Brasil

    Rainha da casa, Ganga deixa o 'tec-tec' das unhas como trilha sonora na memória

    Cadela de 14 anos não resistiu a complicações de uma cirurgia na região abdominal

    UOL
    25 de setembro de 2026 às 16:00
    Rainha da casa, Ganga deixa o 'tec-tec' das unhas como trilha sonora na memória
    Foto: UOL

    Um espaço sobre o melhor amigo do homem, editado por Lívia Marra

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Morreu na madrugada de segunda-feira (21), por volta das 5h30, a cadela Ganga, de 14 anos, após complicações de uma cirurgia na região abdominal. Ela estava internada em Brasília.

    Ganga, uma vira-lata de porte médio com pelagem preta e marrom, foi adotada ainda filhote e viveu até os 12 anos em Campinas (SP), no bairro universitário de Barão Geraldo, numa casa com quintal de grama bem servida de sol.

    O nome quem sugeriu foi um vendedor de roupas infantis, Seu Zé, numa referência ao algodão Ganga, espécie de algodão crioulo de cor meio alaranjada. Foi adestrada jovem, provavelmente pelo temperamento enérgico que conservaria até o fim da vida.

    Mudou-se em abril de 2024, já idosa, para viver em uma espaçosa casa na zona sul de São Paulo. Adotou os novos donos, três irmãos, logo que chegou, e viveu em pé de guerra com os dois gatos que ali moravam, Lilás e Rabicho.

    Logo se adaptou à vida de madame e assumiu o posto de rainha da casa: dominou as comodidades do térreo e expulsou temporariamente o casal de felinos para o exílio forçado no primeiro andar. Gostava de tomar sol na varanda e de vez em quando atacava a lixeira em busca de ossinhos de frango e outras delícias.

    Viveu um curto período no bairro do Ipiranga, onde costumava implicar com um malamute-do-alasca do dobro do seu peso durante os passeios no Parque da Independência.

    Em julho de 2025, enfrentou mais de 1.000 quilômetros de estrada na mudança para Brasília, cidade em que viveu o último ano de vida. Não reclamou nem deu trabalho durante a viagem.

    De charme incomparável, logo ficou conhecida pela vizinhança, que estranhava aquela cachorra de idade avançada e focinho grisalho, mas cheia de energia.

    Foi nesse período que ela conheceu as cachoeiras de Goiás. Latia alto sempre que os donos tentavam nadar, como se precisasse alertar para os perigos ocultos na água, e descansava gostosamente na areia, sob o sol.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    Em uma madrugada do início de agosto, acordou os donos tremendo incontrolavelmente, em meio a uma crise convulsiva que só cessou sob efeito de forte medicação, já na clínica veterinária.

    Se recuperou, mas sucessivos exames, remédios e consultas não conseguiram descobrir a causa das convulsões enquanto o seu quadro se deteriorava. Em meados de setembro, já internada, um ultrassom apontou possível tumor no fígado.

    Até a semana anterior, mesmo debilitada, Ganga ainda acordava os donos de manhã, por volta das 6h, pedindo para passear.

    Se enrolava ao pé dos tutores enquanto cozinhavam e os seguia pela casa sem dar trégua, às vezes de forma absolutamente inconveniente. O "tec-tec-tec" das suas unhas batendo contra o piso de cerâmica era a trilha sonora da convivência familiar.

    Enquanto os humanos da casa comiam sentados à mesa, ela se aproximava devagar e apoiava a cabeça sobre o colo de um deles, suplicando por carinho (e, quem sabe, um pouquinho de comida).

    A indicação médica diante do quadro complexo, com alterações no fígado, pâncreas, vesícula e rins, era uma cirurgia exploratória da cavidade abdominal. Fraca e magra após dias de internação, a vira-lata não resistiu às complicações do procedimento, e morreu cerca de 12 horas depois .

    Estava internada numa das melhores clínicas de Brasília, com todo suporte humano, tecnológico e farmacêutico, mas nem todas as feitiçarias da medicina foram capazes de salvá-la.

    Morreu sem sentir dor, segundo uma das veterinárias que a acompanhava. O coração bateu cada vez mais devagar, até que parou de vez, e ela expirou.

    Ganga será lembrada por sua inabalável lealdade e deixará saudades em todos aqueles cujas vidas ela atravessou, inclusive o autor deste texto.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/bom-pra-cachorro/2026/09/rainha-da-casa-ganga-deixa-o-tec-tec-das-unhas-como-trilha-sonora-na-memoria.shtml.

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)