Quem propaga certezas não é cientista
Alegada comprovação com IA de que o modelo da dinâmica dos fluidos falha em pontos críticos evidencia um universo de incertezas

Editor-executivo, foi antes secretário de Redação e editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP
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O Princípio Fundamental da Dinâmica postula que a variação da velocidade de um corpo é impulsionada pela força aplicada sobre ele e reduzida pela sua massa. Seu formulador, Isaac Newton , na segunda metade do século 17 se dedicava a tentar compreender, descrever e prever o movimento. Para estudar essas variações em situações instantâneas, desenvolveu um arsenal analítico e matemático novo, o cálculo diferencial, e o seu inverso, a chamada integração.
A Segunda Lei de Newton aplicada à dinâmica de gases e líquidos foi no século seguinte sistematizada por Leonhard Euler . O que no fundador da mecânica clássica eram objetos sólidos e definidos viajando pelo espaço se tornou elementos contínuos de volume desprezível serpenteando sob pressão.
Na primeira metade do século 19, Claude-Louis Navier e George Gabriel Stokes, em trabalhos subsequentes, acrescentaram os efeitos das forças internas aos fluidos, a sua viscosidade, a sistemas intrincados de equações diferenciais.

As consequências desse acúmulo evolutivo de cogitações sobre o movimento na natureza foram transformadoras. Modelos nessa linhagem preveem a dinâmica dos corpos celestes, o efeito de choques entre objetos, o atrito e o arrasto sobre carros e aviões e o comportamento dos fluxos do sangue nos vasos, das correntes nos mares e dos ventos na atmosfera.
O recente frenesi da comunidade científica diz respeito à alegada confirmação, com o auxílio de inteligência artificial, de que Navier-Stokes deixa de corresponder à realidade física em pontos críticos. É como se as lentes abstratas com que nos equipamos para ver o que se passa perdessem a nitidez quando redemoinhos intensos se formam no escoamento dos líquidos.
Ao revelar um novo desconhecido, o fracasso pontual propicia uma descoberta. Há gerações a ciência deixou de pretender encontrar as leis da natureza porque chegou à convicção, prática ou refletida, de que elas não existem como a era de Newton as concebia. A certeza de que desvendar determinantes de fenômenos físicos era apenas questão de meios deu lugar à certeza da incerteza.

Eis uma razão para otimismo, escreve o biólogo Stuart Firestein em seu novo livro, "It Could Be Otherwise" (poderia ser de outro jeito), o terceiro destinado a estimular no leitor uma visão mais enriquecida da ciência. Onde há incerteza, e não um feixe de leis subterrâneas a imperar, há também um leque de possibilidades de caminhos e desfechos.
A aleatoriedade arrombou a porta do determinismo com Charles Darwin. O que dispara a complexidade da biosfera é um tipo de roleta da vida. Sua evolução não pode ser prevista a não ser a partir de um amplo conjunto inicial de probabilidades ínfimas. Espere sentado quem anseia por um guia definitivo dos organismos com o avanço da pesquisa genética.
A ideia de decompor fenômenos em partes elementares para reduzir sua complexidade entrou em litígio com os achados. Quanto mais se desce ao nível microscópico do que quer que seja, a regra tem sido encontrar novos latifúndios de incerteza, que o diga quem tentou se embrenhar pela mecânica quântica . É no nível ultragranular que as hipóteses de Navier-Stokes, porque supõem comportamento sempre suave e contínuo dos fluidos, deixam de enxergar o que se passa com uma realidade que é descontínua, particulada e aleatória.

As verdades provisórias da ciência, ilhotas de menor incerteza num oceano de vastas incertezas, continuam a parir façanhas. Aviões voam cada vez melhor, foguetes viajam à órbita da Terra e aterrissam incólumes de volta na superfície, remédios tratam o que não tratavam há uma década e redes de computadores ajudam a elucidar os desafios da matemática.
Enquanto os brutamontes do dogmatismo cavalgam em certezas, a ignorância estruturada, adaptativa e evolutiva da ciência lhes permite disseminar as suas asneiras num mundo mais confortável. Ao menos materialmente mais confortável.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciusmota/2026/09/quem-propaga-certezas-nao-e-cientista.shtml.

Retrato de Isaac Newton - Reprodução Instituto Isaac Newton/Wikimedia Commons · Reprodução Instituto Isaac Newton/Wikimedia Commons — Foto: UOL
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