Queria ter prazer ao ver Trump humilhado pela realidade, mas não consigo
Se eu estivesse escrevendo um livro sobre a guerra dos Estados Unidos contra o Irã , saberia exatamente qual seria o título. Seria a publicação do presidente Donald Trump nas redes sociais em 5 de abril de 2026, dirigida aos líderes iranianos: "Abram a porra do estreito, seus loucos desgraçados, ou vocês vão viver no Inferno -ESPEREM SÓ PARA VER!" Leia mais (08/20/2026 - 06h00)

Editorialista de política internacional do New York Times desde 1995, foi ganhador do prêmio Pulitzer em três oportunidades
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Se eu estivesse escrevendo um livro sobre a guerra dos Estados Unidos contra o Irã , saberia exatamente qual seria o título. Seria a publicação do presidente Donald Trump nas redes sociais em 5 de abril de 2026, dirigida aos líderes iranianos: "Abram a porra do estreito, seus loucos desgraçados, ou vocês vão viver no Inferno —ESPEREM SÓ PARA VER!"
As guerras são um cadinho que, com muita frequência, expõe mudanças na física do mundo ao nosso redor —quem tem poder, quem não tem e como esse poder está sendo exercido. Nada resume melhor a nova equação de poder produzida por esta guerra do que o discurso descontrolado e obsceno de Trump contra a liderança iraniana por não se curvar às suas bombas.
Essa nova física da guerra está igualmente presente nos conflitos entre Ucrânia e Rússia , Hezbollah e Israel , Hamas e Tel Aviv , e os houthis e todo o resto. Minha síntese dessa nova dinâmica é que os pequenos agora conseguem ter um impacto gigantesco e a um custo muito baixo.

E, embora os grandes também possam agir com enorme precisão, fazer isso sai muito mais caro para eles, ao mesmo tempo que arcam com o peso de vastos sistemas de armamentos herdados do passado.
A vantagem líquida, por enquanto, parece estar com os pequenos. Isso deveria tirar seu sono quando se pensa em como a revolução emergente da inteligência artificial certamente potencializará essa tendência, permitindo que os pequenos ajam de forma ainda mais grandiosa e poderosa, a um custo ainda menor.
Não surpreende que Trump esteja frustrado. Afinal, em 11 de março, menos de duas semanas depois de ele e Israel iniciarem esta nova rodada de guerra contra o Irã com uma campanha de bombardeios em larga escala, Trump disse: "Nós vencemos. Deixem-me dizer: nós vencemos. Sabe, nunca é bom dizer cedo demais que você venceu. Nós vencemos. Na primeira hora, já tinha acabado. Mas nós vencemos."

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Ele estava certo em uma coisa: nunca diga cedo demais que venceu.
Trump não percebeu que Teerã também tem voz na decisão de quando esta guerra estará ganha ou perdida.

Mais importante: ao contrário de Trump, Teerã tinha um plano B para o dia seguinte —usar sua recém-adquirida capacidade de agir em grande escala, com precisão e a baixo custo para assumir o controle do estreito de Hormuz , embora suas Forças Armadas fossem apenas uma pequena fração do tamanho das americanas e tivessem sido duramente castigadas.
Eu gostaria de conseguir sentir prazer ao ver nosso presidente pomposo, narcisista e sempre dado a bravatas ser humilhado pela realidade. Mas, sinceramente, não consigo —porque a situação está ficando assustadora. E vai piorar. Os iranianos infligiram danos reais aos EUA — no campo de batalha e em nossa economia —, cuja dimensão Trump e o secretário de Defesa, Pete Hegseth , vêm ocultando.
O Irã está sujeito a sanções econômicas, de forma intermitente, desde 1979. Ainda assim, conseguiu desenvolver um arsenal de mísseis e drones sofisticados, porém relativamente baratos, que lhe permitiu lutar contra Israel e Washington até chegar a uma espécie de empate —e, no processo, causar danos significativos a ativos militares americanos na região.

