Economia

    Quem paga a conta mais pesada? O peso financeiro no varejo

    Imagem conceitual mostra um carrinho de compras ao lado de um recibo, com elementos gráficos associados a juros e pressão financeira. A composição ilustra reportagem sobre despesas financeiras, endividamento e o impacto de uma Selic menor sobre empresas de varejo e consumo. " data-image-caption=" Imagem conceitual representa o peso dos juros e das despesas financeiras sobre empresas do varejo, em meio ao debate sobre a queda da Selic. Imagem gerada com uso de IA " data-large-file="https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2026/09/varejo-juros-divida.jpg?fit=1280%2C853&quality=70&strip=al

    InfoMoney
    8 de setembro de 2026 às 08:01
    Quem paga a conta mais pesada? O peso financeiro no varejo
    Foto: InfoMoney

    Imagem conceitual mostra um carrinho de compras ao lado de um recibo, com elementos gráficos associados a juros e pressão financeira. A composição ilustra reportagem sobre despesas financeiras, endividamento e o impacto de uma Selic menor sobre empresas de varejo e consumo.

    Imagem conceitual representa o peso dos juros e das despesas financeiras sobre empresas do varejo, em meio ao debate sobre a queda da Selic. Imagem gerada com uso de IA

    A queda da Selic costuma trazer uma associação quase automática com o varejo: juros menores aliviam o custo do crédito, podem favorecer o consumo e reduzir parte da pressão financeira sobre as empresas.

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    Foto: InfoMoney · Fonte: InfoMoney

    Mas essa conta não pesa da mesma forma para todas. Em uma amostra de 30 companhias de varejo e consumo da B3, as despesas financeiras variam de 1,3% a 23% da receita líquida em 2026 .

    Os dados fazem parte do estudo “O preço da dívida no varejo brasileiro” , da Málaga & Associados, enviado ao InfoMoney e assinado por Flávio K. Málaga e Victor Marques .

    A fotografia surge justamente quando os juros começam a ceder. Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano , na quarta queda consecutiva. O Copom, porém, deixou em aberto os próximos passos do ciclo.

    Carrinho de compras, recibo e símbolo de juros representam a pressão financeira sobre empresas do varejo
    Carrinho de compras, recibo e símbolo de juros representam a pressão financeira sobre empresas do varejo — Foto: InfoMoney · Fonte: InfoMoney

    O levantamento acompanha as demonstrações financeiras das empresas entre 2018 e 2026. Os dados deste ano foram anualizados a partir do período disponível. A amostra reúne companhias de varejo e consumo, mas também inclui segmentos adjacentes, como turismo, energia e agronegócio.

    A Málaga ordenou as 30 empresas conforme a relação entre despesas financeiras e receita líquida e dividiu a amostra em dois grupos de 15 companhias.

    Entre as mais pressionadas, essa relação passou, em média, de 5,1% em 2018 para 12,3% em 2026 . Entre as 15 menos pressionadas, avançou de 1,6% para 3,1% .

    O contraste ajuda a mostrar quem carrega hoje a conta financeira mais pesada — e até onde uma Selic menor pode aliviar empresas que chegam ao novo ciclo em condições tão diferentes.

    Para dimensionar essa pressão, a Málaga utiliza uma margem operacional de referência de 5,3% . O indicador corresponde à média de cinco anos das 15 companhias com as maiores margens operacionais da amostra, com desvio padrão de 0,5 ponto percentual.

    A comparação chama atenção porque, no grupo mais pressionado, as despesas financeiras correspondem, em média, a 12,3% da receita em 2026 — mais que o dobro dessa margem operacional de referência.

    O movimento também não começou agora. Segundo o estudo, a linha das 15 empresas mais pressionadas ultrapassou a referência de margem operacional em 2020 e não voltou a ficar abaixo dela nos anos seguintes.

    Em 2026, as despesas financeiras representam entre 4,8% e 23% da receita líquida nesse grupo. Treze das 15 companhias apresentam uma relação maior que a observada em 2018.

    A CVC aparece no topo da relação elaborada pela Málaga. As despesas financeiras da companhia passaram de 7,7% da receita em 2018 para 23% em 2026 .

    Na sequência estão Cosan , com 20,5%; Marisa , com 19%; Smart Fit , com 18,6%; e Grupo Toky , com 17,6%. O Grupo Casas Bahia registra 8,3%, ante 2,5% em 2018.

