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    Quem decide o que a sua avó compartilha?

    A inteligência artificial rebaixou o custo de fabricar desinformação a ponto de tornar artesanal o antigo boato de esquina O post Quem decide o que a sua avó compartilha? apareceu primeiro em Olhar Digital .

    Olhar Digital
    20 de setembro de 2026 às 10:00
    Quem decide o que a sua avó compartilha?
    Foto: Olhar Digital

    O tio manda no grupo da família o áudio de dois minutos avisando que a vacina tem chip. O pai reencaminha um print sem data. A avó jura ter lido em algum lugar. No fim, a gente decidiu, faz tempo, que pessoas mais velhas acreditam em tudo.

    Uma pesquisa publicada no periódico Journal of Experimental Psychology: General , em novembro de 2025, com cerca de 2.500 adultos nos Estados Unidos e no Brasil, desmontou essa ideia. Segundo a publicação, pessoas idosas não são piores em distinguir notícia falsa de verdadeira, o que muda com a idade é a força do vínculo partidário, uma vez que eles tendem a aceitar como verdade e a repassar o que confirma o próprio lado, seja aquilo real ou não.

    O dado que carimbou a fama de “propagadores de fake news” vem da eleição americana de 2016, quando Guess, Nagler e Tucker ( Science Advances , 2019) apontaram que os mais velhos foram o grupo que mais compartilhou notícia falsa no Facebook. Acontece que, na contramão do que se pensa, o mesmo estudo expôs que espalhar mentira foi coisa rara, já que, de cada cem pessoas acima de 65 anos, apenas 11 repassaram algum link falso, contra 3 entre os mais jovens.

    Inteligência artificial
    Inteligência artificial — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    Acontece que, pelo senso comum, quando pensamos em divulgação de notícias falsas, numa perspectiva de “inocência digital”, acreditamos serem os idosos as maiores vítimas de golpes virtuais e os principais responsáveis pelo crescimento da viralização das fake news.

    Um levantamento de Annalise Baines, Eszter Hargittai e John Palfrey, publicado em dezembro de 2025, com 2 mil adultos americanos acima de 60 anos, mostra que cerca de dois terços dos idosos checam a fonte, leem os comentários e cruzam com outro veículo antes de acreditar.

    Quando insistimos em enxergar a pessoa idosa como a vítima preferencial do ambiente digital, deslocamos a atenção do lugar onde o problema de fato se organiza, que é a produção da mentira, e não o seu consumo. A inteligência artificial rebaixou o custo de fabricar desinformação a ponto de tornar artesanal o antigo boato de esquina, uma vez que hoje se clona uma voz, se constrói um vídeo verossímil e se distribui conteúdo falso numa escala que nenhum tio de grupo de família jamais alcançaria.

    Rodrigo Almeida
    Rodrigo Almeida — Foto: Olhar Digital · Fonte: Olhar Digital

    A fim de oferecer algum tipo de controle nesse processo de produção de conteúdo virtual, o TSE consolidou na Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, as regras para inteligência artificial na campanha, exigindo que toda propaganda criada ou alterada por IA informe, de forma destacada, que o conteúdo foi fabricado e qual tecnologia foi usada. Em 1º de setembro de 2026, por 5 votos a 2, a Corte ainda fixou o que caracteriza um deepfake e quando ele é proibido.

    Diante de tal cenário, o que precisamos reconhecer, contudo, é que toda essa arquitetura de proteção, do selo à checagem, parte de uma premissa que os próprios dados desmentem: a de que existe do outro lado da tela um sujeito ingênuo a ser tutelado de volta à razão. Se a pesquisa que abriu este artigo já demonstrou que a pessoa idosa distingue o verdadeiro do falso tão bem quanto qualquer um, e ainda assim compartilha, então aquilo que interpretamos como inocência é, na verdade, escolha e alinhamento a um lado que ela reconhece como seu.

    Enquanto tratarmos a questão como um problema de fragilidade do eleitor, e não como um problema de convicção que atravessa todas as idades, continuaremos protegendo pessoas que não pediram proteção, enquanto a mentira segue sendo produzida à vontade. A pergunta, no fim, não é quem protege a nossa avó, e sim por que preferimos imaginá-la enganada a admitir que ela sabe muito bem o que compartilha.

    Rodrigo Almeida é colunista do nosso site e as opiniões do artigo não representam, necessariamente, a opinião do Olhar Digital.

    Mestre em Gestão e Tecnologia Industrial

    Publicado originalmente por Olhar Digital. Leia a matéria completa em https://olhardigital.com.br/2026/09/20/colunistas/quem-decide-o-que-a-sua-avo-compartilha/.

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