Considere apenas algumas notícias que talvez tenham passado despercebidas.
O principal porta-aviões americano no Golfo Pérsico, o USS Abraham Lincoln , às vezes ficou com poucos suprimentos para sustentar seu efetivo de quase 5.700 pessoas porque, depois do primeiro dia da guerra, mísseis e drones de ataque iranianos destruíram grande parte da nossa base de abastecimento no Bahrein .
"Quando ela virou fumaça, o mesmo aconteceu com um importante centro logístico do qual a Marinha depende há décadas", noticiou o The New York Times.

Isso obrigou Trump e o ainda mais presunçoso Hegseth a aumentar a dependência de uma base sob comando britânico na ilha de Diego Garcia como centro de abastecimento, a cerca de 4.350 quilômetros do Bahrein.
Como essa base pôde estar tão desprotegida contra mísseis iranianos no primeiro dia da guerra? Se isso não justifica convocar Hegseth a depor perante o Congresso, não sei o que justificaria.
Ou talvez você não tenha visto a revista Defence Security Asia comentando uma reportagem da CNN segundo a qual, em algum momento no início de março, um míssil iraniano destruiu um radar de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões), essencial para a operação de um avançado sistema de defesa antimísseis THAAD (Defesa Terminal de Área a Grande Altitude), na Base Aérea Muwaffaq Salti, na Jordânia .

O ataque representou "um momento potencialmente transformador" na "disputa estratégica" entre Teerã de um lado, e Washington e Tel Aviv, de outro, afirmou a revista.
Uma autoridade jordaniana de alto escalão disse ter ficado atônita ao saber que os iranianos, de alguma forma, conseguiram direcionar seu míssil ao sistema de radar do THAAD, manobrando-o em pleno voo para atacar o radar pelos flancos e escapar da detecção e da interceptação. Isso contra o sistema antimísseis mais sofisticado do arsenal americano!
John Arquilla, professor emérito de análise de defesa da Escola Naval de Pós-Graduação dos EUA, explicou que a guerra de mísseis já não consiste apenas em disparar uma ogiva em uma trajetória previsível e deixar que a inércia e os sistemas inteligentes de orientação por GPS a conduzam até o alvo.

Os russos concentraram recursos enormes na construção de mísseis capazes de realizar manobras em pleno voo, guiados por informações melhores em tempo real, impulsionados cada vez mais a velocidades hipersônicas e capazes de chegar por um ângulo que o defensor não previu.
Segundo relatos, os mísseis Fattah iranianos têm essas capacidades , embora ainda não esteja claro se foram eles ou drones que destruíram o THAAD a 800 quilômetros do Irã.
Em 3 de março, dois drones kamikaze atingiram o complexo da embaixada dos EUA em Riad, na Arábia Saudita , por volta de 1h30. O primeiro drone voou diretamente contra o andar que abrigava a estação da CIA na embaixada em Riad; o segundo entrou diretamente pelo buraco aberto pelo primeiro, provocando uma forte explosão e um incêndio que durou horas.

Relatos posteriores indicaram que esse ataque iraniano pode ter contado com a ajuda de informações de satélites russos fornecidas por Vladimir Putin . Ao que parece, Trump não fez nada a respeito.
Durante gerações, observou Arquilla, as guerras foram "vencidas pela massa e pela energia". A guerra obedecia a uma lei física simples: quanto maior a distância de lançamento de um projétil, menor sua precisão. Assim, era preciso superar a distância "com massa e energia". Hoje, não mais. "Agora, as guerras são vencidas pela informação", afirmou Arquilla.
E até os pequenos agora têm acesso a ela. Basta observar como o Hezbollah infligiu danos significativos às comunidades israelenses e ao Exército de Israel, com suas imensas plataformas militares fabricadas em solo americano; como a Ucrânia fez uma Rússia grande e temível sangrar ; e como o Irã está levando a Casa Branca e Tel Aviv a um impasse para perceber como armas de precisão baratas, que podem ser construídas em uma oficina de porão com componentes encontrados na Amazon , romperam a antiga relação entre alcance e precisão.

