Quem tem tempo para votar?
Assegurar o exercício é responsabilidade do poder público e dos empregadores

Mestre em filosofia política pela Unifesp e coordenadora da coleção de livros Feminismos Plurais
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Encerrado o primeiro turno das eleições nacionais, multiplicam-se análises sobre culpas e responsabilidades pelos resultados. No centro da disputa estão os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas .
Um contingente dessa dimensão merece mais do que explicações tiradas da cartola. Em vez de essencializar quem esteve ausente, recorrendo a fórmulas como " o pobre de direita ", precisamos fazer uma reflexão filosófica sobre o acesso ao voto, tema que costuma passar ao largo das análises políticas.
Vejamos um caso concreto. Em 29 de setembro, a Justiça do Trabalho de Porto Alegre concedeu uma liminar, requerida pelo Ministério Público do Trabalho, determinando que uma empresa de segurança e uma empresa de sistemas assegurassem condições efetivas de votação aos empregados.

Segundo o órgão ministerial, a investigação identificou 171 ocorrências de jornadas consideradas incompatíveis com o exercício do voto em eleições anteriores. Havia trabalhadores escalados aproximadamente das 7h às 19h. A decisão reconheceu que orientar alguém a votar antes ou depois do expediente não basta: é preciso garantir uma oportunidade real.
O caso traz uma pergunta: quem pode dispor do próprio tempo no domingo da eleição ?
Ao buscar explicações para a ausência de 33 milhões de indivíduos, uma análise política pode ceder à arrogância de tratar a população pobre como um sujeito homogêneo, cujo comportamento deveria corresponder às expectativas de quem a observa. Pessoas pobres, assim como pessoas de qualquer grupo social, têm convicções, contradições e motivos para criticar governos.

O ponto que nos interessa é que, em um contingente tão amplo, há inúmeras razões para uma abstenção —descrença nas candidaturas, adoecimento, eventos climáticos, dificuldades de deslocamento ou mesmo desconhecimento de onde votar .
Cada qual exigiria uma atenção apropriada; porém, sejam quais forem os motivos, eles acabam reunidos no interior de uma única estatística de 33 milhões de pessoas, o que contribui tanto para um erro de avaliação quanto para uma resposta inadequada. Costuma-se resumir toda essa complexidade na descrença nas candidaturas.
Uma análise interseccional permite compreender como classe, raça e gênero se articulam na distribuição das condições de participação política. Garçons, cozinheiras, camareiras, trabalhadores da limpeza, motoristas e vigilantes privados, entre tantos outros profissionais, continuam trabalhando enquanto o país vota.
Para quem mora perto da seção eleitoral e controla a própria agenda, votar pode ser uma breve interrupção do domingo ou até mesmo um divertido roteiro para famílias burguesas: votar no colégio da infância e reunir-se para almoçar depois.
Uma sociedade fundada na escravidão e acostumada a ser servida tende a considerar natural a disponibilidade permanente do tempo alheio. Quem pode organizar o domingo em torno da eleição talvez nem se pergunte se a pessoa que preparou sua comida ou limpou seu quarto conseguiu chegar até a urna.
Essa discussão alcança o trabalho sem remuneração. Quem cuida das crianças, dos idosos e das pessoas dependentes enquanto os demais saem para votar? E quem cuida encontra tempo para votar? Segundo a PNAD de 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas; os homens, 11,7. Por que essa desigualdade desapareceria no domingo da eleição?
Para essas pessoas, por exemplo, uma postagem de Instagram implorando para irem votar no segundo turno é de pouca ou nenhuma efetividade. São pessoas que não deixam de votar porque "são de direita", "são burras" ou "são fascistas".
A Constituição brasileira —ainda vigente neste país— estabelece que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal. Prevê também a obrigatoriedade do voto, ressalvadas as exceções constitucionais. Assegurar condições para seu exercício é responsabilidade do poder público e exige o cumprimento das obrigações dos empregadores.
Um contingente de 33 milhões de ausentes exige respostas dos partidos e dos políticos, mas deve mobilizar a Justiça Eleitoral. Para além das campanhas de incentivo ao voto, é necessário investigar as ausências que decorrem de obstáculos que as instituições deveriam ajudar a remover. A prestação da Justiça Eleitoral precisa ser avaliada pela capacidade de assegurar condições efetivas de participação.
Dessa forma, decisões como a de Porto Alegre precisam ser um paradigma nacional, com efeitos para todos os serviços não essenciais nas cinco regiões do país no dia 25 de outubro, a fim de que sejam proporcionados fiscalização, meios, tempo e direito para que pessoas de todas as classes sociais possam votar.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2026/10/quem-tem-tempo-para-votar.shtml.

Ilustração de Aline Bispo para coluna de Djamila Ribeiro de 9 de outubro de 2026 - Aline Bispo/Folhapress · Aline Bispo/Folhapress — Foto: UOL
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