Quem disse que eu quero fazer a coisa certa?
No país dos donos da verdade, sempre aparece alguém que quer nos calar

Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "A Invenção de uma Bela Velhice"
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Passei a semana inteira pensando na roupa certa que eu deveria vestir em um evento sobre envelhecimento e felicidade em um espaço bastante badalado aqui no Rio de Janeiro .
Quando cheguei ao local, as mulheres estavam fosforescentes: sandálias douradas de saltos finos de 12 centímetros, bolsas douradas de grife, cobertas de joias, cabelos arrumados, maquiadas, unhas vermelhas. E eu estava com o meu uniforme de sempre, uma versão feminina de Steve Jobs: legging preta, tênis preto, camiseta preta, casaquinho preto, mochila preta, óculos escuros, coque e sem maquiagem . Quase invisível. Do meu jeitinho...
Para minha surpresa, aconteceu uma coisa que eu nunca havia experimentado antes nesses ambientes: eu não me senti um "peixe fora d’água" nem por um segundo. Eu estava muito confortável e confiante. Do meu jeitinho...

Comecei o debate falando durante três minutos sobre as minhas pesquisas, como foi combinado com a mediadora.
O segundo convidado falou durante 25 minutos, criticando tudo o que eu havia falado sobre envelhecimento e felicidade. Disse que não adiantava nada eu ter três pós-doutorados, estudar e pesquisar tanto, se eu não sabia como ser feliz. Afirmou que empregadas domésticas sem nenhum estudo sabiam muito mais sobre felicidade do que eu.
Depois do debate, a mediadora me pediu desculpas.
"Mirian, era para todo mundo falar três minutos. Ele falou 25. Você foi tão doce e ele tão agressivo... Ele ficou com inveja porque você foi muito aplaudida e todo mundo amou o que você falou. Eu me arrependi de ter convidado um presunçoso que se acha dono da verdade. Como desmascarar um autoritário que se acha acima do bem e do mal?"
Imediatamente me lembrei de outro dono da verdade que, anos atrás, também tentou me humilhar. É a velha lógica da dominação masculina: os dois se colocaram em uma posição de superioridade, como se apenas eles soubessem o que é certo e errado sobre envelhecimento e felicidade. Ambos abusaram da mesma retórica: "eu sou o máximo, você é uma merda!"
No primeiro caso, depois que ele desqualificou as minhas pesquisas, eu busquei me defender, provar a seriedade do meu trabalho. Mas ele conseguiu me calar. Até hoje me sinto um fracasso por não ter conseguido encontrar a resposta certa.
No evento mais recente, não nego que fiquei péssima com a grosseria dele, mas dessa vez não senti necessidade de me defender nem de provar o valor do meu trabalho.
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Depois de posar para as redes sociais, exibindo um sorriso que mal escondia seu ar de superioridade, o dono da verdade veio falar comigo.
Meio perplexa, eu disse: "Eu preciso mesmo de ajuda."
"Eu quero te ajudar a fazer a coisa certa", ele acrescentou.
Ele não queria me ajudar. Ele queria me ensinar a fazer o meu trabalho do jeito que considera certo. Na visão dele, tudo o que eu venho pesquisando há mais de 30 anos sobre envelhecimento e felicidade estava errado.
Ele então ofereceu seus serviços. Disse para eu ligar e marcar uma hora com a secretária dele. Afirmou que em quatro encontros eu iria aprender a fazer tudo certo.
Confesso que esses donos da verdade ainda conseguem me fazer sentir que eu sou uma merda. A grande diferença é que antes eu ficava ruminando durante anos o fato de não ter conseguido dar a resposta certa na hora certa. Hoje, minha dor não demora mais do que alguns minutos. E ainda pode se transformar em uma crônica com um doce sabor de vingança. Do meu jeitinho...
Afinal, quem disse que eu quero fazer a coisa certa?
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2026/09/quem-disse-que-eu-quero-fazer-a-coisa-certa.shtml.

Claudia Liz/Folhapress · Claudia Liz/Folhapress — Foto: UOL
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