É por isso que os defensores agora têm uma vantagem real sobre os atacantes, concluiu Arquilla. Trump e Hegseth continuaram concentrados em "ampliar a intensidade da guerra" —acrescentando ritmo e tonelagem—, enquanto os iranianos se concentraram em "expandir a guerra", escondendo pequenas unidades com mísseis de precisão em mais lugares e atacando bases americanas e instalações petrolíferas árabes por todo o Golfo.
"O trabalho deles é sobreviver tempo suficiente para atirar e se dispersar. Em terra, algumas grandes formações de tanques Abrams importam menos do que as muitas unidades pequenas, com armas baratas que podem construir e modificar em uma semana", disse Arquilla.
Essas novas armas ampliam outra vantagem que os pequenos têm sobre os grandes: eles não precisam vencer. Só precisam evitar a derrota. Nós precisamos vencer, encerrar a guerra, voltar para casa e nunca olhar para trás. Boa sorte com isso agora.

Antes que os iranianos e o Hezbollah fiquem convencidos demais, porém, deveriam se lembrar da outra metade da minha equação: embora os pequenos agora possam agir como gigantes, os grandes também podem agir em escala muito pequena.
No primeiro dia da guerra, ataques aéreos israelenses com armas de precisão — auxiliados pela inteligência americana — mataram mais de 40 líderes iranianos de alto escalão reunidos para uma reunião da cúpula do regime em um único complexo em Teerã .
Em outras palavras, com informações precisas, Israel eliminou grande parte da elite de segurança nacional do Irã de uma só vez.
E houve ainda o ataque israelense com pagers contra o Hezbollah . Em 17 e 18 de setembro de 2024, Tel Aviv detonou os pagers e outros dispositivos eletrônicos portáteis usados por integrantes, combatentes, oficiais, médicos e apoiadores civis do Hezbollah, matando dezenas de pessoas e ferindo cerca de 3.000.
Estima-se que 1.500 combatentes do Hezbollah tenham sido retirados de ação em razão dos ferimentos, que afetaram principalmente mãos, rostos e quadris. Usando uma quantidade relativamente pequena de explosivos e uma dose enorme de informação, Israel matou e feriu um número significativo de combatentes do Hezbollah em poucas horas.
O ataque Stuxnet dos americanos e israelenses contra a instalação de enriquecimento de Natanz, no Irã, iniciado em 2009 , foi outra versão disso.
Em vez de bombardear a instalação, a Casa Branca e Israel inseriram um pequeno "worm de computador" —algumas linhas de código— para desativar um grande número de centrífugas IR-1 do Irã, embora elas tenham sido rapidamente substituídas e, no fim, a interrupção tenha sido mínima.
(Os EUA e Israel nunca reconheceram a responsabilidade pelo vírus.) Era o grande agindo de forma pequena, usando apenas um malware, mas pode apostar que o desenvolvimento daquele código e toda a operação conjunta custaram muito dinheiro.
O que é realmente alarmante hoje é como está ficando fácil para os pequenos agir como gigantes —e, quando digo "pequenos", não me refiro apenas ao tamanho, mas também à idade.
Um adolescente com um laptop, uma conexão Starlink e um modelo de IA agora pode interromper o sistema municipal de abastecimento de água ou de energia ao identificar e explorar vulnerabilidades de softwares antigos.
Portanto, não se surpreenda se, um dia em breve, ouvir o prefeito de sua cidade falando como Trump: "Restabeleçam minha água, seus loucos..."
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thomas-l-friedman/2026/08/queria-ter-prazer-ao-ver-trump-humilhado-pela-realidade-mas-nao-consigo.shtml.

Um drone de fabricação iraniana é exibido na Praça Azadi, em Teerã - Atta Kenare - 2.ago.26/AFP · Atta Kenare - 2.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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