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    Quem escuta as vítimas de desastres climáticos?

    Os desastres climáticos deixaram de ser acontecimentos excepcionais . Estudos divulgados pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) indicam que, no Brasil, eles cresceram 222% entre o início da década de 1990 e 2023. O cenário torna-se ainda mais preocupante com a perspectiva de intensificação de fenômenos climáticos extremos decorrentes do El Niño , já configurado no Pacífico. Diante disso, sucessivos governos federais vêm construindo uma estrutura administrativa voltada à prevenção e à resposta aos desastres . Essa estrutura culminou no primeiro Plano Nac

    Folha de S.Paulo
    28 de agosto de 2026 às 01:00
    Quem escuta as vítimas de desastres climáticos?
    Vários deslizamentos de terra em encostas íngremes de área urbana com casas espalhadas entre áreas verdes. A cidade se estende ao fundo sob céu nublado. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Vista aérea de deslizamentos de terra no bairro Três Moinhos, na cidade de Juiz de Fora (MG), onde eventos climáticos extremos deixaram mais de 50 mortos no início de 2026 - Eduardo Anizelli - 26.fev.26/Folhapress
    Vista aérea de deslizamentos de terra no bairro Três Moinhos, na cidade de Juiz de Fora (MG), onde eventos climáticos extremos deixaram mais de 50 mortos no início de 2026 - Eduardo Anizelli - 26.fev.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Vice-presidente do Instituto Latinoamericano del Ombudsman - Defensorías del Pueblo; professor de direito da UFPR

    Sociólogo, é mestre pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS)

    Os desastres climáticos deixaram de ser acontecimentos excepcionais . Estudos divulgados pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) indicam que, no Brasil, eles cresceram 222% entre o início da década de 1990 e 2023. O cenário torna-se ainda mais preocupante com a perspectiva de intensificação de fenômenos climáticos extremos decorrentes do El Niño , já configurado no Pacífico. Diante disso, sucessivos governos federais vêm construindo uma estrutura administrativa voltada à prevenção e à resposta aos desastres . Essa estrutura culminou no primeiro Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil , com vigência de 2025 a 2035. Construído de forma participativa e interfederativa, o plano prevê a participação da sociedade civil na gestão de desastres, mas não indica como essa participação será realizada.

    Eventos extremos, como secas extremas, podem atrasar desenvolvimento de crianças
    Eventos extremos, como secas extremas, podem atrasar desenvolvimento de crianças — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É justamente aí que se encontra uma importante lacuna institucional . Hoje não existe uma instância permanente e especializada que seja reconhecida pelos atingidos como canal de acolhimento e acompanhamento de suas manifestações. A escuta das vítimas não pode depender de mecanismos improvisados. Deve integrar a estrutura institucional permanente de resposta às catástrofes. Uma Ouvidoria Especializada em Desastres Climáticos poderia cumprir essa função. Ela não atuaria em substituição à Defesa Civil, ao Ministério Público, à Defensoria Pública ou às demais ouvidorias. Caberia a ela centralizar as manifestações dos atingidos ; encaminhar demandas e acompanhar as respostas; identificar problemas recorrentes; produzir dados sobre a reconstrução, formular recomendações e dar transparência às providências adotadas. Ao acumular a experiência de sucessivos desastres, ela teria capacidade de construir uma inteligência administrativa qualificada, transformando manifestações individuais em fonte de aperfeiçoamento e controle da ação pública.

    A experiência internacional demonstra a necessidade de um mecanismo dessa natureza. Para citar apenas um exemplo, após os terremotos de Canterbury, em 2023, na Nova Zelândia , a atuação do ombudsman produziu mudanças estruturais no modelo de preparação e resposta aos desastres. Catástrofes exigem decisões urgentes e impõem escolhas: quem será atendido primeiro, onde serão reconstruídas moradias e infraestruturas, quais prejuízos serão reparados e quais comunidades ficarão mais tempo desassistidas. Quanto maior a excepcionalidade da atuação estatal, maior deve ser o seu controle. Quanto maior a vulnerabilidade das pessoas, maior deve ser o esforço do poder público em viabilizar canais de participação.

    Um Estado que se pretenda democrático de Direito não pode medir sua resposta às catástrofes apenas pela capacidade de reconstruir estradas e moradias. Deve garantir um espaço institucional, como uma ouvidoria especializada, que una eficiência na reconstrução e equidade na atuação estatal. Dar voz às vítimas não é apenas assisti-las. É reconhecer-lhes o legítimo direito de participar, de controlar e aprimorar a atuação do Estado na reconstrução de suas próprias vidas. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/quem-escuta-as-vitimas-de-desastres-climaticos.shtml.

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