Quem protege os brasileiros dos protetores da democracia?
Afinal, quem guarda os guardiões? Esta pergunta retórica filosófica com 2000 anos ganha atualidade no Brasil de hoje, perante umas eleições renhidas e uma crise institucional nunca vista na Justiça. Leia mais (09/20/2026 - 08h30)

Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'
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Afinal, quem guarda os guardiões? Esta pergunta retórica filosófica com 2000 anos ganha atualidade no Brasil de hoje, perante umas eleições renhidas e uma crise institucional nunca vista na Justiça.
Se estas eleições brasileiras fossem um filme, seriam uma ação eletrizante.
Estão reunidos todos os ingredientes para um enredo tenso: uma corrida praticamente empatada e com elevadas taxas de indecisos e de rejeição ; um candidato sob investigação por suspeitas de crimes graves; o anúncio de medidas escandalosamente eleitoreiras em cima do pleito; a ameaça latente de uma interferência externa; e a somar a tudo isto, uma gravíssima crise institucional que abala a Justiça, garante do Estado de Direito. Era difícil ficar mais alucinante.

Esta grande confusão leva-nos à famosa pergunta de Juvenal, um pensador satírico da Roma antiga. Quem vigia os vigilantes que é suposto garantirem a lei e a ordem num regime democrático? Quem nos protege dos supostos protetores?
O Supremo barraco que está montado no Supremo Tribunal Federal faz tremer a imagem de independência destes guardiões da justiça, que são essenciais na arquitetura de qualquer democracia.
E o que é mais impressionante no Brasil é que, comparado com outros tribunais superiores noutros países, o STF é especialmente poderoso. Porque concentra nele funções que, noutras jurisdições, estão muitas vezes separadas por três instâncias diferentes: fiscalizador das questões de constitucionalidade, entidade de recurso superior e tribunal penal para pessoas com foro privilegiado , nomeadamente políticos. Tal como acontece nos EUA, o tribunal supremo brasileiro é uma instituição muito personalizada, politizada e mediática.

Basta dizer que, em Portugal e na maioria dos países europeus, poucos conhecem de cor os nomes dos juízes dos supremos, enquanto no Brasil são verdadeiras estrelas —amados por uns, odiados por outros.
Os mandatos vitalícios, a escolha politizada por indicação do Presidente, a transmissão dos julgamentos pela TV e a ausência de um código de ética vinculativo… tudo isto fez de alguns destes ministros do STF entidades superpoderosas, quase justiceiras, protagonistas agitadores na vida política.
É evidente que este desenho institucional se transformou num problema que precisa de ser repensado. É que uma democracia sem uma justiça credível e independente pode até ter eleições, mas dificilmente terá verdadeira liberdade.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mafalda-anjos/2026/09/quem-protege-os-brasileiros-dos-protetores-da-democracia.shtml.

Da esquerda para direita, os ministros do STF Flávio Dino, André Mendonça, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes em sessão no plenário do tribunal sobre a abertura de investigações a respeito de integrantes da corte - — Foto: Folha de S.Paulo
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