Quem decide quando o algoritmo decide?
Um gol anulado por um centímetro . Grêmio x Botafogo. O torcedor protesta, a imagem aparece na tela e a discussão morre numa frase: "A tecnologia mostrou". Começo pelo futebol , mas a pergunta vale igual para a Justiça: quem decide quando o algoritmo decide? Leia mais (09/26/2026 - 22h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Um gol anulado por um centímetro . Grêmio x Botafogo. O torcedor protesta, a imagem aparece na tela e a discussão morre numa frase: "A tecnologia mostrou". Começo pelo futebol , mas a pergunta vale igual para a Justiça: quem decide quando o algoritmo decide?
O impedimento semiautomático promete rapidez e precisão. Câmeras registram o lance, um programa refaz a posição dos jogadores e entrega o resultado à arbitragem. O humano valida. Parece simples. Só que validar uma resposta que já vem pronta é o mesmo que decidir?
Antes de aparecer na televisão, aquela linha depende de escolhas. Que ponto do corpo conta? Em que momento exato do contato com a bola a imagem se congela? Que margem de erro se admite, e quem foi que definiu essa margem? São perguntas que ficam.

A câmera registra posições; o que elas significam, quem diz é a regra. Um braço adiantado não torna o jogador impedido; outra parte do corpo, sim. Transformar essa diferença em uma linha na tela exige interpretar a regra e convertê-la em instruções para o programa. Ou seja: há decisões humanas dentro da máquina, ainda que ninguém as veja.
Depois, há a diferença entre precisão e certeza . Toda medição tem limite. Um centímetro só diz alguma coisa quando se conhece a margem de erro do sistema; e, havendo dúvida, ela favorece o ataque ou a defesa? Aí já se está escolhendo como aplicar a regra.
Não proponho abandonar a tecnologia. Conferir um lance mais depressa e errar menos são avanços. O problema aparece quando a confiança no equipamento substitui a obrigação de explicar. "Foi o sistema" não encerra a conversa. Aliás, é onde ela deveria começar.

No futebol, o torcedor vê uma animação e deveria poder conhecer os critérios que a produziram. Os clubes, reféns da CBF, precisam saber como o sistema funciona e o que fazer para contestar um resultado.
E o árbitro precisa ter condições de revisar a resposta, não apenas emprestar o apito a uma decisão já pronta.
Na Justiça, o risco é maior. Um juiz ou um assessor elabora o prompt. O programa devolve um texto com aparência de raciocínio jurídico. Alguém lê e assina. Pronto: houve supervisão humana. Mas houve mesmo?

A assinatura mostra que alguém assumiu a decisão. Porém, não prova que essa pessoa examinou os argumentos, conferiu as fontes, enfrentou o caso. Um texto pode vir com erros. Pode também repetir uma conclusão inadequada.
Fundamentar uma sentença é explicar por que alguém ganhou ou perdeu. É permitir que as partes discutam essas razões e recorram. Se o juiz apenas aceita a resposta que a máquina entregou, a fundamentação vira aparência . O papel continua assinado; o julgamento é que pode ter sido terceirizado. E as consequências disso? Eis a questão.
A presença humana precisa ser efetiva. Quem responde pela decisão tem de compreender suas razões, verificar o que recebeu e poder discordar. Sem isso, ao humano resta o papel de receber a culpa quando algo dá errado. O programa não presta contas a ninguém.

O algoritmo não elimina —ou não deveria eliminar— quem interpreta: esconde as escolhas do intérprete atrás de uma resposta que se apresenta como neutra. Daí a exigência de transparência e de responsabilidade. Quanto mais poder entregamos a um sistema, mais precisamos conhecer e discutir seus critérios. Não é óbvio isso?
No futebol, está em jogo um gol, um campeonato. Na Justiça, o patrimônio e a liberdade de alguém. Nos dois casos, a frase é a mesma: "a máquina disse". E a tecnologia não nos isenta de responder pela decisão.
E há um detalhe nada desprezível no futebol: um gol anulado pelo algoritmo por um centímetro de "impedimento" pode ser a diferença entre as bets pagarem 1,7 ou 4. E, cá entre nós: se um gol é anulado por causa de um centímetro, fracassamos. O futebol já não é futebol.
TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/quem-decide-quando-o-algoritmo-decide.shtml.

Ilustração de Luiza Pannunzio - Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

