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    Receita para eleger um Bolsonaro

    1. Faça como Biden e Kamala: prometa mais do mesmo, a continuidade de um governo mal avaliado. Exiba-se como candidato da ordem, do status quo, forjando alianças com o Centrão de Alcolumbre e Motta. Na véspera do voto, despeje bondades, tratando os cidadãos como néscios: reajuste o Bolsa Família congelado há anos, isente as blusinhas taxadas em nome do equilíbrio concorrencial e proíba as bets acolhidas como fonte de arrecadação tributária. Leia mais (10/09/2026 - 20h25)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 23:25
    Receita para eleger um Bolsonaro
    Homem de camisa clara e chapéu bege segura uma bandeira do Brasil em meio a multidão. Atrás dele, mulher de camiseta branca e cabelos trançados observa a cena. Público ao fundo usa roupas vermelhas e bonés brancos. — Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP

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    O presidente Lula (PT) em caminhada em Ceilândia, em Brasília - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress
    O presidente Lula (PT) em caminhada em Ceilândia, em Brasília - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    1. Faça como Biden e Kamala: prometa mais do mesmo, a continuidade de um governo mal avaliado. Exiba-se como candidato da ordem, do status quo, forjando alianças com o Centrão de Alcolumbre e Motta. Na véspera do voto, despeje bondades, tratando os cidadãos como néscios: reajuste o Bolsa Família congelado há anos, isente as blusinhas taxadas em nome do equilíbrio concorrencial e proíba as bets acolhidas como fonte de arrecadação tributária.

    2. "Gasto é vida". Governe sob o dístico de Dilma, insistindo no manual de política econômica lulista: gasto público, crédito e consumo. Amplie a dívida pública em dez pontos percentuais sobre o PIB. Diante do efeito previsível, culpe o BC pela Selic estratosférica. Frente à explosão hemorrágica do endividamento familiar, aplique esparadrapos: expansão do consignado, infinitos programas Desenrola. Empurre o caos para o futuro.

    3. Aposte na politização do STF. Indique atores políticos: agentes do Executivo disfarçados por togas. Firme um pacto com o bloco de juízes alinhado a Alexandre de Moraes. Decida governar sob a proteção deles, renunciando de antemão a alianças destinadas a eleger uma maioria parlamentar democrática. Na hora da crise, quando um holofote ilumina as teias que prendem o juiz redentor a Vorcaro, embarque na manobra de Gilmar e Dino: clame pela investigação de tudo e todos a fim de não investigar ninguém.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    4. Encare Trump como ativo eleitoral, não como líder de uma superpotência que opera para converter a América Latina em esfera de influência. Fale sem parar em soberania nacional e, corretamente, qualifique seu rival como um estafeta da Casa Branca. Mas rejeite qualquer ação retaliatória contra as tarifas arbitrárias impostas pela Casa Branca. Muita retórica, nenhum gesto prático: evite contrariar os interesses dos Joesleys.

    5. Facções? Simule que carecemos de penas mais duras. Envie projetos de lei ao Congresso, imaginando que se combate um poder armado com palavras em documentos oficiais. Não crie uma agência federal de combate às facções, coordenando ações financeiras, policiais, militares e judiciais destinadas a asfixiar o crime organizado. Diante do fracasso, alegue que a segurança pública é atribuição dos estados. No fim, justificadamente, acuse a direita de promover a violência policial arbitrária e inútil – mas, aí, nunca use a palavra Bahia.

    6. Siga a linha dos "progressistas" identitários. Fragmente a sociedade em raças. Frente a deslizamentos de terra que arrastam casas de pobres, denuncie o "racismo ambiental", não loteamentos irregulares implantados com a anuência de prefeitos e vereadores. Na escola, faça guerra cultural, contrapondo suas bíblias identitárias aos manuais obscurantistas deles. Prometa que, num dia ensolarado, indicará uma mulher-negra para o STF, não um jurista íntegro, de notório saber, de qualquer gênero ou cor. Patrocine cotas para negros, mulheres, trans e etc.: o Centrão jamais votará contra.

    7. Na "guerrilha digital", incentive o sectarismo da militância. Se alguém não orbita ao seu redor, marque-o com o rótulo "bolsonarista" – e corra para o abraço.

    Ah, já fez isso tudo? Deu no que deu? Culpe a "elite de 500 anos", a "classe média fascista", o "pobre de direita", a "imprensa entreguista". Esqueça que seu partido governou durante 18 dos últimos 24 anos.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2026/10/receita-para-eleger-um-bolsonaro.shtml.

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    O presidente Lula (PT) em caminhada em Ceilândia, em Brasília - Gabriela Biló/Folhapress · Gabriela Biló/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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