Reconectar sem concordar: o que fazer com o amor e com as relações em tempos de eleição
Estamos vivendo uma espécie de déjà-vu de 2018 , intensificado pelo retrogosto das conversas, acusações, silenciamentos e rupturas ainda indigestas, que seguem fermentando em nós nestes oito anos. São fruto do desencanto e do desamor daqueles que considerávamos do nosso partido na vida privada: amigos, pais, irmãos, primos, cônjuges. Pessoas com as quais rompemos, ou com quem abrimos fraturas que ainda não cicatrizaram diante das nossas diferenças de valores e condutas. Leia mais (10/14/2026 - 12h00)

Escrita por Carol Tilkian, psicanalista, pesquisadora de relacionamentos e palestrante. Fundadora do podcast e do canal Amores Possíveis e professora da Casa do Saber
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Estamos vivendo uma espécie de déjà-vu de 2018 , intensificado pelo retrogosto das conversas, acusações, silenciamentos e rupturas ainda indigestas, que seguem fermentando em nós nestes oito anos. São fruto do desencanto e do desamor daqueles que considerávamos do nosso partido na vida privada: amigos, pais, irmãos, primos, cônjuges. Pessoas com as quais rompemos, ou com quem abrimos fraturas que ainda não cicatrizaram diante das nossas diferenças de valores e condutas.
Com os corações na corda bamba e os nervos à flor da pele, muitos de nós tropeçamos nas mesmas pedras que nos feriram ou que usamos para ferir os outros, em gestos impulsivos e reativos —reflexos de tempos bélicos que mais uma vez se apresentam. Presos ao que Freud chamou de compulsão à repetição, repetimos, sem perceber, os mesmos atos, na tentativa de elaborar o desmoronamento de tantas relações no passado. Certos de que o outro está completamente equivocado e de que nada vai mudar, excluímos e silenciamos pessoas e, o que talvez seja mais preocupante, a nossa própria vontade de dialogar com o diferente. Saímos das redes, do assunto, do embate.
Ouço na clínica, nos grupos de amigos e nas redes relatos de angústia, ansiedade e derrotismo . Um derrotismo mais desorganizador do que a possível derrota política: a perda da crença na relação com o outro e no diálogo como ponte. Repetimos e ressentimos.

E o perigo é que essa tônica de ressentimento, exclusão e descrença tem se alastrado para todo e qualquer conflito. Percebo, desde 4 de outubro , essa contaminação na forma como nos relacionamos no privado. Enquanto combatemos o ódio e a agressividade dos políticos, não nos damos conta de que estamos sendo agressivos com aqueles que amamos.
Ficamos mais intolerantes não só na conversa sobre eleição, mas na negociação de prazos e pagamento com o amigo que te contratou para criar a identidade visual da marca dele e agora acha que pode se virar com IA, no roteiro da primeira viagem internacional com os primos-irmãos, na crítica das amigas divorciadas à sua decisão de perdoar a traição do marido. Com a mesma simplificação dos vídeos viralizáveis de deputados questionáveis, colocamos em xeque toda a identidade de quem um dia amamos e em quem tanto confiamos, porque pensa diferente de nós sobre ter filhos, administrar o tempo ou negociar limites. Tudo é política.
Semana passada, o filho de uma amiga quis desconvidar um amiguinho de brincar em casa porque descobriu que o pai dele é corintiano, e ele e o pai são são-paulinos. Um exemplo banal, que explicita o risco de atrofiarmos a capacidade de conviver sem espelhar e de conversar sem concordar. De nada adianta criticar o algoritmo que nos prende à nossa bolha se, fora das telas, mantemos a mesma lógica: a da bolha, da análise simplificada, do cancelamento e do silenciamento do diferente.

Defender a democracia é também praticá-la em cada laço pessoal, que é, por si só, político: na reunião de condomínio, no jantar de família, no encontro das amigas. É assim que somos coerentes com o caminho que defendemos para as políticas públicas. Pode soar idealista, mas acredito piamente que as revoluções começam no micro e que, mais do que nunca, o afeto é uma ferramenta potente contra o ódio e a cisão.
Em "O Uso de um Objeto", o pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott defende que o outro só se torna real quando sobrevive à destrutividade do bebê sem retaliar nem desaparecer. Até então, o bebê acredita que a mãe é uma extensão dele —assim como nós, bebês grandes, medimos a força dos vínculos pelo quanto aquelas pessoas são extensão dos nossos valores, gostos e atitudes. Ao perceber que a mãe é outra pessoa, o bebê ataca: morde, esperneia, grita. A mãe que sobrevive é a que ensina que existe um outro, que existe frustração e que, sim, o ideal se quebrou, mas é possível conviver com quem não é extensão de nós.
Todos temos agressividade, e ela é também força vital ; é o que nos faz discordar, reivindicar, pôr limites. Ela não precisa se traduzir em destrutividade. Trazendo a proposta para 2026: na reunião de condomínio, votar contra a proposta do vizinho sem atacá-lo, e seguir cumprimentando-o no elevador. No jantar de família, dizer "fiquei magoada com o que você falou" em vez de decretar o que o outro é, e voltar no domingo seguinte. No grupo das amigas, responder à provocação numa conversa a dois, e não com captura de tela e deboche.
No tema político, evite usar o assunto como arma em outras brigas: "também, quem vota assim…" na discussão sobre as férias, por exemplo. E se proponha a, antes de cortar seu tio do convívio, relembrar em que pontos ele foi e é pilar para você, sem reduzi-lo ao voto. Sobreviver sem retaliar é seguir presente, sem revidar e sem sumir.
Te convido então a revisitar seus últimos afastamentos e evitações de pessoas próximas, a sair da batalha de convencimento e a se abrir para ouvir os porquês do outro: quais são seus valores e seus medos. Responder a uma frase dura com uma pergunta: "O que te dá tanto medo nisso?" em vez de um contra-ataque.
Se voltar a conversar de política parece impossível, comece exercitando sua micropolítica cotidiana. Como diz a frase popularmente atribuída a Gandhi, precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/amor-cronico/2026/10/reconectar-sem-concordar-o-que-fazer-com-o-amor-e-com-as-relacoes-em-tempos-de-eleicao.shtml.

Catarina Pignato · Catarina Pignato — Foto: Folha de S.Paulo
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