Brasil

    Quem está ocupado o tempo todo se torna cego para o mistério do mundo

    Abraham Heschel vê no shabat pausa contra produtividade

    UOL
    31 de agosto de 2026 às 03:00
    Quem está ocupado o tempo todo se torna cego para o mistério do mundo
    Ilustração de Ricardo Cammarota, executada em técnica digital vetorial, na proporção de 13,9 x 9,1 cm. A composição horizontal apresenta, sobre fundo branco, a forma de um grande par de binóculos visto de frente. As duas lentes circulares, — Foto: UOL

    Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP

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    Ilustração de Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé de 31 de agosto de 2026 - Cammarota /Folhapress · Cammarota /Folhapress
    Ilustração de Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé de 31 de agosto de 2026 - Cammarota /Folhapress · Cammarota /Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    É possível ainda percebermos o espanto como um modo de relação com o mundo?

    Sócrates, no Teeteto, diálogo escrito por Platão , afirma "pois, esta é a paixão do filósofo: o espanto". "Não há outra origem da filosofia senão esta." A palavra para espanto é "thaumazein". Nela, ainda podemos entender "admiração profunda" ou algo similar. Repito: ainda é possível sentirmos tal espanto diante do mundo? A resposta deve ser cuidadosa. Temo que não —por razões históricas, econômicas, sociais, políticas e técnicas, além do surgimento da ciência moderna.

    Ao falar em espanto ou admiração profunda não devemos pensar em coisas como "sinto espanto diante da política miserável do Brasil" ou "tenho uma admiração profunda pela obra de Dostoiévski ".

    Quem foi Platão?
    Quem foi Platão? — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Esse espanto do qual fala Sócrates é uma experiência estética radical —no sentido da sensação profunda que nos acomete diante do que não conhecemos, do infinito do universo, do puro mistério do Ser a nossa volta— que estabelece todo um modo de pensar. Dito de outra forma: o espanto socrático determina a cognição do mundo, ou seja, o modo como conhecemos o mundo, a forma como nos movemos nele e o sentido que atribuímos a ele. Esse espanto é o oposto da banalidade do cotidiano.

    Hoje, talvez, só um astronauta vendo a Terra de fora, pequenina, mas tão essencial para nós, contra o universo escuro, indiferente e misterioso, pode nos aproximar do que diz o filósofo grego. Estamos aqui, perto do conceito de sublime definido por Kant, que é a nossa capacidade moral de compreender o infinito diante de poderes e grandezas que nos esmagam, mas que podemos, em nossa insignificância —talvez por causa dela— contemplá-las por causa de seu significado infinito, poderoso e misterioso.

    De novo: ainda somos capazes hoje, sem sair do planeta e ir para o espaço, de ter essa experiência do espanto? Temo que não. A razão dessa impossibilidade é o fato de o mundo estar desencantado, segundo o sociólogo Weber.

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    O que seria esse desencantamento? O encanto aqui, em oposição ao desencantamento, teria algo a ver com a experiência religiosa? Por que o desencantamento implicaria a impossibilidade do espanto do qual fala a filosofia?

    Aprofundemos essa questão. Vejamos outro filósofo, esse contemporâneo, que também constrói toda uma filosofia a partir da ideia de espanto, admiração, maravilhamento. Refiro-me ao filósofo judeu do século 20, Abraham Joshua Heschel. Logo sairá uma nova edição do seu clássico "Deus em Busca do Homem", em nova tradução feita por Andrea Kogan, pela Companhia das Letras.

    Heschel chega mesmo a propor uma pedagogia de admiração e maravilhamento com o mundo. Por exemplo, o lugar do shabat —o sábado sagrado que começa na sexta com a primeira estrela— no judaísmo, como dia em que não se trabalha e nos dedicamos a Deus, indo à sinagoga, estando com a família, é um momento em que o tempo se abre a uma dimensão não centrada na labuta, no cálculo do sucesso.

    Nesse sentido, "constrói-se um castelo no tempo", segundo Heschel, via sensações e a percepção de uma vida que não é esmagada por obrigações cotidianas de sobrevivência. Uma interrupção no tempo contínuo profano, como diria o historiador Mircea Eliade, em oposição ao tempo sagrado, o shabat, que se abre a Deus, transformaria nosso modo de estar no mundo. Essa transformação, em tese, nos levaria ao encanto, ao espanto, à admiração diante da pura existência das coisas. Aqui adentramos o solo da realidade como "um santuário", como diria o próprio Heschel.

    Um dos efeitos colaterais do tempo cotidiano repetitivo é a banalização do próprio tempo contado em minutos a serviço da demanda por resultados. Heschel estabelece, assim, uma crítica da vida moderna como asfixia do maravilhamento com as coisas. Quem está ocupado o tempo todo torna-se cego para com o mistério do mundo.

    A proposta de Heschel se choca até com o desencantamento do mundo, levado a cabo pela percepção deste como apenas um conjunto de causas e efeitos calculados matematicamente que destroem o mistério, reduzindo tudo a nossa volta a objetos da engenharia de resultados.

    Daí emerge nossa questão aqui. O mundo antigo, talvez pela sua própria ignorância com relação à cadeia de causas que regem as coisas, estaria mais aberto a uma percepção do mistério dessas mesmas coisas? Tendo vivido quase toda a sua existência imersa no mistério, como ficaria nossa espécie, agora, que só vê à sua volta recursos e métodos para transformar o mundo na sua própria imagem?

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2026/08/quem-esta-ocupado-o-tempo-todo-se-torna-cego-para-o-misterio-do-mundo.shtml.

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    Ilustração de Cammarota para coluna de Luiz Felipe Pondé de 31 de agosto de 2026 - Cammarota /Folhapress · Cammarota /Folhapress — Foto: UOL

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