, previsibilidade de receitas, perfil de vencimentos, garantias e capacidade de atravessar períodos adversos sem depender permanentemente de refinanciamento.

    Crédito privado continua podendo ser um componente interessante de uma carteira de renda fixa, desde que construído com cautela e boa diversificação. O investidor deveria se preocupar menos com a contagem isolada de recuperações judiciais e mais com a qualidade de cada crédito.

    Hoje há mais empresas em dificuldade e os bancos estão mais seletivos, mas os números ainda não mostram uma crise generalizada. Em crédito privado, contar problemas é menos importante do que saber onde eles estão e quanto dinheiro representam.

    Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/de-grao-em-grao/2026/08/recuperacoes-judiciais-batem-recorde-e-hora-de-fugir-do-credito-privado.shtml.

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    Crédito privado exige mais seleção e diversificação, não necessariamente abandono da classe. - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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