    Fonte: Málaga & Associados. Dados de 2026 anualizados a partir do período disponível.

    Os balanços mais recentes ajudam a acrescentar contexto a alguns dos nomes. A CVC registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 51,3 milhões no segundo trimestre de 2026, enquanto a Marisa teve prejuízo líquido de R$ 68,4 milhões e resultado financeiro negativo de R$ 106 milhões no período.

    A fotografia muda no segundo grupo. Entre as 15 companhias classificadas pela Málaga como menos pressionadas, as despesas financeiras representam de 1,3% a 4,7% da receita líquida em 2026 . Segundo o estudo, esse é um patamar que a margem operacional do grupo ainda consegue cobrir.

    Grupo SBF e União Pet aparecem com 4,7%. A Azzas 2154 vem logo depois, com 4,6%, seguida por Automob , com 4,4%, e C&A , com 4,3%.

    Mais abaixo estão nomes bastante conhecidos do investidor: Magazine Luiza , com 3,5%; Raia Drogasil , com 2,5%; Grupo Mateus , com 2,1%; Lojas Renner , com 1,6%; e Vibra Energia , com 1,3%.

    Fonte: Málaga & Associados. União Pet e Automob não possuem série completa em 2018. Dados de 2026 anualizados a partir do período disponível.

    A presença nesse segundo grupo não significa ausência de desafios operacionais. O Magazine Luiza, por exemplo, registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre. A Renner teve lucro praticamente estável, de R$ 404,6 milhões, mas reduziu sua projeção de crescimento da receita líquida para 2026.

    Outra leitura possível do estudo surge quando as despesas financeiras são colocadas lado a lado com a margem operacional de cada companhia.

    Na CVC, a despesa financeira equivale a 23% da receita , enquanto a margem operacional média de cinco anos considerada no levantamento é de 4,9% .

    Na Marisa, são 19% de despesa financeira para margem de 2,3% . No Grupo Casas Bahia, 8,3% para 1,6% .

    Mas nem mesmo o primeiro grupo é homogêneo.

    A Cosan, por exemplo, registra despesa financeira de 20,5% da receita e margem operacional média de 21,1%. Na Smart Fit, os indicadores são de 18,6% e 13,8%, respectivamente.

    No grupo menos pressionado, a Renner apresenta despesa financeira equivalente a 1,6% da receita , diante de margem operacional média de 10% . Na Raia Drogasil, são 2,5% e 6,1% ; no Grupo Mateus, 2,1% e 5,9% .

    Também há casos que mostram por que a classificação precisa ser interpretada dentro do recorte escolhido pela Málaga. O Magazine Luiza está entre as 15 empresas menos pressionadas pela relação entre despesa financeira e receita, com 3,5%, mas sua margem operacional média de cinco anos é de 1,9%.

    A relação, portanto, não é uma medida isolada de solvência . O estudo mede especificamente quanto da receita líquida é comprometido pelas despesas financeiras.

    Uma avaliação mais ampla de cada empresa precisaria incorporar fatores como geração de caixa, liquidez, alavancagem, cronograma de vencimentos e capacidade de refinanciamento.

    Segundo a Málaga, explica uma parte — mas não toda.

    O estudo reconhece que a alta dos juros contribuiu para o aumento da pressão financeira, mas chama atenção para o comportamento diferente dos dois grupos durante o mesmo período.

    “A diferença entre os dois grupos está na estrutura de capital herdada e no modelo de negócio, não apenas na taxa de juros.”

    Na interpretação da consultoria, o ambiente de juros mais elevados evidenciou diferenças de estrutura de capital e de modelo de negócio que já separavam as companhias.

    Na leitura da Málaga, uma redução da Selic tende a aliviar a pressão financeira, mas não elimina a necessidade de ajustes nas empresas mais pressionadas.

    O estudo argumenta que planos de recuperação não deveriam depender da volta ao ambiente de juros excepcionalmente baixos de 2019 a 2021.

    Para essas companhias, a consultoria cita alternativas como renegociação de dívidas, venda de ativos, aporte de capital e, nos casos mais extremos, recuperação extrajudicial ou judicial.

    A conclusão é que a queda dos juros pode aliviar a conta, mas o efeito será diferente em cada empresa. O ponto de partida — especialmente a relação entre despesas financeiras, receita e margem operacional — continua sendo decisivo.

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