Racismo marcou investigação do velho crime do restaurante chinês
Livro do historiador Boris Fausto esmiuçou quádruplo homicídio ocorrido em 1938

As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga
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Ho-Fung era um comerciante próspero. Seu pequeno restaurante, o Órion, na rua Venceslau Brás, 13, na região da Sé, em São Paulo , vivia sempre cheio e rendia um bom dinheiro. Era também um sujeito conhecido pelos modos rudes, que ofendia e humilhava seus funcionários. De um lado, provocava inveja e de outro, ressentimentos. Eis a equação explosiva que o levou a um fim trágico.
Não só ele. Naquele que ficou conhecido como o crime do restaurante chinês , além de Fung, foram mortos sua mulher Maria Akiau e dois garçons do estabelecimento, o lituano José Kulikevicius e o brasileiro Severino Lindolfo Rocha. Maria morreu por esganadura e os demais a pauladas.
O crime aconteceu na madrugada do dia 2 de março de 1938, uma Quarta-feira de Cinzas, em um endereço que não existe mais. Quem encontrou os corpos ensanguentados e com os rostos desfigurados foi o cozinheiro Pedro Adukas, também lituano, ao chegar para trabalhar no começo da manhã.

O historiador Boris Fausto (1930-2023), em seu livro "O Crime do Restaurante Chinês: Carnaval, Futebol e Justiça na São Paulo dos Anos 30" (Companhia das Letras), reconstituiu o caso, esmiuçando as investigações da polícia, o processo judicial e os vícios do julgamento de Árias de Oliveira, o principal acusado, vítima de racismo e do sensacionalismo da imprensa.
Fausto também mostrou como o clima carnavalesco e da Copa do Mundo de 1938 influenciaram a opinião pública sobre os acontecimentos.
Em um primeiro momento, se pensou que o culpado fosse o cunhado de Fung, João Akiau, ou um outro chinês, Ho Det Men, por supostamente invejarem o sucesso do compatriota. O garçom mais antigo do restaurante, Manoel Custódio Pinto, porém, mencionou no seu terceiro interrogatório o nome de Árias, que trabalhara durante 16 dias como ajudante de cozinha e se demitira na sexta-feira anterior ao massacre.

Não havia provas que o incriminassem, mas ele acabou se tornando o principal suspeito porque pediu o emprego de volta um dia antes do crime e não foi atendido.
Segundo informações da Reserva Técnica do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), após a acusação de Manoel, Árias teve a prisão decretada em 9 de março de 1938. O fato foi amplamente noticiado pelos jornais, que, mesmo sem provas, chamaram Árias de monstro e fizeram referências à sua aparência e ao fato de ser negro e corpulento, como se isso o incriminasse. Segundo Fausto, ele tinha uma grande semelhança com o craque da seleção Leônidas da Silva , o que lhe angariou alguma simpatia.
Pesava contra ele apenas o fato de ter fornecido dados errados no cartório para fugir do serviço militar, mas mesmo assim ele passou por perícia antropopsiquiátrica, para verificar se tinha tendência natural para cometer crimes. Pela primeira vez a polícia paulista adotava essa técnica racista e os resultados indicaram que ele seria o assassino.

Árias negou e acusou Manoel, que também vinha sendo investigado, de ser responsável pelo massacre. Mas em 19 de março, em um segundo interrogatório, assumiu a culpa e deu detalhes sobre o episódio, contando como matara as quatro pessoas e admitindo o roubo de 30 mil réis de Fung.
Sua prisão preventiva foi decretada em 21 de maio. E de acordo com informações da Reserva Técnica, o julgamento aconteceu em 31 de março de 1939, quando Árias terminou absolvido porque o júri considerou que fora forçado a confessar um crime que não cometera.
A Promotoria apelou, o julgamento foi anulado e um novo foi marcado. Mais uma vez, ele saiu livre.

Quem o defendeu foi o jovem advogado negro Paulo Lauro , que seria eleito prefeito de São Paulo em 1947, muito por conta de sua atuação no tribunal. Lauro foi o primeiro afrodescendente a ocupar o cargo. No fim das contas, nunca se descobriu o verdadeiro culpado do crime do restaurante chinês.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/andancas-na-metropole/2026/08/racismo-marcou-investigacao-do-velho-crime-do-restaurante-chines.shtml.

Ho-Fung e Maria Akiau, donos do restaurante chinês, mortos na Quarta-feira de Cinzas de 1938 - Domínio Público · Domínio Público — Foto: UOL
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